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Zinédine Zidane

Por que Zidane, tantas vezes campeão, não é tão estudado como os outros?

07:00 BRT 06/08/2020
Zidane
Mesmo multicampeão, o técnico ainda não é visto como outros comandantes nomes do futebol mundial

Imagine um técnico que em menos de cinco anos de carreira tenha conquistado três vezes a Champions League e mais duas vezes o Campeonato Espanhol, sendo o último deles numa arrancada de dez vitórias consecutivas em que somou nove pontos a mais que o grande rival, então líder, o suficiente para ser campeão com uma rodada de antecedência. 

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Menos de cinco anos, não. Mais precisamente três anos e nove meses, porque, campeão de tudo, pediu um descanso ao fim da terceira temporada, só a segunda completa, mas logo foi convidado a retornar. Pouco mais de 200 jogos na elite, três títulos europeus. 

Foto: Getty Images

É de se pensar que esse treinador está sendo destrinchado pelos analistas, com seu jogo decodificado aos mínimos detalhes e esgotado em planilhas, pranchetas, perfis especiais, livros. Que seu perfil passa a ser inspiração para técnicos de clubes menores e das periferias do futebol, que algum torcedor por aí já tenha sonhado com ele em seu clube, que muita gente pare para assistir ao jogo não só pelos craques em campo, mas às vezes pelo homem que coordena tudo do banco. 

Esquece. 

Com Zinedine Zidane não é assim que a banda toca. O comando do francês passa à margem do lastro dos duelos Guardiola x Mourinho, não atravessa a influência da intensidade de Klopp, nem faz contraponto à forte identidade do jogo de Simeone. No tempo em que Bielsa é finalmente campeão e celebrado por sua obsessão pelo jogo, ninguém se debruça sobre as horas que Zidane passa se preparando para uma partida. 

Entre a personalidade, o time em campo e a forma com que a crítica enxerga futebol, propomos esse debate: por que os métodos e o trabalho de Zidane não são tão detalhados como os de outros técnicos? 

O JOGO 

Num texto publicado pelo jornal espanhol El País no fim de julho, já após o título espanhol desta temporada conquistado pelo Real Madrid, a chamada tem um componente interessante para essa discussão: "O francês, que há uma década não queria ser treinador, não é só um hábil gestor do vestiário, já que cada vez mais intervém na prancheta, ainda que sem obsessões táticas". 

O trabalho de Zidane é tão autoral quanto o de Guardiola ou Klopp

Esse final é importante. Talvez a grande diferença do olhar para o Real Madrid de Zidane é que os analistas não encontrem ali essa obsessão por um estilo de jogo, algo muito marcante nos trabalhos que mais chamam a atenção atualmente. 

E aí surge uma primeira questão: o quão autoral é o trabalho de Zidane

"O trabalho de Zidane é tão autoral quanto o de Guardiola ou Klopp. O que muda é que a ideia de jogo dele vem dos jogadores e não de uma filosofia que tem nome. O Bielsa quer que todo mundo jogue de uma maneira, o Klopp de outra, já o Zidane, digamos, deixa todo mundo confortável para vencer. E um time adaptável", avalia Leonardo Miranda, analista tático do GloboEsporte.com

Foto: Getty Images

Leandro Stein, da Trivela, complementa. "O Alex Ferguson, por exemplo, tinha um padrão de jogo dele, mas não com essa visão de vanguarda. O estilo era outro e as virtudes eram outras. Eu encaixaria o Zidane nisso. Não é um treinador que tem como virtude esse estilo marcante, a vanguarda, mas sim gestão de grupo e encaixe das peças. Ele tira o melhor do que ele tem e consegue passar por momentos difíceis". 

Fala também Bruna Mendes, colunista do Footure. "Durante todo o período do tricampeonato ficou muito explícito como ele conseguia tirar o máximo e potencializar cada um dos jogadores. Acredito que esse é o ponto principal dele". 

Curioso que, por não ter esse jogo tão marcado como o de outros contemporâneos, a valorização fica abalada na opinião pública. Stein relata que, nos debates envolvendo os leitores da Trivela, muita gente que acompanha o futebol internacional com atenção às vezes trata Zidane como um mero distribuidor de coletes. É como se um jogo que não se faz visivelmente envolvente soasse menor, e então Zidane não é elevado como um estrategista, muito menos um obsessivo, para pegar o termo citado no início pelo diário espanhol. 

E isso fica ainda mais forte levando em conta a característica do Real Madrid. Julio Gomes, blogueiro no UOL, considera que ali o que importa é exatamente o que faz Zidane, não exatamente apresentar grandes variações ou invenções táticas. "No Real Madrid o que interessa é conhecer as entranhas do clube, ser respeitado pelos jogadores e ninguém te encher o saco. Ele é uma lenda no clube e uma lenda como jogador. Agora, num clube pior ou não tão grande, você precisa saber lidar com o material que você tem, você taticamente precisa fazer algo diferente para achar uma maneira de ganhar jogos. Não sei ainda se ele vai dar certo em outro lugar". 

Foto: Getty Images

E o próprio Zidane já falou disso. Em maio de 2018, perto de ganhar o tricampeonato europeu, ele respondeu: "Não sou o melhor treinador, e sempre direi isso. Não sou o melhor treinador taticamente... e, bem, não preciso dizer isso porque vocês sempre dizem de qualquer maneira." Naquela mesma semana, o ex-jogador McManaman ainda comentou que o francês não recebia crédito suficiente pelas conquistas. "É sempre o mesmo resultado: troféu, troféu, troféu. Estariam pirando se fosse o Guardiola". 

Finalizando com uma analogia compartilhada por Leonardo Miranda. "Sempre que Hollywood tinha um roteiro complicado e atores difíceis, um diretor chamado Michael Curtiz era chamado. Ele era extremamente eficiente e simples, controlava todos os atores e fez um dos melhores filmes da história, Casablanca. Mas não tem o mesmo status de um Hitchcock porque seus filmes não tinham uma 'marca'. Eram filmes bons. Zidane é o Michael Curtiz: os times dele ganham, jogando de diversas maneiras". 

A PERSONALIDADE 

Foto: (C)Getty images

Não há dúvidas que, para além do jogo, há também um culto às personalidades dos futebolistas. Eles ganham e perdem partidas, mas também firmam condutas de comportamento, escolhem as palavras para entrar nos debates do momento, viram memes e gifs que às vezes contam muito também sobre seus times (ou ao menos compõem a narrativa). 

É por aí que Mourinho impôs o próprio apelido de Special One, que Klopp, enérgico, firmou um estilo rock n'roll, e que Simeone é, na beira do campo, a própria personificação de sua ideia de futebol, escancarada em seu time dentro das quatro linhas. 

Mas de Zidane não surgirá uma alcunha de autoria própria, nem a voracidade de muitos nas entrevistas coletivas. Discreto, sereno, é um personagem muito menos vistoso para manchetes e frases de efeito. Thiago Arantes, jornalista brasileiro há anos morando na Espanha, traz ainda um ponto: a proximidade do Zidane técnico com o Zidane jogador. 

"Tenho a sensação de que, pelo fato de ter sido um jogador brilhante, que deixou uma herança muito grande, ele ainda é muitas vezes olhado como um ex-jogador que está exercendo papel de técnico. Talvez isso aconteça porque Zidane parou no auge da carreira, foi auxiliar do Ancelotti e nunca se desvinculou muito da figura de jogador. O Guardiola, por exemplo, foi jogar no México, na Itália, deu uma 'desaparecida' e depois reapareceu como técnico. Muita gente considera a carreira do Zidane treinador uma continuação dele como jogador. Ele é visto como uma continuação muito fluída, muito natural". 

(Fiz o teste: ao escrever Zinedine Zidane na barra do navegador, o texto é completado por "ex-jogador de futebol". Provavelmente ainda se busca Zidane mais de uniforme que de terno.) 

Foto: Getty

Leonardo Bertozzi, comentarista dos canais ESPN, também destaca esse aspecto da transição do campo para o banco. "Se pudesse caracterizar o trabalho de alguma forma é o respeito que há por ele. Todo mundo ali viu o Zidane jogar, tem uma admiração, e nenhum dos outros [técnicos citados pela reportagem] foram tão craques. É difícil que um craque máximo consiga entender que nem todo mundo é a representação deles em campo, e acho que o Zidane tem muito mérito nesse aspecto. Mas não existe um modelo ou esquema tão associado a ele". 

Essa coisa da idolatria ao jogador também ficou clara no início da nova carreira. Thiago Arantes lembra que, quando o técnico Rafa Benítez conversava com as estrelas sobre questões técnicas - uma batida na bola de Cristiano Ronaldo, uma saída de jogo de Marcelo ou um antecipação de Sérgio Ramos -, aquilo não soava bem ao elenco. O treinador chegou a ser apelidado de El Diez, ou o camisa 10, uma ironia para o fato de um ex-jogador medíocre tentar ensinar fundamentos básicos à primeira prateleira do futebol. 

Com Zidane, tudo se inverteu. Campeão de tudo e um dos maiores de seu tempo, ele consegue conversar de igual para igual com um melhor do mundo. Tem em Casemiro, por exemplo, não só um atleta de seu elenco, mas um fã. Leandro Stein ainda se recorda de um episódio no começo da trajetória do francês na nova função, quando ele faz uma disputa, aquelas brincadeiras de fim de treino, com Ronaldo, e ali mostra que entende daquele negócio de chuteira, grama, bola. 

Foto: Getty

"O Zidane sempre foi muito mais quieto, mesmo quando jogador. Ele não faz questão de ser um personagem, ele faz questão de ter um baita relacionamento com seus jogadores no vestiário", completa Julio Gomes. 

A GESTÃO 

Ao se colocar a lupa sobre a capacidade para enfileirar títulos por um clube do tamanho do Real Madrid, Zidane é posicionado naquela prateleira dos bons gestores. Porque se o francês não tem o carimbo dos loucos por pranchetas, é inegável que ele passou por cima de ruídos e crises. 

James Rodriguez sem jogar, Gareth Bale fazendo bico por ficar no banco de reservas, nada disso abalou a arrancada para o título espanhol recente. "Diferente do Mourinho, por exemplo, que já estaria tacando fogo em tudo", adiciona Leandro Stein, concordando que a serenidade de Zidane em tocar um vestiário deste tamanho é notável. 

"O Zidane sabe que o Real sempre foi um clube onde o jogador é valorizado, onde há uma cultura de ídolos e não uma cultura de um jeito de jogar. Por isso ele é extremamente maleável e não aparece", completa Leonardo Miranda. 

Foto: Getty

Essa gestão silenciosa, esse "não aparece", aumenta a valorização do tal controle do elenco. Zidane não vai expor seus atletas e nem vai se colocar como o grande maestro da orquestra. Muito menos chamar a atenção em respostas polêmicas ou engraçadas, nem ser a figura marcante - o que mais trabalha, o que mais sofre, o que mais qualquer coisa. 

E isso bate com a conversa sobre seu principal foco: melhorar seus jogadores, um a um, potencializando seus desempenhos. "Esse aspecto acaba tomando conta exatamente por ele pegar um elenco depois de uma temporada bem abaixo do ideal e conseguir um título de pontos corridos, troféu que sem a regularidade é praticamente impossível de ser conquistado", aponta Bruna. 

OS JOGADORES 

Então se Zidane não é o cara marcado pelas grandes estratégias coletivas, o fator fundamental dessa arrancada para o título espanhol é a valorização da capacidade de seus jogadores. 

"Ele mexeu muito bem nas peças, soube enxergar os jogadores, fazer os mais novos renderem, outros se recuperarem. Casemiro para mim fez a melhor temporada de sua carreira, Toni Kross jogou mais solto e decidiu mais partidas, Modric voltou a se mostrar mais confiante. O Mendy rendeu bem, o Marcelo melhorou em relação à temporada passada. E o achado que foi o Valverde. Da mesma forma que na passagem anterior a entrada do Casemiro no time foi fundamental, agora o Valverde foi o que ele encontrou para ser o ponto de equilíbrio", acrescenta Leandro Stein. 

Foto: Getty Images

Julio Gomes também coloca esse título espanhol de 2019-20 como o momento em que Zidane precisou ser mais ativo, colocando o dedo em cada escolha no time. "Tem uma entrevista de um dos auxiliares do Zidane em que ele diz claramente que eles não têm uma forma marcada de encarar as partidas. Precisa atacar mais? Vamos com os moleques brasileiros abertos para esticar o campo. No outro jogo tem um time que é mais forte? Então coloca quatro ou cinco meio-campistas. E nesse título isso fez a diferença. O Zidane foi montando o time ao longo do ano, ele não ficou refém de nenhum jogador, nenhum sistema, e nisso teve muito mérito". 

Aqui vale separar dois nomes. Primeiro Sérgio Ramos, que assume todo o madridismo e tem sua liderança, sua liberdade e até sua controvérsia (violento para uns, apenas firme para outros) bancadas pelo treinador, o que o faz parecer cada vez maior na história do clube e na influência que consegue levar a campo. 

Foto: Getty

E Benzema. Sem Cristiano Ronaldo, o camisa 9 deixou o papel de coadjuvante e viu a possibilidade de ter uma atuação mais protagonista, o que simboliza tudo que falamos até aqui sobre o técnico: prioridade total ao valor individual respeitando as características dos jogadores, os deixando à vontade. 

"No fim, é extremamente tático encontrar essas soluções para os jogadores. Para mim o que marca é essa capacidade de se modificar e se adaptar ao meio muito mais do que botar algo que ele acredita antes do contexto em que ele está", afirma Leonardo Miranda. 

"Grandes e vitoriosos técnicos podem não ser grandes influenciadores de outros, como Guardiola e Klopp são, e ainda assim podem ser caras muito competentes e vitoriosos. O Zidane é um potencializador", adiciona Leonardo Bertozzi. 

E vale lembrar que não se trata de um time qualquer, mas sim de um dos grandes compradores do mundo. Zidane não só precisa lidar com tantas estrelas no clube como a todo momento tratar de entradas e saídas. Muito se fala que Mbappé, Haaland ou Pogba estão na mira para a próxima temporada, e é claro que uma camisa tão pesada está sempre de olho no mercado, e isso obviamente vira pauta para o treinador. 

Foto:Getty Images

Na última virada de ano, numa situação difícil no Campeonato Espanhol, ele foi perguntado se precisava de reforços enquanto Hazard, por exemplo, não rendia o esperado. "Absolutamente não", respondeu. 

Agora, apesar do título, a renovação não tem sido simples. Além do citado Hazard, que admitiu ter feito a pior temporada de sua carreira, Luka Jovic é outro reforço que ainda não brilhou. Outra aposta, nos garotos brasileiros Vinicius Jr. e Rodrygo, também ainda está em fase de consolidação

Fato é que, mesmo que o clube passe por um verão europeu sem contratações de grande impacto, é difícil imaginar que o treinador irá reclamar publicamente de não ter uma nova estrela pronta para seu time. Como disse o presidente Florentino Pérez na última conquista, a 11ª taça do comandante francês no clube, "Zidane é uma benção para o Real Madrid". E cada dia mais, a seu jeito, parece o homem ideal para o banco merengue