Zidane superou saída de CR7 e fez o Real campeão em seu trabalho mais autoral

Administrar egos inflados no vestiário do Real Madrid está longe de ser o único mérito do treinador francês

Zidane aparentemente tinha muito mais a perder do que a ganhar quando, no meio da temporada passada, aceitou voltar a um Real Madrid bem diferente daquele que pouco antes, sob o seu comando, havia conquistado três títulos consecutivos de Liga dos Campeões da Europa. A grande diferença estava na ausência de Cristiano Ronaldo, maior artilheiro do clube e da própria Champions. Mas em sua primeira campanha completa desde o retorno, o ídolo francês provou, com o seu trabalho mais autoral como técnico até aqui, que o resultado de sua parceria com o clube merengue dificilmente não é a vitória.

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O Real Madrid confirmou, nesta quinta-feira (16), o título espanhol da temporada 2019-20 após bater o Villarreal, acabando com as chances de um tricampeonato consecutivo do arquirrival Barcelona. Foi o 11º troféu conquistado por Zidane neste seu período como treinador – todos eles representando os merengues. Mas por que um técnico tão vitorioso não era visto como um grande estrategista? Você pode encontrar mais de uma resposta.

Em primeiro lugar porque o grande mérito de Zidane, desde que foi alçado ao cargo de treinador do Real (em 2016), foi se mostrar um domador de egos em um vestiário inflado deles. O histórico como craque do clube e do futebol, aliado ao temperamento sereno, ajudou a fazer com que as peças fossem encaixadas para darem o resultado que todos esperavam. Em segundo lugar, até como consequência, pela comparação: Zidane nunca foi um revolucionário tático do jogo, como Pep Guardiola ou Jurgen Klopp; em terceiro, e talvez mais importante, porque o próprio Zidane fazia questão de deixar isso claro.

“Eu não sou o melhor treinador e sempre vou dizer isso. Eu não sou o melhor treinador na parte tática... e, bom, eu não precisava dizer isso porque vocês (imprensa) sempre dizem isso de qualquer jeito”, disse Zizou antes da final da Champions League vencida sobre o Liverpool, em 2018. Foi ainda no gramado, em meio às comemorações daquele título, que Zidane chocou o mundo ao anunciar que deixaria o Madrid.

O grupo que entrou para a história com o tricampeonato seguido na Champions ficou mais marcado pelo brilhantismo individual, especialmente de Cristiano Ronaldo, do que por um futebol complexo e cheio de nuances. Isso não quer dizer que o time de Zidane não tivesse seus méritos táticos, mas o foco era no desequilíbrio que um craque podia fazer e o maior acerto do francês naquela época foi ter convencido suas estrelas a aceitarem a rotação de elenco. CR7, especialmente, se beneficiou bastante deste método – rendendo, também por ter entrado nesta roda do descanso, o seu melhor quando a campanha chegava em sua parte final.

Quando aceitou voltar para o Madrid, em meio a tanta desconfiança sobre a sua capacidade de organizar um time sem Cristiano Ronaldo (vendido para a Juventus), e com o risco de ver a imagem de técnico vitorioso ruir, ser apenas uma liderança tranquila no vestiário não resolveria todo o problema.

Caberia a Zidane reorganizar muitas peças jovens e novas a um tabuleiro bagunçado – que meses antes, ainda sob o comando de Santiago Solari, havia caído nas oitavas de final da Champions League sofrendo uma goleada por 4 a 1 para o Ajax em pleno Bernabéu. A missão foi clara: consertar a casa para possibilitar a formação de uma nova época de grandes vitórias no futuro – com a obrigação madridista de também fazer isso enquanto se grita ‘campeones, campeones.. ole, ole ole’.

O início de caminhada não foi fácil para o Real Madrid, que seguiu irregular na primeira parte da temporada sob o 4-2-3-1 montado pelo francês. Ainda em meio às desconfianças, Zidane voltou ao 4-3-3 e a entrada do jovem meio-campista Fede Valverde deu ritmo e vida nova às transições madridistas. A energia do uruguaio de 21 anos ajudou Casemiro a se preocupar mais com o lado defensivo do jogo, ao mesmo tempo em que ajudou o ataque, comandado por um Benzema em forma encantadora, a crescer. A equipe passou a dar sinais de melhora já no fim de 2019.

O ano de 2020 também mostrava um futebol mais seguro do que, por exemplo, o do rival Barcelona, então líder de La Liga. A liderança foi alcançada após o retorno das atividades depois da paralização por causa da Covid-19. Mas antes mesmo o Real já vinha jogando regularmente melhor, como defendeu, ainda em meio ao lock-down, o goleiro Thibaut Courtois.

Zidane seguiu sendo a liderança tranquila que apazigua egos no vestiário, mas precisou lidar com problemas e reorganizar suas peças e modelo de jogo como ainda não havia feito. Talvez por isso tenha ficado tão irritado com as acusações de que o mérito do Real Madrid em La Liga fosse por decisões de árbitros, como indicou especialmente gente do Barcelona.

Um treinador não é completo apenas se for um gênio da tática, ou um exímio estrategista, da mesma forma que administrar diferentes personalidades não basta por si só. É preciso fazer tudo isso. Foi o que Zinedine Zidane fez de forma inquestionável - e como ainda não havia feito - neste seu Real Madrid campeão espanhol em 2019-20.

Tudo isso coloca o trabalho de Zidane num grau de protagonismo equiparado aos de Courtois, Sergio Ramos, Casemiro ou Benzema – dentre outros –  no primeiro grande título do Real Madrid desde a saída de Cristiano Ronaldo.

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