Flamengo: as brigas políticas de um clube dividido

Longe das glórias de 2019, o Rubro-Negro esbarra em adversários mas também em disputas internas

A eliminação do Flamengo para o Racing nas oitavas de final da Copa Libertadores da América é apenas mais um capítulo de um time que não tem absolutamente nada a ver com aquele que conquistou o mesmo torneio e o Brasileirão em 2019. E se dentro de campo as coisas já estão diferentes, fora dele o clima nos bastidores piora ainda mais a cada dia

Lideranças importantes da atual diretoria não falam a mesma língua. A passagem de Domènec Torrent, treinador contratado para substituir Jorge Jesus, foi um dos episódios que intensificou a briga interna. O catalão era uma escolha do vice-presidente de futebol, Marcos Braz, que ganhou a queda de braço respaldado pelos até então bons resultados no futebol. 

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Uma outra ala da diretoria ligada a Luiz Eduardo Baptista, o BAP, tinha escolhido o espanhol Miguel Angel Ramírez, treinador do Independiente Del Valle. Longe de ser unanimidade, Dome conheceu o inferno no Ninho do Urubu. O catalão conviveu com inúmeras pressões e teve o trabalho minado desde o início. 

Os vazamentos de treinos e escalações completas se tornaram mais recorrentes. A riqueza dos detalhes fizeram com que, internamente, o Flamengo começasse uma busca firme pelos responsáveis. Dentro do clube, "dois lados" se acusam de "traidores da pátria" e o clima para os funcionários que trabalham no dia a dia do Ninho do Urubu é péssimo. Todos desconfiam de todos. 

Mas os problemas de Domènec no clube passaram longe de serem apenas esse. O Ninho do Urubu se transformou num ambiente de boatos e grupinhos, separados entre os que apoiavam as decisões (Domènec) do vice-presidente de futebol e aqueles que defendem uma outra ala da diretoria. Depois da derrota para o Del Valle, por exemplo, um grupo político ligado à atual gestão veio a público exigir as saídas do catalão e de Braz.

Através do Twitter, o FlaFut, que tem Dekko Roisman como representante no conselho de futebol, publicou uma carta exigindo a saída do treinador e alfinetando Marcos Braz. Na ocasião, o vice-presidente foi questionado sobre o caso e disse entender que diante desta situação ou o representante deixava a diretoria ou se desligava do grupo. No fim das contas, tudo continou na mesma. 

Com tantos problemas internos, a saída de Domènec parecia uma questão de tempo e aconteceu depois da derrota por 4 a 0 para o Atlético-MG, dois dias antes do primeiro jogo das quartas de final da Copa do Brasil contra o São Paulo. Diante do resultado, Braz não conseguiu segurar mais Dome e foi atrás de Rogério Ceni, nome escolhido principalmente por BAP. Mas nem mesmo a chegada do novo treinador, que era bem avaliado por todos os grupos políticos, foi capaz de unir a diretoria. 

Ao desembarcar no Flamengo, Ceni tocou num ponto importantíssimo para a disputa dos dois lados: Diego Alves. O atual treinador deseja a permanência do goleiro, mas a renovação do camisa 1 é mais um capítulo do clube dividido. Depois do departamento de futebol oferecer um novo contrato ao arqueiro, o financeiro, com aval do presidente Rodolfo Landim, travou a negociação, deixando Marcos Braz irritadíssimo.

DISPUTAS ANTIGAS 

Desde o início da gestão, inclusive, Diego Alves é um ponto de desentendimento entre os "dois lados" da diretoria. Quando Landim assumiu, o camisa 1 estava afastado e Marcos Braz foi o primeiro a defender a continuidade do jogador. Outra ala da diretoria, no entanto, desejava investir em Tiago Volpi, hoje no São Paulo. O vice de futebol conseguiu ganhar a queda de braço e perdeu a primeira logo em seguida, na contratação de Abel Braga, treinador escolhido por BAP

Rogério Ceni Diego Alves Flamengo São Paulo Copa do Brasil 11 11 2020
(Foto: Flamengo / Divulgação)

A janela de transferências sempre causou atrito entre os dois lados. Em seguida, Filipe Luis foi o pivô de mais uma disputa. Se Marcos Braz queria o lateral, BAP deseja investir em Guilherme Arana, hoje no Atlético-MG. No entanto, o vice-presidente de futebol, depois de um longo período de negociação, levou a melhor na disputa. 

Depois de ganhar quase tudo em 2019, esperava-se mais tranquilidade nos bastidores, mas o ano já começa complicado com a saída de Paulo Pelaipe. O gerente de futebol, que já havia acordado com Braz e Spindel a renovação de contrato, foi mandado embora pelo presidente Rodolfo Landim. Ele era um nome forte no dia a dia, tanto com o elenco como com o treinador Jorge Jesus. 

ELEIÇÕES E PROBLEMAS NO DEPARTAMENTO MÉDICO

As pressões em cima de Marcos Braz aumentaram após o dirigente optar por disputar as eleições no Rio de Janeiro como vereador. Braz recebeu o aval de Rodolfo Landim, mas encontrou muita resistência internamente. Há quem acredite que a "permissão" foi dada com o intuito de enfraquecer o vice-presidente de futebol, que pode ser um adversário complicado em dezembro de 2021, caso decida por trocar de lado. 

Os problemas com o departamento médico, cheio nos últimos meses (o Flamengo teve em média 7 desfalques por jogo num período de dois meses), foram colocados na conta de Marcos Braz. O setor passou por uma reformulação e os novos contratados são muito questionados por uma ala da diretoria, principalmente pela ligação com alguns atletas e com o próprio vice-presidente de futebol. 

Em recente entrevista coletiva, Márcio Tannure, chefe do departamento médico, assumiu publicamente toda a responsabilidade pelas contratações, o que não agradou uma parte dos dirigentes

ANO PASSOU LONGE DOS SONHOS

No início do ano, a diretoria planejava um ano de hegemonia, chegando longe em todos os campeonatos. No planejamento financeiro, por exemplo, o desenhado era chegar ao menos na final da Copa do Brasil e nas semis da Copa Libertadores. O Flamengo caiu antes nas duas competições. Agora, mais do que se reestruturar financeiramente, o clube precisa também de paz política. 

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