Discussão sobre Messi x Pelé não precisa apagar gols feitos em amistosos

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Goal Brasil
Que o Rei jogou muitos amigáveis ou que os adversários do Barcelona em La Liga sejam fracos, pouco importa: os tempos no futebol mudaram - e muito

À medida que Lionel Messi empilha artilharias a cada fim de temporada, crescem os debates sobre o lugar do argentino na história. E, para falar de história no futebol, cedo ou tarde, na verdade mais cedo do que tarde, esbarra-se em Pelé, o símbolo máximo do esporte mais popular do planeta.

Aliás, já registro de cara: penso que qualquer fã de futebol tem o direito de colocar qualquer jogador como o seu preferido. Inclusive talvez isso seja o grande barato. O debate do futebol é o ambiente da comparação, e faz parte da essência de viver o jogo. Meu 10 é melhor que o seu, meu goleiro fez mais milagres decisivos. Faz parte.

Agora, o que me incomoda são distorções do tempo que desconsideram o contexto da época sobre as carreiras dos jogadores. Mais especificamente, neste caso, o cenário dos amistosos jogados por Pelé.

Na segunda-feira, a Folha de S. Paulo publicou a reportagem 'Messi pode ser o 1º a fazer mil gols sem contar amistosos'. O texto, dos ótimos Alex Sabino e Bruno Rodrigues, aponta os números e lembra que quase metade dos gols de Pelé foram feitos em jogos não-oficiais. Já Messi tem pouquíssimos em amigáveis, todos pela seleção argentina.

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A discussão vem de muito tempo e abrange praticamente toda a imprensa. É uma forma da geração atual ver o mundo, tentando entender o momento distante. Uma reportagem recente do GloboEsporte.com também diz que, para efeito de comparação com Messi, "poderíamos descartar aqueles [os gols] marcados contra combinados de equipes, seleções nacionais e selecionados locais", mas como entender hoje que diabos queria a Bulgária jogando o Santos de Pelé num tempo sem televisão? Até mesmo nós, da Goal, já tratamos os números dos amistosos de Pelé como algo menor, que possa ser deixado fora da conta. E são vários os exemplos do tipo.

Registrei numa thread no Twitter um questionamento ao tratamento que damos aos amistosos do Santos e da seleção brasileira da época. "Me soa anacrônico. Tanto quanto daqui 40 anos, quando talvez um campeonato europeu vai substituir as ligas nacionais e alguém vai falar que a maioria dos gols do Messi era no [Campeonato] Espanhol".

E aí chovem mensagens exageradas de ambos os lados. Do que acha que o Pelé jogou num período de semi-amadores (e o Rei era um profissional que voltou na máquina do tempo?) até quem considera que a maioria dos times da liga espanhola atual lutaria contra o rebaixamento no Paulistão.

Nem um, nem outro. O ponto é que ambos jogaram a elite do esporte em seu devido tempo. Contra timaços e timinhos, jogos com valores competitivos variados e relevâncias simbólicas diversas, jogando no maior clube possível para o respectivo lugar no mundo. E, no caso de Pelé, isso passava pelos amistosos. Afinal, se o maior jogador de sua era fez mais de 500 gols em partidas que não corriam por campeonatos, por que será que ele teria perdido tanto tempo chutando bolas que não valiam de nada? Porque valiam.

Um exemplo: Em 1959, o ano mais artilheiro da vida de Pelé, o Santos fez sua primeira excursão para a Europa. Foi uma temporada de 99 partidas, sendo que o time ganhou o Rio-SP (9 jogos) e o Paulista (41), além de ser vice da Taça Brasil (4). Ou seja, fossem pelos jogos chamados "oficiais", Pelé teria a oportunidade de atuar 54 vezes, sendo só quatro contra times fora de São Paulo e Rio de Janeiro (pegou Grêmio e Bahia). Era um tempo sem liga brasileira, Taça Libertadores e muito menos Mundial de Clubes. Mal havia a ideia de campeão nacional. Por isso a força se media muito nos encontros pré-agendados entre os clubes, nas viagens, nos duelos entre escolas de futebol. O Santos virou o melhor time do mundo por atravessar o Atlântico e modular sua grandeza nesses desafios que atravessavam as semanas num tempo sem calendários nacionais e internacionais bem definidos.

Tão relevantes eram os amistosos naquele tempo que o Brasil não disputou a Libertadores de 1966, desagradado com o regulamento, e o Santos fez quase 20 amistosos fora do país na temporada. Anos antes, o Honved, base da seleção da Hungria vice-campeã do mundo, veio ao Brasil jogar depois de uma Champions League em que disputou sob a delicada situação política no país. Por aqui, em janeiro de 1957, levou 120 mil pessoas e até o presidente Juscelino Kubitschek para um jogo "não-oficial" contra o Flamengo no Maracanã. Foi um grande marco para o futebol carioca.

O Honved é o melhor equivalente do lado de lá. Grande campeão nacional no início dos anos 1950, ganhou repercussão fora do país em dezembro de 1954, ao enfrentar o Wolverhampton num... amistoso. Abriu 2 a 0, levou a virada, mas apareceu para o público inglês, num jogo televisionado e pré-Copa da Europa. A imprensa britânica falou em "campeões do mundo". Um ano antes, boa parte daquele time estava no "jogo do século", um amistoso em que a Hungria impôs uma derrota inédita à Inglaterra dentro de Wembley.

Anos depois, o Honved seguiu para uma excursão mundial com os famosos jogos contra Real Madrid (5 a 5) e Barcelona (vitória de 4 a 3), até chegarem ao Brasil. Foi um dos maiores times de todos os tempos a partir de apresentações pelo planeta. Até hoje, nunca chegou entre os primeiros de um torneio oficial da UEFA.

Ou seja, os amistosos são protagonistas de uma elite do futebol na época, não meros acessórios, jogos preparatórios ou de lazer. Pelé passou mais de década no Santos e fez só 15 jogos por Libertadores, menos que um time pode fazer em uma temporada hoje. É uma distorção, portanto, levar a ideia de 'gols oficiais' para os anos 1960 sob o conceito de oficial que temos hoje. Viajou para fazer gols no Real Madrid, no Barcelona, na Internazionale. Viveu, via amistosos, a elite do futebol internacional e foi reconhecido mundialmente por isso, inclusive por crítica e público dos lugares por onde passava.

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Publicado por Goal.com Brasil em Sábado, 28 de novembro de 2015

Então não existem os gols do Pelé sem contar os amistosos, muito menos os gols de Pelé sem contar Estadual, tal como jamais existirão os gols de Messi sem contar o Campeonato Espanhol, por mais que um dia o Barcelona jogue apenas um torneio europeu de elite e alguém diga que "precisamos relativizar os gols do argentino naquela época em que se jogava duas vezes por ano contra times como Getafe e Espanyol".

Aliás, em relação à Copa do Mundo, parece mais fácil entender essa lupa sobre o contexto da época. Sejam fãs de Pelé ou de Messi, é quase consenso que o Mundial tinha um peso muito maior na carreira dos jogadores e na influência sobre o futebol antigamente do que hoje. Assim como os amistosos valiam mais, a Libertadores valia bem menos, a seleção nacional movia muito mais a torcida, e por aí vamos.

Contextualizar e entender os tempos, tão diferentes, é fundamental. Pelé  jogou 19 anos no Santos e não teve uma liga brasileira de pontos corridos, assim como Messi teve a Champions League a jogar todos os anos de sua vida, mas nunca só em quatro jogos. Vivem seu tempo, sem que isso possa ser muleta para que a gente se apegue a preferências, essas sim pessoais, afetivas e, no fim das contas, parte de nossa relação com o futebol.

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