Brasileirão: aceite a unificação, o máximo campeão brasileiro é decidido desde 1959

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Opinião: cada vez mais, é importante avaliar o Campeonato Brasileiro como de fato aconteceu: a partir de 1959, e não 1971

O Campeonato Brasileiro de 2019 começa neste sábado (27). É o início não apenas do principal torneio do nosso país, como também de várias polêmicas constantes que cercam resenhas do Oiapoque ao Chuí até dezembro: arbitragem, a novidade do VAR, tribunais desportivos, rivalidades, táticas, o insistente debate entre pontos corridos ou mata-mata... e a unificação dos títulos.

Quando o Palmeiras conquistou o título em 2018, torcedores alviverdes comemoraram o ‘deca’. Parte da imprensa creditou ao Alviverde o seu décimo título brasileiro, mas teve muita gente que torceu o nariz e bateu na tecla de que o Verdão havia sido ‘apenas’ hexacampeão.

Isso, mesmo após a unificação oficial e ratificada, em dezembro de 2010, que deu à Taça Brasil [disputada entre 1959 e 1968] e ao ‘Robertão’ de 1967 [quando passou, também, a contar com participações de clubes que não eram apenas do eixo Rio-São Paulo] até 1970 peso equivalente ao do Campeonato Brasileiro. Muitos podem ver como uma canetada, politicagem... mas está longe de ser uma qeustão tão simples para ser reduzida desta forma.

Embora seja uma questão complicada, confusa para alguns, sempre vi tal unificação como válida e justa. Até porque se alguns sabem o valor representado pela Taça Brasil ou Robertão, outros não fazem ideia do que eram tais campeonatos. Ou seja: para boa parte de uma nova geração, eles não tinham valor nenhum. Um erro na manutenção do legado esportivo brasileiro. Abaixo, alguns pontos importantes.


O INÍCIO DE TUDO


Copa Libertadores trophyTaça Brasil de 1959 definiu o participante na 1ª Taça Libertadores (Foto: Getty Images)

O Brasil, como um país de dimensões continentais, só começou a avaliar a possibilidade de criar um torneio para apontar um campeão nacional em 1955. Precursora da CBF, a CBD precisava ter o seu representante para a Taça Libertadores de 1960.

Com isso, o ano de 1959 teve o primeiro campeão brasileiro e, de quebra, que representou o país campeão do mundo na edição inaugural da Libertadores. O Atlético Mineiro é gigante, mas o primeiro campeão brasileiro foi um espetacular Bahia, que após três partidas finais emocionantes bateu o Santos de Pelé. Vale lembrar que, ao contrário da Copa do Brasil, este torneio foi criado para ser o máximo título nacional.

Em 1967, o torneio Rio-São Paulo [oficialmente batizado como Roberto Gomes Pedrosa, apelidado como Robertão] passou a contar com equipes de outros estados do Brasil. Afinal de contas, um ano antes o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e Natal havia mostrado, mais uma vez, que o bom futebol não se restringia às localidades paulistas e cariocas. O Robertão foi o embrião da fórmula que seria adotada a partir de 1971.


POUCOS JOGOS? NEM TANTO...


Cruzeiro Taça Brasil 1966 12 05 2017Jogadores do Cruzeiro desfilam com a taça histórica de 1966

Dentre os argumentos usados por quem não concorda com a unificação dos títulos brasileiros, está o número de participantes e de partidas. Mas, por exemplo, a primeira edição da Taça Brasil teve o mesmo número de equipes da Copa União de 1987: 16.

Tudo bem que os times de Rio e São Paulo tinham o privilégio de entrarem já nas fases mais agudas, o que era apenas um reflexo de como o nosso futebol era tratado na época. Até a sua última edição, em 1968, a Taça Brasil chegou a contar com até 22 participantes: todos clubes campeões de seus estados, ou detentores do título anterior.

O raciocínio de legitimação é simples: se um time é campeão estadual, é o melhor daquele estado; se os melhores de cada estado se enfrentam, o que prevalecer é o campeão do Brasil – na Copa dos Campeões da Europa, antiga Champions League, o raciocínio era basicamente o mesmo, mas com clubes campeões nacionais. Já o Robertão foi se aproximando do modelo que entraria em vigência em 1971.


DOIS CAMPEÕES EM UM MESMO ANO


Boca Juniors Real Madrid Club World Cup 28112000Em 2000, Boca e o Corinthians foram campeões mundiais (Foto: Getty Images)

O futebol, assim como a maioria dos esportes de massa, é um espelho de sua sociedade. E o Brasil, convenhamos, é cheio de inconsistências, injustiças e confusões. Resumindo: está longe de ser um exemplo de organização (e todos nós esperamos que isso mude um dia). Por isso, dois campeões nacionais em um mesmo ano não é nada além do reflexo de um país desorganizado em todos os campos – e há décadas! O Flamengo, por exemplo, comemora o tricampeonato estadual 1978, 1979, 1979; em 2000, o Corinthians foi campeão mundial pela Fifa e o Boca Juniors levantou a Intercontinental.

Em 1967, o Palmeiras conquistou tanto o Robertão quanto a Taça Brasil e, na temporada seguinte, Santos e Botafogo foram os respectivos detentores dos troféus. É estranho, é confuso, não é o ideal... mas é um reflexo do Brasil.

Nomenclatura dos torneios e mudanças de formato

Algumas pessoas se esquecem, ou não sabem, mas o Brasileirão desde 1971 não teve apenas infinitas mudanças em sua fórmula e número de participantes, como também seis nomes distintos. Campeonato Nacional de Clubes (1971 a 1974), Copa Brasil (1975 a 1979 e, depois, 1984, 1986 e 1987 – módulo amarelo), Taça de Ouro (1980 a 1983 e, depois, 1985), Copa União (1987 e 1988), Copa João Havelange (2000) e, enfim, Campeonato Brasileiro (1989 até hoje, exceção a 2000).


DIVISÃO CLUBISTA?


Borja - Palmeiras - Festa do título - 25/11/2018Palmeiras, na festa do Deca (Foto: Fabio Menotti/Ag Palmeiras/Divulgação)

A discussão é sempre válida, mas a impressão que se tinha com a falta de aceitação com a unificação era pela ausência de títulos ou participações [lembrando que na Taça Brasil somente os campeões estaduais entravam] de alguns dos principais clubes do Brasil.

Corinthians e Flamengo, as duas maiores torcidas do país, não tiveram conquistas nacionais entre 1959 e 1968. Além disso, na contagem geral ainda ‘perderiam’ a liderança na corrida pelo número de troféus. O Rubro-Negro, por exemplo, foi 'obrigado' a ver Santos e Palmeiras o superarem em número de troféus do Brasileirão quando a CBF deu a canetada em 2010. Já o Timão seria o maior vencedor atualmente... mas com a unificação perde - temporariamente - este privilégio.


MUNDIAL AJUDA A ENTENDER


Corinthians x Vasco - Luizão e Ramon - Mundial 2000Jogando 'história no lixo', FIFA acha que 2000 foi o 1º Mundial (Foto: Getty Images)

Em 2016, quando a FIFA cometeu o erro - devidamente corrigido - de desconsiderar a Copa Intercontinental um Mundial de Clubes, muita gente, com razão, protestou. Alguns dos contrariados, porém, não viram que muitos dos seus argumentos são basicamente iguais aos que validaram a unificação dos títulos brasileiros.

No passado, o campeão mundial era definido apenas em um jogo. Hoje, de fato, o certame tem maior caráter planetário, com equipes de todos os continentes. Mesmo assim, times dos centros principais do futebol mundial [Europa e América do Sul] ainda contam com lugares privilegiados e entram apenas na semifinal.


A UNIFICAÇÃO É VÁLIDA!


Bahia Taça Brasil 1959 12 05 2017Bahia, o primeiro campeão brasileiro

Portanto, apesar de confusa, não fique surpreso ao ler que a primeira participação do seu time em campeonatos brasileiros ocorreu antes de 1971. O máximo campeão do país é decidido desde 1959, e todo um histórico de números e estatísticas precisam (e devem!) cada vez mais ser revisto.

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