Balotelli representa uma Itália que não quer lutar contra o racismo

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Mario Balotelli Hellas Verona Brescia 2019-20
Getty Images
Desde sempre o atacante, hoje no Brescia, convive com os problemas como os vistos na partida contra o Hellas Verona

Mario Balotelli é um italiano nascido na cidade de Palermo em 1990. Seus progenitores foram imigrantes que vieram de Gana, mas aos dois anos ele foi adotado por um casal da cidade de Brescia. O talento com a bola nos pés fez com que Balotelli precisasse se mudar: o atacante teve sucesso em Milão e na Inglaterra antes de um período de renascimento na França até que decidisse, em meio a ofertas do Flamengo, retornar para o clube da cidade onde cresceu.

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Em meio a felicidade da família, especialmente de sua mãe, por enfim ver o filho pródigo vestir a camisa do Brescia, Balotelli não focou o seu discurso em grandes títulos ou feitos de enorme destaque.

“Espero, de todo o meu coração, que as coisas que aconteceram na última vez em que eu estive aqui (na Itália) não se repitam”.  O atacante falava do racismo, que infelizmente segue tão forte como sempre.

No último domingo, 03 de novembro de 2019, o racismo voltou a mostrar o seu rosto a Balotelli. O atacante, hoje com 29 anos, escutou cânticos que imitavam macacos vindos da arquibancada do estádio Marcantonio Bentegodi, em Verona. O atacante, alvo da violência racial, chutou a bola na direção dos torcedores adversários.

A vitória do Hellas por 2 a 1, com gol de Balotelli e demissão do técnico do Brescia, Eugenio Corini, obviamente não foi o tema mais abordado.

Mais uma resposta de Balotelli

Como se a situação não fosse absurda o suficiente, um dos torcedores do Hellas Verona deu entrevista justificando a sua ação e dizendo que Balotelli não é italiano de verdade. Através de um post em suas redes sociais, Mario mais uma vez falou sobre o assunto.

“Você está se referindo a situações histórico-sociais que são maiores do que vocês, pessoas de mente pequena. E aqui estão vocês, ficando loucos, ignorantes... vocês são a ruína”, disse em sua conta de Instagram.

Décadas de repetição do problema, mais forte na Itália

Romelu Lukaku Inter 2019-20 Lukaku também já foi alvo de ofensas raciais na atual temporada (Foto: Getty Images)

A atual temporada do futebol italiano está recheada de acontecimentos em que atletas negros são hostilizados por torcedores adversários. Chegou a tamanho absurdo, que até mesmo torcedores da Inter de Milão defenderam os gritos racistas direcionados por adversários ao atacante Romelu Lukaku, que defende os próprios Nerazzurri.

Balotelli é alvo de racismo desde quando chutava as suas primeiras bolas em Brescia, mas foi justamente na Inter de Milão, clube que o revelou, que o problema foi ganhando mais destaque na mídia italiana – especialmente por causa de seu talento e pela carreira construída nas seleções de base do país.

Repare bem nas datas de alguns dos episódios de racismo direcionados a Balotelli: em 2009 a Juventus foi punida duas vezes pelo comportamento de sua torcida em jogos contra a Internazionale.

Mario Balotelli Inter Mailand Juventus Serie A 04162010 Balotelli, nos tempos de Inter (Foto: Getty Images)

Um dos cânticos dizia o seguinte: “Não existem negros italianos”. Na saída de campo, Balotelli disse apenas isso: “eu sou mais italiano do que estes torcedores da Juventus nas arquibancadas”.

A Velha Senhora foi punida com um jogo com portas fechadas antes de ver sua torcida repetir a dose no encontro seguinte com Balotelli.

Quando estava no Manchester City, uma partida contra a Juventus, válida então pela Europa League, trouxe preocupações justamente por causa do comportamento racista dos torcedores. Mas não é algo específico dos bianconeri. Torcedores da Roma chegaram a atirar bananas no atacante, antes de uma partida, por exemplo.E os exemplos não param por aí.

Seleção italiana

Balotelli Italia 2010 (Foto: Getty Images)

Em seu segundo jogo com a seleção principal da Itália, Balotelli escutou de cerca de 100 torcedores italianos cânticos racistas. O grupo de extrema-direita também levou uma placa com discurso de ódio para com a Itália multirracial.

“Honestamente eu não sei o que dizer. Eu tenho que escutar estes cânticos todas as vezes. Não dá para avançar (em campo) assim”, disse ao Mediaset em novembro de 2010.

“A única certeza é que, sozinho, eu não posso fazer nada. Todos precisam fazer algo contra o racismo. Estas são coisas que já estão acontecendo há um longo tempo”.

Em 2012, foi em jogo contra o Porto, de Portugal, que vieram os gritos. A UEFA puniu o clube luso apenas em 20 mil euros.

Em fevereiro de 2013, torcedores da Inter, seu ex-clube, também protagonizaram cenas de preconceito ao entoarem cânticos de macacos e também ao levarem uma banana inflável para o jogo. Recentemente, a Internazionale foi multada em apenas 5 mil euros por ofensas direcionadas a Balotelli.

Falas de Infantino mostram que nada mudou

infantino_Getty_22052019 (Foto: Getty Images)

Antes do já citado encontro entre Manchester City e Juventus, o então secretário-geral da UEFA, Gianni Infantino, disse o seguinte: “Nossa tolerância com o racismo é zero. Não temos medo de sermos muito rigorosos se houver incidentes destes em jogos da UEFA”. Era abril de 2009.

Dez anos depois, Infantino, hoje presidente da Fifa, usou o espaço que teve na premiação do The Best para fazer um apelo contra o racismo. As punições, contudo, seguem muito brandas e o protocolo oficial de combate a estas práticas, como ficou mostrado em um jogo recente da Inglaterra, são insuficientes.

Mario Balotelli Verona Brescia (Foto: Getty Images)

Seis anos atrás, durante entrevista concedida à revista Sports Illustrated, quando estava no ápice de sua carreira, Balotelli ainda precisou falar sobre o racismo no país em que nasceu, foi educado, cresceu e cuja camisa defendeu.

“Você não pode deletar o racismo. É como um cigarro. Você não consegue parar de fumar se não quiser fazer isso, e você não pode acabar com o racismo se as pessoas não quiserem isso”, disse então.

E nada mudou.

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