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Diretor do Sevilla revela decepção com Ganso e defende Sampaoli: 'Não teve respaldo no elenco'

04:30 BRT 07/09/2019
Ganso Cruzeiro Fluminense Copa do Brasil 05062019
José María Cruz vê Dani Alves como a maior contratação do clube e diz que ainda confia no sucesso de Guilherme Arana

O Sevilla que já teve Dani Alves, Adriano, Renato e Luis Fabiano hoje tenta reencontrar uma ligação de sucesso com os jogadores brasileiros, algo que não aconteceu mais recentemente com Paulo Henrique Ganso e Guilherme Arana e a partir desta temporada está nas mãos dos recém-contratados Diego Carlos, zagueiro que estava no Nantes, e Fernando, volante com passagens por Porto e Manchester City

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Na visão de José María Cruz, diretor geral do clube espanhol, Ganso tinha toda uma magia dentro de campo, mas acabou por ser uma "decepção pessoal", enquanto Arana, apesar de ter sido emprestado à Atalanta, ainda é visto como aposta para o futuro.

Homem-forte nos bastidores do Sevilla, sendo responsável por diversas áreas, Cruz esteve na última sexta-feira na Soccerex, em Lisboa, e revelou também, numa entrevista à Goal, juntamente com outro veículo brasileiro, os motivos do fracasso de Jorge Sampaoli na Espanha e que não esperava ver Dani Alves voltar tão cedo para o Brasil

O Sevilla tem um histórico de sucesso com jogadores brasileiros, mas os dois últimos, Ganso e Guilherme Arana, não triunfaram. Por quê?
A gente carrega o pensamento de que o jogador brasileiro se adapta quase sempre para jogar em um clube como Sevilla, uma cidade como Sevilla, mas, evidentemente, é impossível que todos consigam. No caso de Guilherme Arana, por exemplo, tínhamos muita expectativa, veio como melhor lateral do Brasileirão. Contratamos depois de um período amplo de observação, com muita expectativa. Acredito que o problema de Arana foi fundamentalmente uma questão de personalidade, timidez. É um jogador que tem qualidades para mostrar o seu talento no Sevilla, na Espanha, numa liga importante, mas creio que a sua personalidade dificultou a adaptação com rapidez, diferentemente do aconteceu com outros atletas como Dani Alves, Renato, que possuem personalidades diferentes, mais abertos, extrovertidos, com mais capacidade de se adaptarem rapidamente a um ambiente. Mas tenho toda confiança de que ele vai fazer uma boa temporada no Atalanta e vai voltar a ser um ativo importante.

Para a gente, o mercado brasileiro sempre foi importante, nos deu grandíssimos jogadores, como Luis Fabiano, Renato, Adriano, jogadores que foram importantes em nosso sucesso esportivo e que, além disso, utilizaram o Sevilla de alguma forma como plataforma para chegar a equipes mais importantes, melhores contratos e um reconhecimento financeiro e esportivo superior. Agora, com Fernando (volante), temos a expectativa de que ele volte a ser importante em sua fase mais madura, estava em outro país (Turquia) e pode contribuir a voltar a fazer o Sevilla grande.

Poucos são os brasileiros que têm sido contratados também...
O Sevilla olhou menos o mercado brasileiro nos últimos anos. Primeiro, porque quando começamos a olhar mais para o Brasil… Essa é uma história que nosso diretor esportivo, Monchi, sempre conta. Quando a gente contratou o Dani Alves, os nossos scouts se deparavam no Brasil com colegas de outras cinco equipes. Hoje, eles encontram 500 times diferentes representados lá. É muito complicado, sobretudo, porque as grandes estrelas jovens do futebol brasileiro, com muitos poucos jogos, veem seus times pedirem um valor muito grande de dinheiro, um efeito Vinicius Junior, Rodrygo e outros que fez com que o mercado tenha se encarecido muito. É algo que resultou difícil para clubes como Sevilla ou similares apostarem nesses garotos, porque eles já vêm com um custo tão alto que trazem uma pressão muito elevada enquanto ainda estão em processo de amadurecimento.

Não conheço (a fundo) e não posso diagnosticar eu mesmo quais são os problemas do Brasil, mas entendo que a participação de demasiados intermediários, de muitas empresas que não tem nada a ver com os clubes, que às vezes os apoiam financeiramente e recebem fatias das vendas, fazem com que os clubes brasileiros não consigam ser potentes economicamente. Mais do que isso, que os garotos brasileiros sejam muito caros para o mercado internacional e que o dinheiro acabe nas mãos de pessoas que, embora respeite, apenas tiram dinheiro do negócio.

Os problemas mencionados tiveram influência na negociação com o Pedro, que acabou por trocar o Fluminense pela Fiorentina
Acredito que tudo influencia num negócio. A questão fiscal, o custo, a dificuldade de ter que conversar com o jogador, o pai do jogador, o clube, o agente e outras empresas complicam em relação ao que era no passado trazer um jogador do Brasil. Não sei como foi com Pedro, mas, com Arana, um ano antes, acabou sendo impossível concluirmos a operação por tudo que rodeava o jogador. Pouco depois, conseguimos que algumas dessas coisas se simplificassem e aí, sim, tivemos uma negociação mais direta. De qualquer forma, esses elementos todos dificultam o acesso do clube europeu a esse tipo de jogador. Não impede, obviamente, mas fica muito mais complicado.

Dani Alves, por tudo o que foi visto dentro e fora e campo, é a contratação "case de sucesso" do Sevilla? 
Dani Alves, em termos esportivos e financeiros, foi a operação mais importante que o Sevilla fez [na história]. Nós o compramos por 1 milhão de dólares [do Bahia, em 2001] e o vendemos por cerca de 40 milhões de euros [para o Barcelona, em 2008] depois de ter deixado muitos de seus melhores anos com a gente e ter ganhado os melhores títulos que se pode ganhar com o Sevilla. Felizmente, foi para um clube muito vencedor, encontrou o melhor Barcelona da história, mas Dani contribuiu para o Sevilla".

Acredito que a contribuição dele não é valorizada no Sevilla ao mesmo tempo em que, no Barcelona, ele esteve rodeado de grandes jogadores, coincidiu com a melhor fase de Messi e isso fez com que o seu papel tenha sido mais destacado. Dani é um jogador que muda uma equipe, capaz de jogar em quase qualquer posição e que, por sua competitividade, alegria, faz melhores os seus companheiros e o time em geral".

Já o Ganso teria sido...
Para mim, Ganso foi uma decepção pessoal, mais do que do clube. Acredito que Paulo [Henrique Ganso] é um jogador extraordinário, que teve pouca oportunidade no clube. É uma opinião minha, que provavelmente técnicos e outros funcionários do clube não compartilham, mas, em sua primeira temporada, ele deu mais que outros jogadores e teve menos chances que eles. No fim das contas, para que um jogador possa ter um bom rendimento, o treinador tem que confiar nele".

Julgo que, quando trouxemos o Ganso com Sampaoli de técnico, ele pensou que seria um nome importante, mas, ao encontrar nessa mesma altura atletas semelhantes como Nasri e Franco Vázquez, fez com que tivéssemos muitos bons jogadores para pouco espaço. Ganso merecia mais espaço e, se não triunfou no Sevilla, não foi por falta de qualidade, profissionalismo, mas porque não se sentiu suficientemente importante na equipe. Acredito que o Ganso é um jogador que, para render, precisa se sentir valorizado.

Ele é o tipo de atleta que você estranha que não triunfe na Europa, mas não surpreende (totalmente) porque tem um perfil muito da América do Sul, muito do Brasil. É uma pena considerando a sua magia. Particularmente, acho que fui o mais firme defensor dele dentro do clube. Não digo porque você é brasileiro ou estou falando com um veículo brasileiro, mas porque, para mim, depois de Luis Fabiano, foi o jogador com mais técnica individual que vi no Sevilla nos últimos anos.


José María Cruz: um dos principais dirigentes do Sevilla (Foto: Divulgalção)

Chegaram a tentar contratar o Dani Alves no último mercado de transferências?
Não me consta que tenhamos falado com Dani. Não tenho conhecimento que Monchi tenha conversado com ele também. Eu, pessoalmente, pensei que Dani teria a oportunidade de prolongar a sua carreira na Europa em um grande clube como PSG, Juventus, ir para a Premier League ou talvez retornar ao Barcelona antes de voltar ao Brasil. Tinha a chance de conseguir um ou dois anos de contrato muito bom em um clube europeu. Não sei os motivos de sua volta, se queria mesmo agora ou não se sentia preparado para competir a grandíssimo nível. Para a gente, teria sido uma grande alegria, estou convencido de que teria grande rendimento, mas acho que não vimos essa possibilidade com ele". 

Assim como o Ganso, o Sampaoli foi uma "decepção pessoal" no Sevilla?
Para mim, Sampaoli não foi nenhuma decepção. Pensávamos que, depois de muitos anos com [Unai] Emery, que teve muito sucesso, gostaríamos de ter a oportunidade de fazer algo diferente. E acho que Jorge [Sampaoli] nos oferecia algo diferente. Mas creio que o Jorge de verdade, mesmo, vimos somente em uma partida, na primeira rodada da La Liga, quando o Sevilla ganhou por 6 a 4 do Espanyol. Ali, vimos Jorge em seu estado puro, porém, creio que logo, e é uma opinião pessoal minha, ele não encontrou suficiente respaldo no elenco para fazer a aposta que ele queria. Tivemos uma primeira metade de temporada extraordinária, chegamos a pensar que podíamos competir pelo título, mas, na segunda parte, com a eliminatória com o Leicester na Liga dos Campeões, não correu bem.

Agora, se olhamos mais a fundo, acredito que a temporada de Jorge foi muito boa e esteve a ponto de ser fantástica. É um grandíssimo técnico, mas que, possivelmente, e é outra opinião pessoal minha, não teve em sua comissão técnica pessoas com experiência suficiente no futebol europeu para ajudá-lo a adaptar mais rapidamente a sua forma de jogar e visão de jogo a uma equipe europeia.

Mas o Sampaoli também teve culpa no fracasso, visto a sua personalidade complicada...
Não costumo ter muito contato direto com os treinadores, mas creio que ele é uma pessoa culta, educada, sensata e, como todos treinadores, um pouquinho louco, especial, mas, para a gente, posso dizer que tudo com ele foi fácil. Não cheguei a trabalhar com Marcelo Bielsa, porém, existe quem o compare a Jorge em algum sentido. Tivemos, sim, contato com ele [Bielsa] e o nível de exigência, falta de racionalidade não tem nada a ver com Jorge, que facilitou as coisas a todos níveis.