Demissões como as de Carille no Santos levantam debate: por que esperou 2022?

Fábio Carille Santos Mirassol Paulistão 17 02 2022Ivan Storti/Santos FC

Entra ano, sai ano, mas nada muda no futebol brasileiro: técnicos são demitidos no início da temporada em meio a resultados ruins nos campeonatos estaduais. Aqueles mesmos torneios que todos, praticamente, dizem não valer nada (e que de fato são, há tempos, os menos importantes do cardápio). Fábio Carille foi o mais novo nome a aparecer nesta guilhotina: deixou o Santos, em comum acordo, após derrota por 3 a 2 para o Mirassol pela sétima rodada do Campeonato Paulista.

Estamos ainda em fevereiro de 2022 e a temporada dos principais clubes brasileiros não chegou nem a dez partidas oficiais, mas já temos seis treinadores demitidos dentre os clubes da primeira divisão além do Grêmio. Ou seja, se a temporada regular começa, no geral, no fim de janeiro, foram sete profissionais demitidos em menos de um mês de jogos oficiais.

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Além de Carille, os outros treinadores demitidos neste 2022 foram: Sylvinho (Corinthians), Enderson Moreira (Botafogo), Claudinei Oliveira (Avaí), Jair Ventura (Juventude), Marcelo Cabo (Atlético-GO) e Vagner Mancini (Grêmio).

É impossível não se perguntar: por que os clubes não optaram pela troca destes treinadores após o fim da campanha 2021 ao invés de sacrificarem tempo (que será raro neste calendário em ano de Copa do Mundo) de um trabalho que não seguirá em frente em 2022?

Vagner Mancini era o técnico do Grêmio no rebaixamento à Série B, mas recebeu um voto de confiança da diretoria pensando neste 2022. Em entrevista ao canal do jornalista Darci Filho, no YouTube, em dezembro de 2021, o vice-presidente gremista, Denis Abrahão, disse o seguinte.

“Nossa turma vai continuar. Mancini teve pouco tempo de trabalho, mostrou que é trabalhador, a cada jogo que passou o Grêmio melhorou. É um profissional extremamente experiente, tem condições de fazer um grande trabalho. Estabeleci metas e vamos buscar”.

Se Abrahão ou o Grêmio estabeleceram metas para Mancini em 2022, é difícil não pensar que o técnico as tenha conseguido. Ao menos se estivermos falando de resultado: foram quatro vitórias e dois empates no início do Gauchão. As atuações do time não agradavam, tudo bem, mas o que pesou para a demissão de Mancini, mesmo invicto, foi a pressão da torcida, ainda lambendo as feridas do rebaixamento de meses atrás.

Abrahão justificou a demissão de Vagner Mancini da seguinte forma, na primeira quinzena de fevereiro: “A pressão popular foi muito forte. Ontem (após empate com o Juventude) a reação da torcida foi demasiadamente grande. E eu cheguei à conclusão, junto com o presidente, que o momento é de mudança e vamos mudar já”.

Vagner Mancini, Gremio, 2022
Lucas Uebel/Grêmio/Divulgação

Não teria sido melhor, ciente da pressão sobre Mancini após a queda tricolor em 2021, mudar os ares e dar tempo para um novo trabalho se desenvolver? Ao manter Mancini apenas para sacá-lo meses depois o Grêmio perdeu tempo, já que é provável que tomaria tal decisão de qualquer forma. Falta convicção, não apenas ao Grêmio mas ao futebol brasileiro como um todo.

Willian Sylvinho treino Corinthians 2021
Rodrigo Coca/Agência Corinthians

O caso de Sylvinho no Corinthians guarda certas semelhanças. O técnico nunca agradou a torcida, apesar de ter atingido a meta da classificação para a fase de grupos da Libertadores, e foi demitido depois de três jogos (!!!) em 2022 após ser derrotado para o Santos treinado, ironicamente, por Fábio Carille.

O agora ex-técnico do Santos também cumpriu com o objetivo de 2021 (livrar o Peixe da ameaça de rebaixamento no Brasileirão), mas também não agradava a maior parte dos santistas. Os resultados neste 2022 foram ruins, apesar do triunfo sobre os corintianos, com o time demonstrando dificuldades para se adaptar a um novo sistema de jogo... e à ausência de Marinho, vendido para o Flamengo. Ricardo Goulart chegou como um bom reforço, mas é fato que o Alvinegro Praiano foi perdendo suas melhores peças ao longo do último ano e hoje está mais fraco do que antes.

Fábio Carille
Getty Images

Sem tantas peças, quem poderá fazer um bom trabalho na Vila Belmiro? Independentemente da resposta, o novo treinador não terá um precioso tempo de treino e pré-temporada que acabou sendo gasto com Carille.

Enderson Moreira é o caso mais único desta lista pelo contexto que envolve o Botafogo atual. Um dos protagonistas da épica campanha de recuperação na Série B que reconduziu o Glorioso de volta à elite, o técnico era querido pela torcida, tinha resultados dignos no estadual, mas não passou no crivo de John Textor, empresário que vai adquirir 90% da SAF alvinegra. O norte-americano diz que não pensa apenas de forma imediata, no “jogo a jogo”, e deseja alguém que possa implementar um estilo de futebol diferente ao de Enderson – em um time que também promete ser bem diferente do atual.

Carli Enderson Moreira Botafogo Operário Série B 15 11 2021
Vitor Silva/Botafogo

Como o contrato definitivo entre Textor e Botafogo ainda não foi assinado, as decisões em relação ao clube estão sendo definidas passo a passo. Como o americano poderia, eventualmente, pedir a saída de Enderson em 2021 ou em janeiro de 2022 se ele ainda nem sabia como as suas negociações com o Alvinegro da Estrela Solitária iriam se desenvolver?

É como se o Botafogo de 2022 tivesse um calendário próprio neste primeiro momento de sua nova realidade: as coisas só vão começar efetivamente, de forma mais clara em relação a técnico e reforços, quando a SAF botafoguense for de Textor.

De qualquer forma, Enderson entrou na mesma estatística de Sylvinho, Mancini, Carille e outros. E a pergunta fica aí no ar: por que os clubes esperaram o início de 2022 para fazer algo que, em sua maioria quase absoluta, poderiam ter feito no fim de 2021? A resposta é fácil: falta convicção e planejamento.