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Roger Machado Mano Menezes Cruzeiro Atlético-MG Campeonato Mineiro 30042017Bruno Cantini/Atlético-MG

Roger e a corneta tosca e mentalidade atrasada que apenas atrapalham

A Seleção renasceu com Tite - uma exceção em meio ao caos - e continuamos tendo talentos em quantidade e qualidade incríveis dentro e fora do Brasil. No entanto, o nosso futebol ainda sofre com incontáveis problemas, e um deles é a cultura imbecil e a mentalidade atrasada do esporte no País.

A teimosa mania de querer desempenho e resultados impressionantes para ontem persiste, assim como a ideia de que se algo dá errado, necessariamente, a culpa é do treinador. Não existe paciência e tempo para os comandantes realizarem seu trabalho da melhor forma, e isso acarreta em absurdos como o caso de Eduardo Baptista no Palmeiras.

Um erro bizarro também poderia ter acontecido no Atlético-MG, mas felizmente, para os torcedores alvinegros, isso não ocorreu.

Roger Machado é, inegavelmente, um dos melhores treinadores em atividade no futebol brasileiro atualmente. Bastam cinco minutos de conversa com o treinador para perceber sua qualidade e o tanto que ele se preparou e, não à toa, é preparado para comandar uma equipe. Jovem, moderno, com ótimas ideias e visões, tem uma bela carreira pela frente. E ainda entende bem a linguagem dos jogadores, até por ser ex-atleta. Uma feliz combinação entre o boleiro e o professor.

Roger Machado Atlético-MGBruno Cantini/Atlético-MG

O treinador chegou com moral ao Atlético-MG, mas com uma grande pressão nas costas pelo elenco recheado, as estrelas disponíveis e o enorme investimento feito. Desde sua chegada, o tópico da obrigação de uma grande conquista é debatido semana sim, semana sim.

No entanto, nem sempre uma combinação de ótimo elenco e treinador dá resultado imediato. É assim em todos os setores. Um trabalhador, por mais competente que seja, dificilmente chega em uma nova empresa rendendo o seu melhor logo no primeiro dia, na primeira semana, no primeiro mês, até mesmo no primeiro ano. Em tudo na vida, é preciso um tempo de adaptação, e no futebol, para "surpresa" de muitos bobos, também é assim.

Como é completamente normal, Roger precisa de um tempo para conhecer melhor seu elenco, seus jogadores e as opções diferentes que pode utilizar. Além disso, muitos se esquecem que o Galo teve vários jogadores lesionados nos primeiros meses de trabalho do treinador, e ocorreram mudanças com chegadas e saídas de atletas com os campeonatos já em andamento. Tudo isso torna a adaptação um pouco mais complicada e demorada.

Roger Machado Libertad Atlético Mineiro 19042016

Ainda assim, Roger vinha fazendo um bom trabalho. Como todos os times de futebol do planeta, o Atlético-MG apresentava opções e pontos interessantes e evolução, mas também equívocos e necessidade de melhoria e evolução em alguns aspectos. As críticas, porém, eram pesadas demais e, muitas vezes, injustas. 

O Galo não foi bem nos primeiros dois clássicos contra o Cruzeiro, é verdade, e derrapou em algumas partidas, mostrando irregularidade, mas também fez bons jogos, se classificou para o mata-mata com a melhor campanha da primeira fase do Campeonato Mineiro, avançou na Primeira Liga poupando jogadores e, na Libertadores, nunca ficou em situação complicada ou desesperadora para se classificar, sendo, inclusive, o primeiro time brasileiro a garantir um lugar nas oitavas de final.

Ainda assim, Roger era muito criticado pelas derrotas nos clássicos e pelo desempenho abaixo do esperado da equipe. Neste ponto, porém, muitos erraram justamente pela cultura imbecil e a mentalidade atrasada do futebol brasileiro. Para quem acompanha o Atlético-MG e viu os jogos do Alvinegro no ano, era mais do que nítido que o time era muito bem treinado e organizado. O problema vinha sendo técnico, de jogadores que estavam aquém do rendimento que poderiam ter, e também erros individuais em momentos cruciais das partidas, sejam defensivos ou ofensivos. Roger estava longe de ser o problema atleticano.

Roger Machado Atlético-MG Cruzeiro Campeonato Mineiro 07052017

Após a conquista do Campeonato Mineiro, Fred, o grande nome do Galo na temporada, confirmou a análise. "O que mais afetou nós jogadores, é que não estávamos conseguindo corresponder o trabalho que o Roger vinha fazendo junto com a comissão técnica. Nós já trabalhamos com vários treinadores e sabemos que ele é um dos melhores. Essa vitória dá mais tranquilidade e confiança para o resto do ano", disse.

Nas últimas semanas, porém, isso mudou. Roger perdeu Luan, lesionado, mas ganhou o retorno de jogadores importantes que estavam no departamento médico, além de reforços que chegaram e já estavam mais entrosados e adaptados ao Atlético-MG. O próprio técnico também já estava mais adaptado ao clube e conhecendo melhor seus comandados e as possibilidades que poderia trabalhar. Isso, aliado aos atletas se fecharem com o treinador e passarem a render em melhor nível, fez o Galo evoluir justamente em um momento decisivo.

Com ótimas atuações e mostrando evolução, o Atlético-MG bateu a URT na semifinal do Campeonato Mineiro e o Libertad na Libertadores, chegando com vantagem na final estadual e ficando em situação mais do que tranquila para se classificar ao mata-mata do torneio continental. Ainda assim, um protesto sem sentido misturado com vandalismo ocorreu na véspera do primeiro jogo da decisão contra o Cruzeiro.

Roger Machado Mano Menezes Cruzeiro Atlético-MG Campeonato Mineiro 30042017Bruno Cantini/Atlético-MG

Pelo bom futebol que já vinha sendo mostrado, o Galo não precisaria, mas deu a resposta dentro de campo com mais atuações de alto nível em sequência. Jogando com inteligência e com o regulamento, empatou com o Cruzeiro no Mineirão, mas poderia ter ganho e foi melhor no clássico, levando a vantagem para o Horto. O Alvinegro teve as melhores chances do clássico, foi perigoso nos contra-ataques e não sofreu, estando sempre bem posicionado na defesa e organizado. Victor não precisou fazer milagres, sequer grandes defesas.

Depois, goleada com time misto sobre o Sport Boys na Bolívia, com show de Cazares, Rafael Moura, Elias e Otero. E neste domingo (7), a vitória por 2 a 1 sobre o Cruzeiro, encerrando um jejum de oito jogos sem vencer o rival e conquistando o título mineiro em grande estilo no Independência.

Foi a primeira taça de Roger como treinador, e ele, além de merecedor, é um dos destaques e foi primordial na conquista. Conhecendo melhor seu elenco, o técnico mudou sua equipe em vários sentidos, deu um nó tático em Mano Menezes e conseguiu a vitória e o título.

Roger Machado Juan Cazares Atlético-MG URT Campeonato Mineiro 23042017

Roger mudou o esquema tático alvinegro para o 4-4-2. O Galo claramente teve duas linhas de quatro no dérbi, com Robinho e Fred com mais liberdade no ataque. Carioca e Adilson fizeram a dupla de volantes, Otero atuou aberto pelo lado esquerdo e Elias, que normalmente atua mais avançado no 4-1-4-1, onde sempre rende muito bem, jogou como meia aberto pela direita, e na função diferente, fez sua melhor partida com a camisa do Atlético-MG. Não só pelo gol do título, mas pelas chances criadas, ótimas investidas ao setor ofensivo e por fazer muito bem seu papel defensivo, fechando os espaços e conseguindo bons desarmes.

O Alvinegro deu a bola para o Cruzeiro, que não soube o que fazer com ela. Precisando da vitória para ser campeão e tendo a necessidade de propor o jogo, a Raposa chegou até a intermediária ofensiva, mas não conseguiu finalizar e criar chances reais nos primeiros 45 minutos de jogo. A dificuldade azul para penetrar na defesa atleticana era enorme. Victor, durante o primeiro tempo, não fez uma defesa difícil sequer e o time celeste não assustou. O Galo, por outro lado, foi letal.

Bem posicionado e organizado defensivamente, compacto, intenso com e sem a bola, muito seguro com suas duas linhas de quatro e excelentes atuações de Marcos Rocha, Gabriel, Fábio Santos, Rafael Carioca e Elias, o Atlético-MG não sofreu, e com Robinho e Fred tendo liberdade e puxando os contra-ataques, foi muito perigoso com a bola. Era nítido que o gol sairia a qualquer momento, e ele saiu em contra-golpe puxado por Robinho, que rolou para Fred, que devolveu para o camisa 7 abrir o placar. O centroavante, em fase sensacional, decide com assistências quando não marca gols.

Roger Machado Atlético-MG Cruzeiro Campeonato Mineiro 07052017Bruno Cantini/Atlético-MG(Fotos: Bruno Cantini/Atlético-MG)

Depois do 1 a 0, o Galo seguiu sendo melhor e criando as melhores chances, mas desperdiçou a oportunidade de até mesmo matar o jogo ainda no primeiro tempo. Na volta do intervalo, o Alvinegro seguiu sendo superior, mas o Cruzeiro melhorou com a entrada de Ramón Ábila na vaga de Hudson e um time ainda mais ofensivo, tendo apenas Henrique como volante, e Rafinha e Arrascaeta pelos lados e Thiago Neves, o centroavante argentino e Rafael Sóbis com liberdade no ataque. Uma espécie de 4-1-2-3 com algumas variações.

A Raposa foi para cima e empatou com um golaço de Ábila. Depois disso, cresceu no jogo e passou a dominar e pressionar. O Cruzeiro fez mais em poucos minutos do segundo tempo do que em toda a primeira etapa. A impressão era de que poderia virar o jogo a qualquer momento, mas foi então que Roger mexeu muito bem no Atlético-MG. O treinador substituiu Otero e Robinho, já cansados, por Maicosuel e Cazares, para ter fôlego novo nos contra-ataques e na marcação pelos lados, além de um armador para criar jogadas.

O equatoriano, tendo espaço para jogar, entrou com tudo no jogo. Na primeira jogada, fez um lindo lance que quase terminou em gol, após driblar três rivais e invadir a área celeste. Na segunda, após receber de Marcos Rocha, que fez um carnaval pelo lado direito ganhando a posse e deixando adversários para trás com belos dribles, Cazares deu belíssimo passe para Elias marcar o gol da vitória e do título alvinegro. O Galo, após o tento, voltou a ter o controle da partida e ser superior, e levantou a taça com merecimento. Foi o melhor time da primeira fase, brilhou no segundo jogo da semifinal contra a URT e foi muito melhor nos dois clássicos da decisão.

Roger mostrou profundo conhecimento não só dos seus jogadores, da sua equipe e das suas peças, mas também do adversário. Soube armar seu time para jogos específicos, com situações especiais, e vencer e conquistar o título. O Atlético-MG, hoje, além de muita qualidade técnica e opções no elenco, possui várias alternativas táticas, um meio-campo excelente, uma defesa coesa e bem armada e organizada, e um ataque letal. O Galo ainda pode e vai melhorar mais e evoluir, mas já mostra uma evolução considerável. Roger provou sua competência e mostrou, mais uma vez, que a mentalidade e a cultura imbecis no nosso futebol precisam mudar.

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