Palmeiras é um campeão precoce, e até por isso merece mais respeito

Derrota para o Tigres não tira os méritos do grupo jovem e do treinador recém-contratado do Alviverde

O Palmeiras campeão da Libertadores e finalista da Copa do Brasil começou a ser de Abel Ferreira em 5 de novembro de 2020. Danilo, um de seus principais jogadores, não soma 40 jogos como profissional. Breno Lopes, autor do gol do título na campanha continental, chegou há tão pouco tempo que nem inscrito no Mundial pôde ser. Rony, que deu a assistência histórica no Maracanã, era alvo da torcida em protesto na porta do CT ainda em outubro.

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O Palmeiras de 2020 (/21) é um campeão precoce, que se aproveitou de um conjunto de circunstâncias e venceu antes do que se poderia esperar de um grupo jovem e com um treinador recém-contratado. Isso não muda em nada os seus méritos, ao contrário, talvez ajude a explicar os momentos de instabilidade que tanto atiçam as provocações dos rivais.

Sim, o Palmeiras vacilou em momentos-chave de sua campanha. Correu sérios riscos de levar uma virada histórica do River Plate no Allianz Parque, fez pouco em uma final truncada contra o Santos no Maracanã e foi envolvido pelo bom time do Tigres em Doha. Convém não esquecer a força da atuação na ida da semifinal, enfiando 3 a 0 no melhor time sul-americano do momento, e das campanhas dominantes na Copa do Brasil e Libertadores – o 4 a 0 no Corinthians, maior goleada do dérbi desde 2004, entra de lambuja.

Não é muito justo esse ar de desafio ao campeão que se instalou nos últimos dias, como se fosse possível colar no Palmeiras a pecha de time “pobre tecnicamente”, ou vaticinar que ele “não pode ser comparado a outros campeões da Libertadores”. Em derrotas marcantes como a do último domingo contra o Tigres, é natural que adversários de memória curta se aproveitem do momento. Como se todo mundo pudesse ter construído campanha similar, fazendo parecer que uma espécie de “acaso” fez dele campeão.

Tigres - Palmeiras Mundial de Clubes Foto: Tigres

O Palmeiras teve lá seu quinhão de sorte nos sorteios quando vivia seu pior momento na temporada, prestes a demitir Vanderlei Luxemburgo, mas a conquista se dá muito mais pelos méritos do time formado que por isso. A ascensão do trio Menino, Danilo e Patrick de Paula após a lesão de Felipe Melo, a afirmação do modelo de jogo mais reativo e de passes longos que dá campo e tira o melhor de Rony, o gerenciamento de minutos que permitiu a Luiz Adriano ser decisivo sem problemas médicos... Todos esses pontos se somam à solidez defensiva, herança de trabalhos anteriores com Gustavo Gómez e Weverton como destaques.

Falta ainda ao Palmeiras um trabalho mais criativo diante de times mais encorpados, uma presença constante dos meias no jogo, talvez mais espaço para Willian flutuar como segundo atacante como ele fez contra o Corinthians. Só que é natural que um time precoce como esse oscile, tenha pontos fortes e fracos, ainda mais depois de uma maratona insana de jogos como a dos últimos meses.

Se esse Palmeiras tivesse um ano a mais de memórias construídas em campo, talvez fosse mais fácil entender o tamanho do feito desse time. Ter certeza de que não se trata de algo efêmero, noites brilhantes de jogadores medianos. A atuação de Gabriel Menino em Avellaneda, por exemplo, vai ser vista com olhos mais encantados se ele se firmar como uma opção de elite para a seleção brasileira.

Dois times me vêm à cabeça quando eu penso em campeões precoces, que aconteceram antes do que se esperava: o Grêmio de 1995 e a França de 2018. Sem juízo de qualidade entre os times listados, o que me interessa aqui é a linha do tempo. O time de Luiz Felipe Scolari foi campeão da Libertadores com um time montado em seis meses, sem nenhuma estrela inquestionável – a maior parte dos jogadores era quase desconhecida da crítica.

Deu liga, o Grêmio foi vivendo seus épicos e jogando um futebol duro, mas com muita qualidade individual. As peças principais foram além de um sonho de verão, se firmaram como nomes relevantes daquela geração. Arce, Jardel e Paulo Nunes dispensam apresentações, mas Danrlei, Roger, Dinho e Carlos Miguel, entre outros, também viraram bandeiras de um clube que viveu seus anos seguintes brigando por ainda mais títulos.

A França de 2018 tinha média de 25,8 anos de idade no time titular, cuja metade dos jogadores estreava em Copas. Aquela edição foi marcada por favoritos caindo de forma antecipada, algumas zebras, mas isso em nada diminuiu o feito de Griezmann, Pogba, Mbappé e companhia. A geração super talentosa conquistou o maior título de todos antes de sequer chegar ao ápice físico e técnico de um jogador profissional.

O tamanho daquela conquista, o peso das memórias construídas na Rússia, vai ser menor ou maior à medida que individualmente esses jogadores derem lastro àquele título. Não dá pra tirar o peso de uma Copa, mas o show de Mbappé contra a Argentina em 2018 vai ser muito mais relevante se for o primeiro de uma série de grandes feitos, e não um ponto fora da curva. O mesmo vale para Pogba e Griezmann, que passaram os anos recentes com muitos problemas em seus clubes.

Weverton segura bola em Palmeiras x Tigres Foto: Cesar Greco/Palmeiras

Suspeito que algo parecido vá acontecer com esse Palmeiras, hoje tratado com certo desdém pelos problemas que apresentou na reta final da temporada, especialmente com a queda no Mundial. É difícil imaginar que essa base estabelecida não vá brigar por mais títulos em 2021, os jovens do meio-campo têm tudo para se firmar como opções de elite na posição, Gustavo Gómez e Weverton devem reforçar seus status de melhores do país, e até o time como um todo, sob a batuta de Abel, tende a ser mais criativo com o passar do tempo.

Talvez aí não haja mais espaço ao tom de desafio ao campeão da Libertadores de 2020 (/21). Não que o palmeirense se importe com nada disso, é claro, estão todos ainda inebriados com o gol de Breno Lopes e o título, que é o que importa.

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