Como ia dizer 'basta'? De que maneira poderia se levantar de manhã e aceitar uma derrota? Que sentido teria tudo isso?
Lembrou de uma lição do avô. Às vezes vale a pena arriscar tudo por um sonho, uma conviccção. Pedro não tinha dúvidas: era mais importante que o neto dele fosse a treinamentos do que o próprio trabalho. Tinha acontecido uma vez e ele não queria que se repetisse: um dia, o avô disse ao neto que não tinha dinheiro para pegar o ônibus e ir para o treino. Precisavam de 13 reais. Tinha só dois. Marcelo pegou essa moeda, apostou em uma máquina e ganhou 25.
Pedro chegou a vender o próprio veículo para que Marcelo, um canhoto com enorme talento, mas que tinha algumas portas fechadas, não faltasse a nenhum treinamento. O avô nunca mais disse que não tinha dinheiro. E o neto não esqueceu disso.
O avô era como um anjo da guarda para Marcelo. "Era o único que sabia me entender, se alegrava por mim e via todos gols que eu fazia. Era uma pessoa muito boa", lembra Marcelo, que acrescenta: "eu penso: 'como você vende um carro sem saber se o neto vai virar um jogador de futebol?' Isso para mim foi a prova mais forte. Minha infância foi espetacular. Não tinha tudo que queria, mas minha família me dava tudo que precisava".
Marcelo começou jogando futsal com 4 anos e, entre os 8 e 10, atuou no futebol de areia como goleiro. "Eu me atirava na areia e não doía nada". Começou a jogar na linha no clube Helênico e depois chegou a ser recusado no Fluminense. Passou um ano no Vasco, mas foi liberado. Então o Tricolor lhe chamou de novo. Foi quando ele conseguiu se destacar e virou jogador profissional.
Quando o Real Madrid ia contratá-lo, havia propostas do CKSA Moscou e do Sevilla. Ele quase fechou com o time de Sevilha, porque o Fluminense adiantou um acordo, mas o Real tinha interesse também. Marcelo disse que preferia a equipe merengue.
O pior momento nos 10 anos de Real Madrid: "quando tinha 18 anos, um dirigente me chamou no Bernabéu e fui sozinho. Ele me disse que queria me emprestar para outra equipe, para ganhar experiência e voltar no ano seguinte. Eu disse que não ia sair de Madri. Esse foi o pior momento porque sabia que a equipe não precisava de mim e tinha que ganhar experiência, mas foi o momento no qual fui mais forte", conta o próprio Marcelo.
Aos 29 anos, não é só um dos jogadores mais importantes do elenco do Real Madrid, mas também é comparado com Roberto Carlos, outro brasileiro que fez sucesso na lateral esquerda merengue. A forma de jogar de Marcelo combina uma ambiguidade: tem o talento de quem não precisa marcar muito e também o sacrifício de quem entende as próprias limitações.
Como quando correu e sonhou que uma máquina lhe daria dinheiro para treinar. Como quando prometeu para o avô que cumpriria sua parte. Como quando voltou algumas vezes ao Helênico. Como quando insistiu com o Fluminense. Como quando disse ao Real Madrid que não sairia dali. Marcelo nunca soube dizer "eu me rendo".


