Flamengo e Fluminense, em quase 103 anos, fazem um clássico com muita história para contar. Porém, nenhum deles é tão lendário quanto o Fla-Flu da Lagoa, que definiu o título do Campeonato Carioca de 1941. Naquela partida, realizada na Gávea, as duas equipes poderiam conquistar o título, mas o Tricolor jogava pelo empate.
Atual campeão do torneio, o time das Laranjeiras tinha alguns ídolos que entraram para os livros dos recordes do clube, como o goleiro Batatais, que defendeu a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, e o atacante Russo, um dos maiores artilheiros da história tricolor, com 149 gols marcados. Já o Rubro-Negro tinha Pirillo no ataque, substituto de Leônidas da Silva, que naquele ano bateria o recorde de 39 gols no Carioca, o maior número dentre todas as edições.
Flu abre vantagem
Alguns acontecimentos bizarros daquela decisão povoam o imaginário das pessoas até hoje, embora nunca tenham sido comprovados. Em campo, mesmo jogando pela igualdade, o Fluminense começou melhor e marcou os dois primeiros gols daquela partida, com Pedro Amorim e Russo.
"Pedro Amorim cobrou a falta e a bola foi e voltou à cabeça de Affonsinho três vezes. Na última partiu de direção a Carreiro que desviou para Russo, colocando-a este novamente no arco defendido por Yustrich. Era o segundo goal do Fluminense. Uma vantagem quase intrasponível", escreveu O Globo Sportivo do dia 25 de novembro de 1941.
O time do Fluminense (Reprodução)
A "tática" da Lagoa
Em busca do título, o Flamengo partiu para cima do adversário e deixou tudo igual na segunda etapa. Os dois gols foram marcados por Pirillo, sendo um deles já na reta final. Foi aí que começou a lenda do clássico. Com um jogador a menos, o Fluminense precisou se segurar para não sofrer a virada e perder o título. Já os rubro-negros aproveitaram a vantagem e pressionaram no ataque. O goleiro Batatais estava com a clavícula deslocada, mas como os tricolores não podiam mais realizar alterações, ele seguiu até o final e ainda fez importantes defesas.
"Carreiro já havia sido expulso do gramado por excesso de preciosismo do árbitro. Batataes mal conseguia dominar a dor do braço ferido com uma pisadela proposital de Pirillo. Com o 'keeper' quase sem ação e um 'player' a menos, restava ao Fluminense defender-se da melhor forma. A forma indicada era a cera", continuava o jornal.
Mais sobre o especial do Fla-Flu:
CAPÍTULO 1:Os clássicos fora do Maracanã
CAPÍTULO 2:Momentos marcantes do clássico
No início da década de 40, a Lagoa Rodrigo de Freitas ainda não havia sido aterrada. Portanto, o estádio do Flamengo ficava a apenas três metros dela. Por isso, para evitar o terceiro gol, os jogadores do Fluminense passaram a isolar as bolas para a Lagoa, atrasando o time rubro-negro.
"Os jogadores do Fluminense iniciaram daí em deante uma tática que já se anunciava no príncipio da semana. Uma tática simples, muito velha, mas de muito efeito. A tática de bola para fora, em direção à Lagoa. A pelota subia, 'shootada' com violência e caia nagua. O juiz pedia outra e era tirado o 'out-side'. Novamente bola na Lagoa e os 'players' rubro-negros corriam à busca de outra bola", escreveu O Globo Sportivo .
Reza a lenda que, quando a última delas saiu do estádio, a diretoria do Flamengo teria mandado os seus remadores irem buscá-las. Assim, a partida teria prosseguido e a pressão teria continuado, mas sem efeito. Com o empate em 2 a 2, o Fluminense conquistou o seu 14º título carioca, garantindo o bicampeonato. Mais que isso, o Campeonato Carioca de 1941 entrava de vez para os livros com uma das histórias mais fantásticas do futebol brasileiro.
Batatais, um dos ídolos do Fluminense, e uma das grandes histórias do Fla-Flu da Lagoa (Reprodução)
Mas será que a lenda é verdadeira?
Mais de 70 anos depois, até hoje não foi possível comprovar se o caso das bolas recuperadas pelos remadores na Lagoa Rodrigo de Freitas é verídico. Nem todos os jornais da época noticiaram o fato, e alguns historiadores divergem do caso. A história, na verdade, pode ter sido aumentada.
"Nenhum jornal da época deu o registro desse fato. Somente o “Jornal dos Sports” faz breve relato. Sem exagero. O fato, de tão pitoresco, mereceria registro em todos os jornais", disse o jornalista Roberto Assaf, em uma entrevista ao Lancenet em 2012. "Naquela época, o futebol tinha cronômetro. Quando a bola parava, o juiz paralisava o tempo."
Porém, pessoas que testemunharam o fato garantem que tudo aconteceu. O relato do Globo Sportivo também ajuda na consolidação da história. Um dos grandes folclores que povoa o futebol carioca. Domingo é dia de Fla-Flu. Dia, novamente, de mais história ser feita.
