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Dívida é poder: Como o Real Madrid tem uma dívida de 600 milhões e sai ileso?

Por Kris Voakes (@krisvoakes) e Ben Hayward (@bghayward)

"Pelo 10º ano consecutivo, o Real Madrid será a instituição esportiva mais lucrativa do planeta. E, pelo terceiro ano seguido, a Forbes nos considerou como o clube mais valioso do mundo", bradou o presidente Florentino Pérez em setembro, ao anunciar o balanço financeiro da temporada 2013-14. Essa declaração é completamente válida, mas sem sentido por várias maneiras. O que ele omitiu foi que a dívida do Real Madrid chegou a €602 milhões, um acréscimo de €61 milhões comparado ao ano anterior.

Os empréstimos cresceram de 41 para €283 milhões, enquanto o passivo financeiro é agora de €459 milhões. Os incrementos na renda, custos para a administração pública e outras receitas pouco fizeram para abater o débito de €541 milhões em 2012-13, de modo que o clube continua a perder dinheiro.

Seguidamente, Pérez costuma afirmar que a dívida é muito menor, quando cita os quase 100 milhões devidos a bancos. Mas há ainda cifras enormes contra o nome do Real em dívidas a clubes, instituições esportivas, jogadores e órgãos públicos. Alguns torcedores, da mesma forma, citam a proporção da dívida ao valor total do clube anunciado pela Forbes, de 4% - comparados, por exemplo, aos 19% do Manchester United - como justificativa para os gastos do clube, embora esse percentual também faça referência apenas às dívidas com bancos.

Estes números não agradam a todas as partes interessadas do Real Madrid, de modo que alguns grupos de torcedores estejam, com razão, preocupados.

"Nos preocupa o fato de que o clube não consegue cumprir os compromissos, e pagamentos futuros que precisam ser quitados", admitiu Carlos Mendoza, presidente da Valores del Madridismo, associação de sócios do clube dedicada a preservar os valores do Real Madrid.

A dívida a curto prazo, por sua vez, pressiona ainda mais. Dos 602 milhões totais, 361 devem ser pagos ao longo dos próximos 12 meses. Em termos leigos, essa é a soma dos valores investidos nas contratações de Gareth Bale, Cristiano Ronaldo, James Rodríguez, Karim Benzema e Toni Kroos.

É claro que, na realidade, não há como a venda das cinco estrelas quitar as demandas dos credores. Mas o clube certamente não pode continuar a gastar além das suas possibilidades como tem feito recentemente. A chegada de Gareth Bale do Tottenham foi em grande parte responsável pelo aumento de €61 milhões no rombo da última temporada, e as chegadas de James e Kroos mostram que Pérez e sua diretoria não têm qualquer preocupação com os custos crescentes do clube.

Atualmente, o capital de giro do Real Madrid é de €94 milhões negativos - quer dizer que, se o clube gasta €267 milhões, precisa tirar €361 milhões de algum lugar para sanar suas dívidas imediatas. Esse número será em parte compensado com as vendas de Xabi Alonso e Ángel Di María, já que os valores pagos por James e Kroos serão quitados gradualmente no decorrer de seus contratos. É um alívio na dívida a curto prazo.

Mas isso não é nada que resolva o problema a longo prazo, já que os valores investidos em nomes como Bale, Kroos, James, Isco e Illarramendi ainda precisam ser pagos. E, enquanto isso, os lucros futuros vão sendo negociados.

"O clube tem duas novas linhas de crédito, mas ele precisou usar a renda com publicidade e as vendas dos ingressos para a temporada pelos próximos três ou quatro anos como garantia aos bancos, pois eles não confiam no clube... isso não sou eu quem diz, está nas contas anuais do clube", acrescentou Mendoza ao jornal AS.

"Basicamente, é como se o Real tivesse sido penhorado. Como quando você vai na casa de penhora, eles dão o dinheiro a você e você deixa uma garantia, algo real. Se você não pagar, eles ficam com o que você deixou lá. Nesse caso, se o clube não pagar esses valores, o banco tem o direito de ficar com os valores da publicidade e da venda de ingressos da temporada."

"Obviamente, os bancos pedem essas garantias a mais pois não confiam na situação do clube. Em circunstâncias normais, eles não exigiriam isso."

Essa enorme dívida só existe pela posição sem igual que ocuapa no esporte. Quase ninguém teria esse mesmo passe livre no mercado com valores tão altos ainda em aberto. Mas o Real Madrid é o Real Madrid, o maior clube do mundo com o maior poder de atração, a força de marca mais implacável e inúmeros contatos essenciais por mercados fora do futebol que ajudam a segurar a onda.

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DELOITTE MONEY LEAGUE -
O TOP 10
CLUBE
1. Real Madrid
2. Barcelona
3. Bayern de Munique
4. Manchester Utd
5. Paris Saint-Germain
6. Manchester City
7. Chelsea
8. Arsenal
9. Juventus
10. Milan
GANHOS 12-13
€518.9m
€482.6m
€431.2m
€423.8m
€398.8m
€316.2m
€303.4m
€284.3m
€272.4m
€263.5m

Ainda que os níveis da dívida continuem a subir, e que os rendimentos futuros sejam utilizados como capital que os permita exceder cada vez mais os gastos, os Blancos podem acabar forçados a virar uma S/A, diferente do atual modelo baseado em sócios determinados. Até o momento, o Real, o Barcelona, o Athletic Bilbao e o Osasuna foram eximidos dessa transição pelas leis esportivas da Espanha, contanto que cada um consiga ser administrado de maneira sustentável, financeiramente falando.

Por ora, eles estão a salvo: "O clube tem capacidade para lidar com a dívida, e os números mostram que o Real Madrid é economicamente solvente, dentro dos controles econômicos estabelecidos", declarou a Liga de Fútbol Profesional, responsável pelo campeonato espanhol, no ano passado.

Isso diverge dos enormes débitos que foram acumulados às custas do valor do clube. Os muitos jogadores valiosos no elenco, o valor do Santiago Bernabéu - situado num imóvel de uma área nobre, próximo ao centro da capital espanhola - e os muitos patrocínios envolvendo grandes cifras contribuíram para o valor total de €2,7 bilhões, estipulados pela Forbes.

Para o influente economista espanhol José María Gay de Liebana, porém, há risco de a barragem romper em algum momento, o que deixaria o clube com difíceis questões a serem respondidas. E ele contou à Goal que o dinheiro foi gasto com as coisas erradas.

"A dívida do Real Madrid é tão grande por causa de todos os investimentos feitos. Eles investiram pesado no Santiago Bernabéu, e também no seu centro de treinamentos. Tudo isso empurra o valor para cima, como também o investimento em jogadores", declarou Gay de Liebana.

"Quase nenhum jogador saiu das categorias de base; quase todos vieram de outros mercados, e são atletas caros. Isso significa que, mesmo tendo os recursos, o clube está se endividando ainda mais. A dívida é decorrente de tantos investimentos e, em particular, dos altos investimentos."

Esta prática acaba anulando muitas das coisas positivas do que significa ser a marca esportiva mais valiosa do mundo, como explica o especialista.

"Uma coisa é alguém lhe dar uma avaliação, de operações específicas, ou pelo Bernabéu, ou por qualquer outra coisa. Mas existe um balanço com rendas e despesas, e é preciso gerar lucro suficiente que consiga pagar as dívidas."

"Basta olhar de um ponto de vista pessoal: não importa o quanto dizem que eu valha, eu preciso encarar as dívidas e usar o dinheiro que ganho para quitá-las. É por isso que um clube ou uma empresa com dívidas moderadas está em uma situação melhor. Qualquer empresa quer ter uma dívida mais administrável para evitar complicações futuras."

"Não estou dizendo que o Real Madrid tem essas complicações no momento, mas olhe o Manchester United, por exemplo, que está fora da Champions League este ano. Por uma temporada, isso não é problema, mas se isso se estender por dois anos, pode trazer problemas a eles."

O SALDO DE TRANSFERÊNCIAS DE PÉREZ | Gastos em contratações ano a ano
TEMPORADAVENDA DE JOGADORESCOMPRA DE JOGADORESSALDO
2000-01€60.75m€119.25m-€58.5m
2001-02€0€73.5m-€73.5m
2002-03€0€45m-€45m
2003-04€31.8m€37.5m-€5.7m
2004-05€9.25m€56.7m-€47.45m
2005-06€45.1m€89.5m-€44.4m
2009-10€87.5m€257.4m-€169.9m
2010-11€10m€93m-€83m
2011-12€8m€55m-€47m
2012-13€33.5m€33.5m€0
2013-14€114.5m€166.5m-€52m
2014-15€114m€122.5m-€8.5m
TOTAL€514.4m€1.149bi-€634.95m
Fonte: transfermarkt

A introdução das leis de Fair Play Financeiro por parte da UEFA, que visam controlar os gastos dos clubes com relação a seus ganhos, pouco faz em relação às dívidas acumuladas anteriormente, já que o regulamento entrou em vigência apenas em 2011. Tampouco fez com que os clubes parassem de arrumar problemas com reformas desnecessárias a seus estádios, como a que o Real pretende fazer com o Bernabéu.

Se o clube anunciou cifras recordes em seus ganhos, de €518,3 milhões em 2012-13 (conforme o último relatório publicado pela firma de contabilidade Deloitte), ele também pagou mais do que qualquer outro clube. E Gay de Liebana questiona a ideia que têm alguns clubes, que acreditam que o futebol continuará gerando dividendos cada vez maiores, aconteça o que acontecer.

"Eu tenho uma grande pergunta: quão mais pode crescer o futebol?"

"O Real Madrid tem rendimentos acima dos €500 milhões, o Barcelona próximo disso, bem como o Bayern de Munique... eu me pergunto: há dinheiro suficiente para que os clubes continuem a lucrar cada vez mais? Veremos Barça ou Real chegaram a cifras de €1 bilhão? Eu acho difícil, no momento."

"Há uma parte de âmbito internacional, como cotas de televisão e patrocínio... mas não consigo imaginar a Liga Espanhola, a Champions League ou uma competição europeia conseguindo isso. Há uma tensão sobre essa questão dos rendimentos, e acho difícil que eles cresçam muito além do que temos hoje em dia. Tenho minhas dúvidas."

O atual nível da dívida indica que o Real Madrid - que não respondeu aos questionamentos da Goal sobre este assunto - deve torcer para que a bolha do futebol não estoure nos próximos anos. Enquanto o futebol continuar a crescer como um monstrengo financeiro, o clube continuará intocável, com um passivo que cresce ano após ano.

Florentino Pérez seguirá em uma posição de força enquanto o futebol continuar sendo o passatempo favorito de todo o planeta. Com seus contatos, seu know-how para negócios e seu histórico de segurar os credores, ele tem o perfil ideal que um clube como o Real Madrid precisa em sua posição mais importante.

A maior dívida do futebol continuará a crescer. E, da mesma forma, continuará crescendo o clube que a sustenta.

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