+18 | Conteúdo Comercial | Aplicam-se termos e condições | Jogue com responsabilidade | Princípios editoriais
Aurélien Tchouaméni FranceGetty

Como é que se forma um Tchouaméni?

A seleção marroquina de Bono, Saiss, Hakimi, Ziyech, Ounahi e Boufal é o maior time africano que muitos de nós vimos, num encontro único entre o entusiasmo do azarão, a qualidade de uma geração especial, uma torcida apaixonada numa atípica Copa do Mundo em casa e um treinador, Walid Regragui, que sabe bem que jogo seu time pode oferecer ao planeta, se segurando e partindo para a trocação contra os maiores. Sofyan Amrabat é o jogador que sonhamos ser.

A França é um time estranho, bem diferente, porque não está nem aí para uma possível demanda por amassar o adversário, como a gente costuma sentir quando times de níveis técnicos diferentes se encontram por aí. Não há aquela necessidade de controlar todos os setores, de impor a superioridade por todos os minutos, de, ó, mostrar quem manda. Pelo contrário, o barato é ir levando a partida numa boa, correndo o certo e o mínimo necessário, fazendo a bola chegar logo nas individualidades que vão guardar a qualquer momento. Fosse pontos corridos, tropeçaria para um lanterna fazendo cera num domingo de manhã.

Como joga futebol Aurélien Tchouaméni, mais um meio-campista que não precisa de muito lastro para tocar o barco à sua maneira. Ele tem 22 anos, e é inevitável pensar por que o Brasil tem tanta dificuldade em firmar jogadores jovens de construção no meio-campo que consigam dar conta do controle e da presença no setor central. Quem é o grande camisa 8 brasileiro da última década? Como é que se forma um Tchouaméni em quatro anos? Por que os caras têm outro jogador que marca, constrói, distribui e ainda faz gol de fora da área num jogo eliminatório de Copa?

Tostão é quem costuma dizer que por aqui se perdeu muito tempo dividindo a linha entre volantes e meia-atacantes, mas ainda assim eles aparecem, só ainda não houve quem se firmasse para valer no primeiro time da seleção. Houve encanto com Arthur, depois a tentativa Douglas Luiz, alguma demora seguida por certa frustração de Tite com Gerson, aí chegou Bruno Guimarães, este no grupo, mas à espera de protagonismo. Nenhum deles jogou mais que Renato Augusto, o melhor a já ter atuado entre Casemiro e Neymar nesses tempos.

Paquetá é ótimo, mas serve mais ao time que verticaliza a bola para que chegue logo aos pontas, joga um passinho à frente e tem em Neymar esse condutor que acabou distante para combinar no Qatar. Fred também é mais transição que controle. A ver que meio-campo terá a seleção do futuro.

O próximo técnico da seleção será anunciado em janeiro de 2023 num momento de total desmoralização do ciclo. O grande prejuízo de ver Tite eliminado na mesma fase e mais ou menos num mesmo perfil – um europeu que jamais venceu a Copa passou pelo Brasil mas caiu na semi –, é parecer que o que se treina, se joga e se pensa por quatro anos não valem de nada se não vier o objetivo mínimo, que é chegar no último final de semana do Mundial. Seriam 42 meses para ganhar as quartas de final na Copa de 2026, e ponto.

Nada contra a figura de Ancelotti, pelo contrário, mas me assusta um pouco a possibilidade de um treinador da seleção não ter qualquer relação com o futebol jogado aqui. Mais que a nacionalidade, acho que se afastar do nosso quarta-domingo ordinário de Campeonato Brasileiro não é um caminho para recuperar a camisa amarela. Tenho dificuldade de imaginar que um técnico europeu que nunca trabalhou aqui possa ser próximo realmente das dores e delícias do nosso calendário, das particularidades dos sonhos dos meninos que sonham com uma convocação. Preferiria alguém que conheça André, João Gomes, Danilo, que esteja perto dos diagnósticos que urgem. Sob esse critério, escolheria Fernando Diniz, com Abel Ferreira como segunda opção.

A Copa não precisa necessariamente representar alguma vanguarda tática ou técnica, nem uma tendência de qual será o próximo passo do futebol, mas a coisa que mais me alegra em ver no Mundial é como Modric, Griezmann e Messi continuam encontrando seu espaço para fazer o seu jogo, e não tem nada que possa tirá-los dessa obsessão por jogar. Eles mapeiam o retângulo e insistem em nos mostrar, abusando de naturalidade, que o espaço é reduzido só para os outros.

Dentro de campo, a Copa é melhor que as três primeiras do início do século, com uma primeira fase que manteve a média do que vinha sendo jogado em 2014 e 2018, com a ressalva da chuva de gols e da festa no Mundial no Brasil. Desde a terceira rodada dos grupos o nível emocional subiu bastante, e o mata-mata será lembrado provavelmente como o melhor desde 1998. A gente sempre quer mais, a régua precisa ser alta, mas é preciso reconhecer que o futebol está muito melhor que há 15 anos. São ciclos, e o jogo está sempre em disputa.

Publicidade