José Mourinho abriu as páginas de um dos períodos mais polêmicos de sua carreira, revelando novos detalhes sobre sua complicada relação com Roman Abramovich, ex-proprietário do Chelsea, que demitiu o treinador português do cargo por duas vezes, no âmbito de uma nova série documental na plataforma "Netflix" que apresenta sua trajetória como técnico.
Mourinho, de 63 anos, se prepara para viver uma nova experiência com o Real Madrid após seu retorno ao clube espanhol para um segundo mandato, mas relembrou durante o documentário as memórias de sua relação tensa com Abramovich, que testemunhou desentendimentos sobre a forma de administrar a equipe e as contratações fechadas pelo clube durante seu primeiro mandato.
A primeira demissão de Mourinho do comando do Chelsea aconteceu em setembro de 2007, depois de ter conduzido a equipe a grandes conquistas ao longo dos anos anteriores, antes de retornar posteriormente ao Chelsea para um segundo mandato.
Mas a relação não durou até o fim, já que Mourinho foi demitido novamente em dezembro de 2015, encerrando assim seu segundo período no clube londrino em meio a um clima difícil.
Ao falar sobre seu primeiro mandato, o treinador português apontou que Abramovich começou a interferir cada vez mais nos assuntos da equipe, afirmando que a contratação do atacante ucraniano Andriy Shevchenko foi um dos principais pontos de discórdia entre eles.
Shevchenko: a contratação que Mourinho não queria
Shevchenko chegou ao Chelsea em maio de 2006, vindo do Milan por cerca de 30 milhões de libras esterlinas, em uma transação que foi recorde para o clube londrino na época, em meio a grandes esperanças de que o atacante ucraniano desse continuidade ao brilho que havia demonstrado no futebol italiano e europeu.
Mas a passagem de Shevchenko pelo oeste de Londres não transcorreu como se esperava, já que ele marcou apenas nove gols na Premier League em 48 partidas ao longo dos três anos que passou no Chelsea.
Mourinho considera que a contratação de Shevchenko não foi sua primeira opção, mas assume parte da responsabilidade por não ter se oposto ao negócio publicamente.
Mourinho disse, em declarações reproduzidas pela "BBC Sport": "Abramovich tinha uma paixão enorme pelo futebol, mas não compreendia a realidade da situação".
E acrescentou: "O nome de Shevchenko foi apresentado por causa das relações do presidente e dos empresários dos jogadores. Nunca quis contratá-lo, mas não recusei isso publicamente, então a questão também está dentro da minha responsabilidade".
Mourinho revelou o atacante que preferia em vez de Shevchenko, afirmando que o camaronês Samuel Eto'o era seu alvo predileto para reforçar o ataque do Chelsea. O treinador português disse: "Querem saber qual jogador eu queria contratar? É Samuel Eto'o".
Anos depois, Eto'o provou ser um dos atacantes que mais deixaram marca na carreira de Mourinho, depois de ter trabalhado com ele na Inter de Milão e conduzido a equipe italiana a uma temporada histórica, na qual foi coroada com a tríplice coroa do Campeonato, da Copa e da Liga dos Campeões da Europa em 2010.
Após sua saída do Chelsea, chegou a oportunidade que Mourinho aguardava de enfrentar seu antigo clube, mas o confronto não foi comum para o treinador português.
Na temporada 2009-2010, o sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa colocou a Inter de Milão diante do Chelsea, fazendo Mourinho retornar ao estádio de "Stamford Bridge" poucos anos após sua demissão.
Mourinho conduziu a Inter de Milão à vitória na ida sobre o Chelsea por um gol a zero, antes de a equipe italiana assegurar a classificação às quartas de final após vencer pelo placar agregado de 3 a 1 nas duas partidas.
A questão não parou apenas na classificação, já que a Inter seguiu seu caminho até ser coroada com o título da Liga dos Campeões da Europa no fim da temporada, conquistando um dos maiores troféus da história do clube.
Eu precisava me vingar
Mourinho não escondeu que enfrentar o Chelsea foi para ele mais do que apenas uma partida na Liga dos Campeões da Europa, afirmando que Abramovich esteve presente em sua mente durante todo o confronto.
Ele disse: "Eu estava jogando contra Roman naquela partida. Estava jogando contra o homem que me demitiu, queria voltar para casa feliz enquanto ele voltava triste; porque eu sei o quanto ele ama o Chelsea e o quanto adora as vitórias".
As declarações de Mourinho revelam a dimensão da motivação pessoal que o acompanhou durante aquele confronto, já que ele não o encarou como uma disputa apenas técnica entre a Inter e o Chelsea, mas como uma oportunidade de responder ao homem que decidiu demiti-lo do clube londrino.
Mourinho foi ainda mais longe, quando falou com franqueza sobre seu desejo de vingança durante o confronto entre a Inter e o Chelsea, considerando que o futebol pertence, essencialmente, aos jogadores, treinadores e torcedores.
Ele disse: "Eu precisava me vingar, porque o futebol pertence a pessoas como eu. Já os outros são intrusos que não pertencem a este mundo".
Mourinho encerrou sua fala com uma mensagem que reflete sua própria filosofia em relação ao jogo, dizendo: "O futebol pertence aos jogadores, treinadores e torcedores, e sempre será nosso".
Com isso, Mourinho reabriu uma das páginas mais polêmicas de sua carreira, depois de revelar que sua relação com Abramovich não foi apenas uma relação entre um treinador e o proprietário de um clube, mas uma disputa por visão, decisão e controle dentro do Chelsea, cujos efeitos se estenderam mesmo após sua saída de "Stamford Bridge".
