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Laterais BrasilGetty/GOAL

Posição sem dono: por que a lateral virou problema crônico da seleção brasileira nas últimas Copas?

Durante décadas, a seleção brasileira construiu parte de sua identidade a partir da excelência de seus laterais. Em diferentes gerações, o Brasil apresentou ao mundo jogadores que redefiniram a posição, combinando qualidade técnica, força ofensiva e capacidade de decisão. Nomes como Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Júnior, Branco, Cafu, Roberto Carlos, Maicon, Daniel Alves e Marcelo ajudaram a transformar as laterais em uma das maiores marcas do futebol nacional.

No entanto, a realidade atual está longe daquele cenário de abundância. Às vésperas da Copa do Mundo 2026, a lesão de Wesley e a ausência de Éder Militão voltaram a expor um problema que já se tornou recorrente: pela terceira Copa consecutiva, a seleção brasileira perde o principal lateral-direito do ciclo e precisa reformular seus planos em meio à competição.

O que antes era uma posição repleta de opções hoje se tornou uma das maiores dores de cabeça da comissão técnica.

  • Laterais BrasilGetty/GOAL

    Uma sequência preocupante de lesões

    O problema começou em 2018. Titular absoluto da camisa 2 e um dos líderes da equipe de Tite, Daniel Alves sofreu uma grave lesão ligamentar no joelho esquerdo enquanto defendia o Paris Saint-Germain, poucos dias antes da convocação para a Copa do Mundo da Rússia.

    Sem seu principal lateral, Tite apostou em Danilo como titular e chamou Fagner para compor o elenco. A situação, porém, voltou a se complicar durante o torneio. Danilo sofreu uma lesão logo na estreia contra a Suíça e ficou fora de boa parte da campanha brasileira.

    Quatro anos depois, no Catar, o roteiro se repetiu. Novamente titular, Danilo lesionou o ligamento medial do tornozelo esquerdo na partida de estreia contra a Sérvia. Embora não tenha sido cortado, ficou fora da fase de grupos e só retornou no mata-mata. Durante sua ausência, Éder Militão precisou ser improvisado na lateral direita.

    Agora, em 2026, o cenário se tornou ainda mais delicado. Antes mesmo da convocação final, Carlo Ancelotti já havia perdido Militão, apontado internamente como um dos favoritos para assumir a posição. Sem o defensor do Real Madrid, Wesley ganhou espaço e se consolidou como principal alternativa.

    Mas a história voltou a se repetir. O lateral de 22 anos sofreu uma lesão no músculo adutor da coxa esquerda durante a preparação para o Mundial e foi cortado da lista. O Brasil chega à Copa novamente sem o dono da posição.

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  • Laterais BrasilGetty/GOAL

    O ciclo de testes que não encontrou uma solução definitiva

    A ausência de Wesley também evidencia um problema mais profundo: a dificuldade da seleção em encontrar uma nova geração de laterais capaz de se consolidar.

    Ao longo do ciclo até 2026, diversos jogadores foram observados e testados. Yan Couto, Vanderson, Emerson Royal, Dodô, Paulo Henrique, Arthur e Vitinho receberam oportunidades em diferentes momentos. Nenhum deles, entretanto, conseguiu se firmar como solução incontestável para a posição.

    O resultado é uma situação rara para os padrões históricos do futebol brasileiro. Depois de quatro anos de observações, convocações e experiências, a comissão técnica chegou ao Mundial sem uma reposição considerada à altura para Wesley.

    A decisão de Carlo Ancelotti de substituir o lateral por um volante, Éderson, ilustra a falta de confiança em alternativas disponíveis para o setor.

  • Laterais BrasilGetty/GOAL

    A camisa 2 já teve uma dinastia, hoje vive uma crise

    Poucas seleções na história produziram tantos laterais-direitos de alto nível quanto o Brasil.

    A tradição começou com Djalma Santos, bicampeão mundial em 1958 e 1962, passou por Carlos Alberto Torres, capitão do tricampeonato de 1970, e seguiu com nomes como Nelinho, Leandro e Jorginho.

    Nos anos mais recentes, Cafu, Maicon e Daniel Alves deram continuidade a essa dinastia. Cafu segue como o único jogador da história a disputar três finais consecutivas de Copa do Mundo, enquanto Daniel Alves se tornou o atleta mais vitorioso da história do futebol em número de títulos.

    Durante décadas, o Brasil não apenas produziu laterais, mas produziu referências mundiais para a posição.

    Hoje, a realidade é oposta. O país que ensinou o mundo a atacar pelos lados encontra dificuldades até mesmo para formar titulares de alto nível.

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  • Varela e GiayGetty/GOAL

    Clubes brasileiros ajudam a explicar a escassez

    O cenário atual do futebol brasileiro também oferece pistas sobre a crise.

    Nos principais clubes do país, muitos dos titulares da lateral direita sequer são brasileiros. No Flamengo, a posição é ocupada pelo uruguaio Guillermo Varela. No Palmeiras, o dono da vaga é o argentino Agustín Giay, ambos são frequentemente convocados para a seleção de seu país.

    O São Paulo conta com o português Cédric Soares, enquanto o Botafogo tem o uruguaio Mateo Ponte como principal opção.

    A presença crescente de estrangeiros não é necessariamente um problema, mas serve como indicador da dificuldade do futebol brasileiro em revelar talentos para uma posição que já foi uma das mais fortes do país.

  • Laterais do mundoGetty/GOAL

    Enquanto o Brasil procura respostas, rivais exibem estrelas

    Se antes a seleção brasileira era invejada pela qualidade de seus laterais, hoje esse protagonismo mudou de endereço.

    Marrocos, primeiro adversário brasileiro na Copa de 2026, conta com Achraf Hakimi, um dos melhores laterais do mundo. Portugal chega ao torneio com Nuno Mendes em grande fase. A Alemanha tem Joshua Kimmich como opção versátil pelo setor.

    A Holanda segue apostando na força física e na profundidade de Denzel Dumfries, enquanto a Inglaterra possui nomes como Reece James e Trent Alexander-Arnold, que sequer foi convocado.

    Enquanto os concorrentes ao título apresentam laterais consolidados e decisivos, o Brasil entra no Mundial dependendo da experiência de Danilo e do improviso de Roger Ibañez.

  • Laterais BrasilGetty/GOAL

    O problema também existe na esquerda

    Embora a lateral direita concentre os maiores debates, a crise não se limita a um lado do campo.

    A lateral esquerda também deixou de ser uma posição abundante no futebol brasileiro. Depois de gerações marcadas por jogadores como Júnior, Branco, Leonardo, Roberto Carlos e Marcelo, o país não conseguiu formar sucessores do mesmo nível.

    A queda de produção em ambos os lados do campo sugere uma questão estrutural, ligada ao processo de formação nas categorias de base. Em um futebol cada vez mais físico e tático, muitos clubes passaram a priorizar atacantes e meias criativos, reduzindo o investimento específico no desenvolvimento de laterais.

  • Carlo AncelottiGetty/GOAL

    Um alerta para o futuro da seleção

    A perda de Wesley às vésperas da Copa do Mundo 2026 representa mais do que um problema pontual para Carlo Ancelotti. Ela simboliza uma fragilidade que vem se acumulando há pelo menos três ciclos de Mundial.

    O Brasil continua sendo uma potência na produção de atacantes, meias e zagueiros. Mas a posição que durante décadas funcionou como um dos atalhos para os cinco títulos mundiais da seleção hoje se tornou um setor de incertezas.

    Sem novos Cafus, Robertos Carlos, Marcelos ou Daniel Alves surgindo em quantidade suficiente, o futebol brasileiro vê uma de suas maiores tradições entrar em estado de alerta. E a Copa de 2026 mostra que a busca por um dono para as laterais ainda está longe de terminar.