Enviado Especial
Chapecó - SC

No meio da enorme alegria de estar vivo e seguir em frente, a tristeza e o trauma da perda de vários amigos e um sonho interrompido. Viver tudo o que os sobreviventes do voo 2933 da LaMia, em 29 de novembro de 2016, viveram e estão vivendo, não é nada fácil, e cada um tem a sua maneira de lidar com tudo o que aconteceu.
São muitas emoções e acontecimentos para assimilar, e é da natureza humana as mais variadas emoções e ações dos seis sobreviventes. Cada um reage e lida com a situação da sua forma.
Todos os seis deram várias entrevistas sobre a tragédia e a vida após a queda do avião, no entanto, nas últimas semanas, isso mudou.
A reportagem da Goal Brasil esteve em Chapecó entre os dias 13 e 18 de novembro, e na cidade do Oeste catarinense, conversou com Jackson Follmann e Rafael Henzel, mas não entrevistou Neto e Alan Ruschel. Segundo a assessoria de imprensa da Chapecoense e também os assessores dos jogadores, ambos não querem mais falar sobre a tragédia e desejam virar a página. Eles querem seguir em frente.
(Foto: Reprodução/Twitter Chapecoense)
É da natureza do jornalista sempre questionar tudo, correr atrás da verdade e querer declarações e justificativas dos "personagens" de seus textos. No entanto, ninguém é obrigado a falar, principalmente nessas situações e se falar vai lhe causar um mal-estar. O profissional de imprensa precisa, também, entender e aceitar o silêncio.
Eles estão vivos, seguindo em frente e vivendo vários momentos felizes. No dia a dia é possível ver a alegria de todos e como eles levam bem a vida. Follmann, por exemplo, brinca e dá risada o tempo inteiro. Durante a entrevista à Goal Brasil, inclusive, fez incontáveis brincadeiras com a reportagem e amigos da Chapecoense.
(Foto: Reprodução/Instagram Jackson Follmann)
Nos treinos da Chape, Neto e Alan Ruschel brincam e sorriem o tempo todo. O lateral, inclusive, enfrentou Barcelona e Roma, marcou seu primeiro gol após a tragédia contra os italianos e superou, em 2017, seus números de 2016. Todos são milagres e exemplos de vida e superação.
No entanto, é claro que existe a dor, obviamente, várias e várias vezes não mostradas diante das câmeras. Eles perderam vários amigos e viram um sonho ser interrompido. O trauma é enorme e existem situações que pesam ainda mais nisso.
Neto sonhou com o acidente e, após nove dias em coma, acordou com a notícia de que seu sonho tinha se tornado realidade. Ruschel, muito amigo de Danilo, recebeu o pedido de Letícia Padilha, viúva do ex-goleiro, para cuidar dela e do filho, Lorenzo. Todos eram muito amigos e lidar com a perda e o trauma não é fácil.
Por isso, é necessário entender as diferentes reações e o silêncio de alguns. Em entrevista à Goal Brasil, a doutura Paula de Paula, psicóloga e psicanalista, professora do curso de Psicologia da PUC Minas, explica os motivos destas diferenças e a importância de dar o espaço e a compreensão necessárias ao silêncio.
(Foto: Reprodução/Twitter Juezcentral)
"Cada um reage de uma maneira e é importante entender essas diferenças. Uns gostam de falar e outros não gostam. Quando você vive uma situação drástica, como eles viveram, você passa por um processo na psiquiatria que chamamos de transtorno de estresse pós-traumático. É uma coisa tão violenta que cria um desequilíbrio."
"Existem pessoas que embora sofram com isso, já passaram por frustrações antes e vão se adaptando, porque a natureza humana é traumática desde sempre. O nascimento, inclusive, já é traumático, porque você sai de um lugar confortável em que você não fazia nada e, quando nasce, comeca a ter que fazer tudo, apesar de ser totalmente dependente do outro, e isso cria males fisiológicos", completa.
"Até por isso, desde sempre lidamos com situações de desamparo em que não sabemos o que fazer e vamos lidando com esse desamparo o tempo todo. Nós vivemos desamparo, experiências ruins de formas angustiantes e ficamos na posição de objeto do outro ao longo de nossas vidas. E quando você sofre um acidente, a natureza te faz um objeto, por isso é muito doloroso", justifica.
A doutora também explica que como vivemos experiências diferentes ao longo de nossas vidas, nossas reações nestes momentos também são distintas. "Por conta disso, toda a história de vida da pessoa pode prepará-la para enfrentar a dor e dar conta de relembrar a dor a cada entrevista mais do que outras pessoas. E também é por isso que viver isso depois é tão doloroso para tanta gente. O trabalho da psicologia é fazer com isso passe e não ocupe todos os lados da pessoa. Por isso, às vezes, para que isso passe, o exercício é não falar mais, enquanto para outras, é o contrário, e o exercício é falar mais sobre isso."
(Foto: Chapecoense/Divulgação)
"Em algumas pessoas, falar sobre o trauma é dar um novo significado ao tema e vai fazendo aquilo sumir da cabeça da pessoa. Já para outras pessoas, falar sobre isso é reviver o trauma, reviver a dor, e assim, isso não passa. É claro que isso tudo pode ser tratado de várias formas, mas para algumas pessoas, a melhor forma é colocar uma pedra em cima e seguir avançando, enquanto para outras, isso passa falando da tragédia", complementa.
Para a doutora, inclusive, o silêncio de Neto e Ruschel é um bom sinal. "Se a pessoa não quer mais falar sobre o assunto, é porque reviver o assunto é angustiante. Não é bom a pessoa dar entrevista mas não dormir de noite e não ficar bem durante o resto da semana. Não faz sentido se colocar em uma posição ruim para atender o jornalista ou se colocar em uma posição de herói", afirma.
"Eu acho que eles (Ruschel e Neto) já deram um passo além que é esse de entender que eles não precisam atender a expectativa do outro. Algumas pessoas ficam na posição de atender ao outro e dar toda a explicação que o outro quer. Algumas pessoas conseguem fazer isso mesmo depois de viver um trauma tão grande, mas também depende de como essas pessoas estão lidando com tudo isso. É muito bacana eles estarem cuidando deles e pensarem neles", finaliza.


