Na memória coletiva do futebol, existem dias que nunca se apagam. Para a Espanha, 11 de julho de 2010, em Joanesburgo, é muito mais do que uma data; é a noite em que todo um país realizou um sonho alimentado por décadas. La Roja, tantas vezes frustrada, desacreditada, a seleção que "jogava como nunca e perdia como sempre", foi coroada campeã do mundo ao derrotar a Holanda na final. Foi um triunfo de talento, mas também de convicção; a confirmação de que aquela geração de jogadores, criada na cultura do amor pela bola, estava destinada a fazer história.
O chute de Andrés Iniesta na prorrogação foi muito mais do que apenas um gol. Foi um símbolo. Naquele instante, o homem de La Mancha deixou de ser apenas um craque e personificou uma das maiores gerações do futebol. Iker Casillas com suas defesas, Carles Puyol com sua liderança, Xavi com sua inteligência, David Villa com seus gols... eles formaram um mecanismo perfeito. Mas foi Iniesta quem imortalizou aquela conquista.
A Espanha de 2010 foi o ponto final de um processo. Ela havia conquistado a Eurocopa de 2008, sob o comando de Luis Aragonés, com uma ideia clara: defender com a bola, desgastar os adversários por meio da posse e esperar, pacientemente, o momento certo para golpear. Vicente del Bosque conseguiu dar continuidade a esse estilo, e o resultado foi um ciclo glorioso de três conquistas consecutivas em grandes torneios.
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Para além dos troféus, o que ficou gravado foi a identidade. A Espanha provou que era possível vencer sem abrir mão da beleza do jogo, que dava para fazer o mundo se apaixonar por uma filosofia estética e eficaz. Esse legado tornou-se um espelho no qual novas gerações ainda buscam se ver até hoje.
Quase 16 anos se passaram desde aquela noite mágica na África do Sul, e muitos dos heróis de 2010 hoje são treinadores, dirigentes ou comentaristas. Seus nomes já estão cravados na história do futebol. O eco do que eles conquistaram ainda ressoa. Toda vez que uma nova geração veste a camisa vermelha, ela o faz com a lembrança de que a Espanha já foi a melhor do mundo — e de que sempre pode voltar a ser.
A Espanha chega à Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, com uma nova geração cheia de esperança. Diferente, jovem e renovada, ela não personifica a mesma fórmula, mas há um fio invisível que liga as duas eras — a crença de que o talento coletivo pode se transformar em títulos, desde que surja uma figura capaz de simbolizar essa magia. Em 2010, foi Iniesta. Em 2026, todos os olhares estão voltados para Lamine Yamal.
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O peso de Iniesta
A Espanha campeã na África do Sul foi a equipe mais reconhecível de sua época. Não se tratava apenas de nomes, mas de uma identidade inconfundível: o tiki-taka. Uma forma de entender o futebol que ia além do campo, ensinada nas categorias de base e que definia como uma nação queria jogar. Essa identidade não era apenas uma arma poderosa, era também uma bandeira.
No centro de tudo estava Xavi Hernández. O catalão era o maestro da orquestra. Seus passes, sua leitura de jogo e sua capacidade de fazer a bola circular eram o motor da equipe. Iniesta, ao seu lado, adicionava imprevisibilidade, calma e magia. Juntos, eles construíram um estilo de futebol que dominou o mundo.
Mas o time não se resumia apenas ao meio-campo. Lá atrás estava Iker Casillas, decisivo em momentos-chave, como na defesa mano-a-mano com Arjen Robben, na final. Havia Puyol, imponente em sua personalidade, irradiando liderança a cada jogada. E, no ataque, David Villa fornecia os gols que desmontavam as defesas mais obstinadas.
Cada peça tinha uma função específica, e todas se complementavam. Não era um grupo de estrelas dispersas, e sim um mecanismo finamente ajustado. De fato, um dos aspectos mais notáveis foi a forma como jogadores que eram ídolos absolutos em seus clubes aceitaram papéis secundários para fortalecer o coletivo. Aquele desprendimento tático foi uma das chaves.
A influência de Iniesta naquela equipe foi muito além do gol na final. Ele personificava a síntese perfeita do estilo espanhol: delicadeza técnica, inteligência tática e a capacidade de aparecer nos momentos decisivos. Não era o mais midiático, nem o mais espetacular, mas era o mais influente. Quando a Espanha precisava de clareza, Iniesta estava lá. Quando uma defesa fechada precisava ser rompida, Iniesta encontrava a brecha. E quando a Copa do Mundo teve que ser decidida na prorrogação, foi Iniesta quem deixou sua marca.
É por isso que, quando hoje se fala em Yamal como herdeiro desse papel de “símbolo do time”, as comparações com Iniesta são inevitáveis. Porque, além das diferenças de estilo — um meio-campista cerebral, o outro um ponta elétrico —, o que os une é a capacidade de se tornarem o rosto de uma geração. Em 2010, a Espanha foi Iniesta; em 2026, a esperança é que seja Yamal.
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Fenômeno
A seleção espanhola que se prepara para a Copa do Mundo de 2026 não é a mesma da África do Sul. Os tempos mudaram, os rivais e até as expectativas também. No entanto, existe um ar familiar neste elenco: é um grupo jovem e talentoso, que chega faminto por sucesso. Um time que faz da bola sua principal ferramenta para dominar. E que tem uma figura destinada a ser o farol, o grande protagonista.
Yamal é o grande nome desta geração. Com apenas 18 anos, ele já se consolidou como uma das joias mais brilhantes do Barcelona e do futebol europeu. Seu jogo combina velocidade, drible, criatividade e uma maturidade surpreendente. Poucos jogadores de sua idade demonstraram tamanha capacidade de brilhar em grandes jogos. Yamal é diferente — e ele sabe disso.
Mas o que mais chama a atenção é a forma como ele joga, como se não sentisse o peso das expectativas. Ele se diverte, assume riscos, ousa fazer o inesperado.
Aquilo que Iniesta representou em 2010, como símbolo de um estilo, Yamal representa agora a partir de outro lugar: o da energia juvenil que quebra padrões. A Espanha já não joga com a mesma paciência "tiki-takista" de antes. Agora, busca mais verticalidade, mais surpresa. E é aí que Yamal faz a diferença. Ele pode receber a bola perto da linha, partir para cima dos defensores e criar uma chance do nada. Pode inventar um gol com um drible impossível ou um passe inesperado.
A equipe ao seu redor também é recheada de talento. Pedri e Gavi, no meio-campo, são herdeiros diretos de Xavi e Iniesta, embora com nuances próprias. Rodri, um dos melhores volantes do mundo, garante equilíbrio. Na defesa, Pau Cubarsí e outros jovens zagueiros trazem solidez. No ataque, jogadores como Nico Williams acrescentam amplitude e velocidade. Não é apenas Yamal — é uma geração pensada tanto para o presente quanto para o futuro. Mas, em meio a tanta qualidade, Yamal é a faísca, o jogador capaz de fazer a diferença em uma Copa do Mundo.
A Espanha não chega como favorita absoluta, mas como uma candidata forte. E faz isso com a mesma premissa de 2010: confiar na identidade, apostar no talento coletivo e esperar que a magia de seu protagonista apareça quando for necessária.
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Legado e futuro
A história do futebol é cíclica. Gerações surgem, conquistam e dão lugar a outras. A seleção espanhola de 2010 marcou um antes e um depois. Ela mudou a forma como o jogo passou a ser visto, inspirando treinadores e jogadores ao redor do mundo. Hoje, essa herança permanece na maneira como a Espanha forma seus jovens, na ideia de que a bola é, ao mesmo tempo, a melhor defesa e a melhor arma.
Yamal personifica a continuidade desse legado, mas também a abertura de um novo capítulo. Não se trata de copiar 2010, e sim de propor uma reinterpretação. Aquela Espanha foi o ponto final de uma ideia, esta é o início de outra. Um conceito em que a técnica continua essencial, mas no qual verticalidade, velocidade e improvisação ocupam um lugar central.
Se a Espanha for longe na Copa do Mundo de 2026, será porque conseguiu unir essas duas almas: a herança do jogo posicional de Xavi e Iniesta com a eletricidade de Yamal e companhia. E, se vier a se tornar campeã, o paralelo com 2010 será inevitável. Duas gerações diferentes, unidas pelo mesmo destino: o de tocar o céu.
O futuro também está em jogo. Se Yamal confirmar, em 2026, tudo aquilo que já promete hoje, poderá se tornar o líder de uma nova era. Assim como Iniesta em seu tempo, ele pode deixar um legado capaz de inspirar aqueles que vierem depois. A Espanha tem a chance de consolidar um modelo: de ser uma seleção que sempre combina talento coletivo com uma figura que simboliza toda uma geração.
Em 2010, foi Iniesta. Em 2026, pode ser Yamal. E, se isso acontecer, o futebol terá encontrado mais uma história inesquecível para contar.
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Continuidade e diferenças
Comparar a Espanha de 2010 com a Espanha que disputará a Copa do Mundo de 2026 é um exercício que mistura nostalgia, análise tática e projeção de futuro. As duas gerações compartilham um fio condutor: a confiança nos jovens, a ideia de jogar com a bola e a convicção de que um time pode prevalecer por meio da inteligência coletiva. Mas também há diferenças fundamentais que marcam a evolução do futebol e a mudança de estilo da Espanha.
Em 2010, a Espanha era uma equipe totalmente consolidada, com jogadores no auge físico e técnico. Xavi e Iniesta comandavam o meio-campo, Villa se movia com precisão cirúrgica, e Casillas protegia o gol com uma segurança inabalável. Cada decisão era calculada, cada movimento tinha um significado dentro de um sistema que funcionava como um relógio. A maturidade daquele elenco permitia a Del Bosque controlar partidas e momentos decisivos, mesmo quando os rivais tentavam desestabilizar a filosofia espanhola baseada na posse de bola.
A Espanha de 2026, por outro lado, é uma equipe em construção. Mais jovem, mais dinâmica, menos experiente e mais ousada. Pedri e Gavi herdaram a visão de Xavi e Iniesta, mas acrescentam verticalidade e intensidade. Rodri garante o equilíbrio, enquanto atacantes como Yamal e Nico Williams trazem imprevisibilidade. A diferença essencial está na forma de interpretar o ataque: agora a ênfase está em quebrar linhas, nos duelos individuais e na surpresa constante. É um futebol que mantém sua essência, mas se adapta aos tempos modernos.
Dentro desse contexto, Yamal não é apenas mais um jogador. Ele é o símbolo do projeto, o herdeiro natural do papel que Iniesta desempenhou em 2010. Onde Iniesta encantava com pausas, visão e precisão, Yamal impressiona com ousadia, velocidade e improvisação. É um jogador capaz de decidir uma partida sozinho e, ao mesmo tempo, elevar o nível da equipe com sua movimentação. A comparação é inevitável: o gol de Iniesta na final da África do Sul entrou para a história, e a esperança é que Yamal possa criar momentos tão decisivos quanto esse em 2026.
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Expectativas
A Copa do Mundo de 2026 apresenta um desafio singular para a Espanha e para Yamal. Os adversários são bem fortes, já que muitas seleções sul-americanas e europeias chegarão com elencos consolidados e jogadores no auge. Ainda assim, a Espanha tem uma vantagem: seu grupo combina talento, frescor e uma filosofia de jogo reconhecível. Se conseguir equilibrar juventude e experiência — e se Yamal cumprir seu papel como líder ofensivo —, a Fúria terá todas as ferramentas para brigar pelo título.
O fator geracional também joga a seu favor. Assim como a Espanha de 2010 construiu confiança a partir da conquista da Eurocopa de 2008, a Espanha de 2026 chega com jogadores que já se provaram em competições europeias e de base. Ou seja, embora a pressão de uma Copa do Mundo seja única, a base é sólida. A mistura de mentalidade vencedora, a sabedoria dos mais experientes e o frescor dos jovens pode ser a receita ideal para o sucesso.
A Copa do Mundo de 2026 também oferece a oportunidade de consolidar Yamal como a figura central a liderar a Espanha nos próximos anos. Aos 18 anos, ele ainda tem tempo para crescer, aprender e assumir a liderança. Sua adaptabilidade, talento natural e temperamento o tornam o jogador ideal para assumir a responsabilidade de representar uma geração destinada a deixar sua marca.
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Projeção
O legado dos campeões espanhóis de 2010 vai além dos troféus. Foi a prova de que uma ideia de jogo clara e coerente pode transformar uma equipe — e toda uma geração. Hoje, Yamal e seus companheiros têm a oportunidade de replicar esse modelo, mas com suas próprias nuances: mais velocidade, mais verticalidade, mais imprevisibilidade e tudo isso mantendo a mesma filosofia de talento coletivo e liderança individual.
Se a Espanha conseguir o título em 2026, não terá apenas vencido mais uma Copa do Mundo: terá provado que seu modelo de formação de gerações históricas funciona e que sempre surgirá um jogador capaz de personificar o espírito da equipe. Iniesta foi o rosto de sua geração, Yamal pode ser o rosto da sua. E, se ele tiver sucesso, não vai apenas entrar na história do torneio, mas também consolidará a continuidade de um estilo e de um legado que podem durar por muitos anos.
A história parece se repetir, mas com novas ferramentas. La Roja tem a oportunidade de mostrar que a Espanha continua sendo protagonista do futebol mundial, que a qualidade e o talento nunca se apagam e que cada geração pode produzir heróis capazes de inspirar milhões.
Yamal não é apenas um jogador, é um símbolo de esperança, a faísca que pode acender uma nova era de glórias.
