Na corrida pela Bola de Ouro deste ano, há um jogador que tenta convencer o mundo com sua língua de que merece o prêmio, outro que também se deixou levar pelo jogo das declarações, e um terceiro que fez uma temporada que me faz perguntar: como é possível que ele não a vença?
O primeiro é Kylian Mbappé, o segundo é Lamine Yamal, e o terceiro é Harry Kane.
Mbappé, que escolheu travar uma batalha verbal, falou sobre o prêmio mais de uma vez, afirmou que se sente capaz de vencê-lo, colocou-o entre seus objetivos próximos, e depois chegou ao ponto de anunciar que votaria em si mesmo!
E isso, na minha opinião, não é autoconfiança, pois a confiança é exigida de qualquer grande jogador, mas se transformou em um grau de egoísmo, já que Mbappé trata a Bola de Ouro como se fosse uma campanha eleitoral pessoal, como se repetir o discurso sobre seu merecimento fosse tornar sua temporada melhor do que realmente foi, ou fosse melhorar a situação atualmente miserável de seu time.
E o mais provocador é que esse discurso vem de um jogador que, supostamente, é uma das maiores estrelas do Real Madrid, o clube tradicional que saiu da temporada passada sem um grande título, e, em vez de a pergunta dentro dos corredores brancos ser: por que o Real Madrid não conquistou o que se esperava dele? A pergunta passou a ser: por que Mbappé não recebe a Bola de Ouro? Como se a situação do Real Madrid tivesse se tornado um detalhe secundário, como se a perda de títulos não significasse nada para a estrela francesa desde que seu saldo pessoal de gols lhe dê um novo material para falar sobre o prêmio.
E aqui não estou falando de uma leitura do que se passa na cabeça de Mbappé, mas sim da imagem que ele mesmo construiu com suas declarações.
Até Christophe Dugarry, um dos campeões da França na Copa do Mundo de 1998, criticou essa maneira de reivindicar um prêmio individual, e atacou a mudança do discurso do time e dos títulos para a glória pessoal.
Ele não negou o valor de Mbappé, mas considerou que a maneira como o jogador se apresenta ao prêmio parece infantil e digna de pena.
E a verdade é que essa crítica atinge o cerne do problema.
Pois Mbappé quer que a Bola de Ouro seja seu título quando lhe perguntam sobre a ausência de conquistas, e ignora que o valor de qualquer temporada não se resume ao número de gols que o jogador marcou, mas ao seu valor e à sua influência.
E se a questão fossem apenas números, por que Harry Kane não seria o vencedor?
Kane marcou 73 gols com o Bayern de Munique e a Inglaterra em uma única temporada, sendo o segundo maior índice goleador de um jogador em uma temporada europeia desde o início do século, atrás de Lionel Messi, ganhou a Chuteira de Ouro europeia, marcou 36 gols no Campeonato Alemão, 61 gols com o Bayern em todas as competições, e acrescentou seis gols com a Inglaterra na Copa do Mundo.
Mas nem mesmo esses números explicam todo o valor de Kane.
E é precisamente aqui que vejo que muitos são injustos com ele quando resumem sua temporada ao número de gols.
Kane não é apenas um atacante que finaliza a jogada, ele também é um jogador que a inicia, recua para receber a bola, conecta as linhas do time, abre espaços com suas movimentações, atrai os defensores, e passa no momento que permite aos seus companheiros entrarem em zonas mais perigosas
Só no Campeonato Alemão, Kane criou 39 chances para o Bayern, um número excepcional para um centroavante, e isso não veio às custas de seu poder goleador, mas ocorreu em paralelo com seus 36 gols na competição.
E é exatamente isso que me faz inclinar à escolha de Kane, pois ele não se torna melhor às custas de seus companheiros.
Pelo contrário, ele torna seus companheiros melhores ao seu lado.
Quando Kane recua, abre espaço para quem vem pela ponta.
Quando arrasta o zagueiro central consigo, o caminho fica aberto para outro jogador.
E quando recebe a bola entre as linhas, nem sempre busca o lance que acrescenta um gol às suas estatísticas, mas sim o passe que torna toda a jogada mais perigosa.
E por isso sua influência não aparece apenas no número de seus gols e assistências, mas na cara do time quando ele está presente.
O próprio Bayern o descreveu como um atacante que combina a finalização com a criação de jogadas, que recua para receber a bola, cria espaços para seus companheiros, e ajuda na pressão e no retorno à defesa quando o time precisa dele.
Depois vem a parte que torna a comparação com Mbappé ainda mais incômoda para o francês.
Kane fez tudo isso sem transformar a Bola de Ouro em uma questão pessoal.
Não precisou dizer ao mundo que votaria em si mesmo.
Não precisou repetir que é capaz de vencer.
Não transformou cada entrevista em uma nova plataforma para defender seu merecimento.
Depois de uma temporada em que marcou 73 gols, disse simplesmente que a decisão está nas mãos dos votantes, e que seu foco passou a ser a próxima temporada e o que pode conquistar com seu time e a seleção de seu país.
Essa é a diferença entre um jogador que persegue o prêmio e um jogador que persegue o desempenho.
Já Lamine Yamal tem todo o meu respeito por seu nível técnico com o Barça na temporada atual, coroada com o prêmio de melhor jogador de LaLiga.
O jovem talento fez uma temporada impressionante com o Barcelona, e mostrou mais uma vez que é um jogador excepcional, além de acumular números ofensivos notáveis e contribuir com intensidade e genialidade para o título de seu time.
Depois foi campeão da Copa do Mundo com a Espanha. Mas
seu histórico nesse aspecto nunca foi perfeito, sobretudo porque sua influência individual no torneio mundial não chegou nem à metade do nível que apresentou com o Barcelona, por diversos motivos, sendo o mais importante uma forte lesão sofrida antes do Mundial.
Mas Yamal também caiu na mesma armadilha das declarações.
E isso é ainda mais lamentável, porque ele poderia simplesmente deixar seu talento, seus números e seus títulos falarem por ele.
No início, Yamal tentou apresentar uma imagem diferente.
Falou que não precisa pedir aos jornalistas que votem nele, como se quisesse dizer que não faz parte da campanha de declarações que Mbappé trava.
Depois a coisa mudou, no início disse que ele e Mbappé são os melhores jogadores do mundo.
E disse que merece a Bola de Ouro este ano pelo que conquistou.
Depois voltou em entrevistas posteriores para explicar por que considera que seu estilo de jogo é seu maior argumento para vencer o prêmio.
E aqui discordo fortemente dele, não porque ele não mereça ser candidato, mas porque eu preferia que ele deixasse a resposta para o campo.
Pois quando você tem dezenove anos e possui esse talento, não precisa anunciar que é um dos melhores jogadores do mundo.
E quando você é campeão do mundo, campeão do campeonato, e possui números excelentes, não precisa entrar por conta própria na batalha do "eu mereço mais que os outros".
O melhor é deixar que os outros digam isso sobre você.
No fim, Yamal não se tornou menos talentoso por causa de suas declarações, mas se tornou, como Mbappé, parte de uma batalha verbal da qual o espanhol nem precisava.
E o mais importante é que a fala de Yamal sobre seu merecimento não resolve o problema fundamental: a Copa do Mundo foi um enorme sucesso coletivo da Espanha, mas a influência individual do jogador no torneio não teve a mesma força que apresentou com o Barcelona.
E esse é um ponto que deve entrar na avaliação da temporada, exatamente como entram os títulos e os números.
Depois de tudo isso, é preciso ressaltar que não vejo que diminuir Yamal seja necessário para defender Kane.
Nem vejo que ignorar os números de Mbappé seja lógico.
Mas quando coloco tudo na mesa, a imagem aparece com clareza.
Mbappé marcou muito, mas nos pede para focar em seus gols e esquecer o resto da imagem.
Yamal encantou o mundo, e teve uma atuação enorme, mas não se impôs na mesma medida em todas as fases da temporada.
Já Kane reuniu quase tudo, e esteve entre os melhores em todos os níveis e torneios.
Marcou, criou, abriu espaços, elevou o nível de seus companheiros (e Bellingham no Mundial é o melhor exemplo disso), liderou o ataque, foi o primeiro a voltar para defender, venceu títulos, brilhou com a seleção de seu país.
E, depois disso, não encheu o mundo de gritos para nos convencer de que merece o prêmio.
E aqui a identidade do vencedor da Bola de Ouro, na minha opinião, se relaciona a uma pergunta muito simples: quem fez a temporada mais completa?
Se essa é realmente a pergunta, então Harry Kane tem uma resposta muito difícil de ignorar.
Pois Mbappé pode falar sobre a Bola de Ouro até se cansar.
E Yamal pode nos surpreender com seu talento até o último instante.
Mas Kane fez algo mais importante.
Ele fez o próprio futebol falar por ele.

