Primeiro foi Pelé que chamou a atenção ao dizer que uma seleção africana ganharia a Copa do Mundo até a virada para esse século. Décadas depois, foi a vez de Eto'o, ex-craque e atual presidente da Federação Camaronesa, prever agora no Qatar que seu país fará a final do torneio contra Marrocos.
Mas o otimismo sobre a participação das seleções do continente começou sofrendo um duro golpe há algumas semanas. Sadio Mané, destaque de Senegal e um dos melhores jogadores do mundo, acabou cortado por lesão. Pela importância que tem para o time e para o país, é a ausência mais sentida de todas, até difícil de se imaginar falta maior.
Mas sua seleção é protagonista da primeira grande campanha do torneio até aqui, vencendo o Equador para cumprir o objetivo inicial de avançar e mostrar bom futebol, ainda que atrás da Holanda na pontuação. São uma coisa só: as homenagens a Papa Bouba Diop, autor do gol icônico na vitória da abertura da Copa de 2002, contra a França, e que morreu há exatos dois anos; o chute salvador de Koulibaly, que faz uma competição de elite, para desempatar um jogo difícil, mas sempre dominado pelos senegaleses; e a explosão dos torcedores espalhados pelo país, nas lindas imagens do momento do gol ao redor do Monumento da Renascença Africana e em tantas imagens que chegam da capital Dakar.
Os campeões da África agora enfrentam a seleção inglesa, favorita, sim, mas que precisará subir seu nível para avançar depois de uma primeira fase cômoda, muitas vezes mais controlada que jogada. Chega um momento, quando se acessa o grupo das 16 melhores seleções do Mundial, que a diferença pode ser mínima. Senegal tem bola, organização e força para jogar de igual para igual com os ingleses.
O país volta ao mata-mata da Copa depois de 20 anos, exatamente o time do saudoso Papa Diop e do hoje treinador da seleção Aliou Cissé. Agora espera companhia, quem sabe com um recorde de africanos na fase eliminatória no Qatar. Tunísia e Camarões têm missões complicadas, fora da zona de classificação e rivais, na última rodada, de França e Brasil. Mas Marrocos, que só depende de si contra a já eliminada equipe do Canadá, e Gana, que pode passar até com um empate diante do Uruguai, são no momento as mais prováveis a avançar em suas chaves.
A África, que não foi à segunda fase na Copa da Rússia, pode ter três times, juntos, só nesta edição. A festa de Senegal é o que dá sentido para que não desgrudemos da Copa do Mundo, que tem em uma de suas graças e razões exatamente nos provocar uma descentralização do olhar, revirar o eixo. São quatro anos, sábado após sábado, vendo gente jogando bola em Londres, Paris, Madri. Vamos também a Casablanca, Acra. Que bom.
Irã e Estados Unidos já seria um jogo cercado de expectativa pela relação entre os países desde os anos 1970, pelo momento de protestos da população iraniana contra a repressão no país aos diretos e à liberdade das mulheres, e pela forma com que tudo isso chega ao Qatar. Manifestação do elenco iraniano ao não cantar o hino nacional, insistentes perguntas ao técnico Carlos Queiroz sobre as questões do país e uma acalorada entrevista do capitão norte-americano Tyler Adams, que foi perguntado pela imprensa do Irã sobre os preconceitos nos EUA. A primeira e única invasão de campo até aqui, inclusive, era de um torcedor que, dentre outras coisas, vestia uma camiseta com a frase: 'Respeito às Mulheres Iranianas'. Como previsto, havia um clima.
Acontece que desta vez, diferente da França-98, houve ansiedade também para o que os times fariam dentro de campo, num confronto direto por uma vaga às oitavas de final. E o que se viu foi um grande jogo dos Estados Unidos. Depois de um ótimo primeiro tempo que terminou apenas 1 a 0, foi natural uma pressão do Irã no fim, porém insuficiente. Assim como o Equador mais cedo, jogar pelo empate não fez muito bem. Quem entrou para ganhar dominou o humor do mata-mata antecipado, ainda que os iranianos quase marcaram depois de oito minutos de acréscimos no segundo tempo. Os norte-americanos são bons em contar histórias esportivas, e esse lance, com a bola quase traindo o goleiro Matt Turner, é um novo épico para o soccer. Se correr como anda correndo, com o meio-campo cuidando tão bem da bola, pode atropelar a pouquíssimo inspirada Holanda, por quê não?
Com a lesão de Alex Sandro, a seleção brasileira agora tem três desfalques para, no mínimo, o jogo contra Camarões. Não é o fim do mundo, mas não é pouco. Se Tite resolver mesmo poupar o time, a defesa poderia ser formada por Daniel Alves, Militão, Bremer e Alex Telles. Se a prudência for por descansar (e evitar cartão de) Casemiro e Fred, jogaria com Bruno Guimarães e Fabinho. Ficaria praticamente sem outros reservas para o setor defensivo. O Brasil joga sexta e depois segunda-feira. O trio tem até domingo para voltar a treinar.
A Copa vai se afunilando e a atenção nesta quarta-feira é para saber se a Argentina volta para a competição mais parecida com o tom em que desembarcou no Qatar – confiante, leve, candidata a ir longe na Copa, propondo seu jogo – ou se continua o drama da vitória contra o México. Basta vencer a Polônia, o que não deveria ser motivo de desespero para quem chegou ao Qatar para ganhar o Mundial. Difícil imaginar que será tranquilo, mas é o preço do vacilo na estreia.
Benzema publicou foto treinando, repórteres que cobrem o Real Madrid trataram de sua possível rápida recuperação, o técnico Didier Deschamps desconversou e se disse concentrado apenas no elenco que está à disposição. Benzema postou uma foto de Ronaldo Fenômeno, cabelo Cascão, a marca do retorno em 2002, depois escreveu 974, o DDI do Qatar e o nome de um dos estádios do Mundial. Com lesão, ele deixou o elenco da França antes da estreia, mas não foi cortado da relação da Fifa. Está e não está, dentro e fora, ausente e sem confirmação. Para o meu gosto, a Copa merece mais que rame-rame de rede social, e o melhor jogador do planeta poderia contar ao público a real situação. É a Copa, não a pelada da firma para ficarmos pensando quem vai aparecer para jogar. Coisa estranha.
