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Sweden Women 2021Getty

Canadá e Suécia disputam ouro inédito na Olimpíada e mostram que o futebol de mulheres está mais competitivo

O futebol feminino terá um campeão inédito nesta Olimpíada. Suécia e Canadá, que ficaram com a prata e o bronze na Rio 2016, entram em campo às 9h (de Brasília), desta sexta-feira (6) em busca do ouro no Estádio Internacional de Yokohama. Para estarem a um passo do lugar mais alto do pódio, as equipes precisaram, entre outros desafios, desbancar as tetracampeãs olímpicas dos Estados Unidos, que ficaram fora da final pela segunda vez consecutiva. O que à primeira vista parece o fim da supremacia estadunidense, na verdade é reflexo de um momento em que o futebol feminino fica mais competitivo a nível mundial.

Houve países que começaram bem antes, mas tal cenário teve um importante incentivo nas novas diretrizes globais da FIFA para o desenvolvimento do futebol feminino, documento publicado em 2018 que definiu metas como por exemplo fomentar o esporte entre meninas para chegar a 60 milhões de praticantes até 2026; otimizar investimentos e pensar em estratégicas para atrair patrocinadores; ampliar o número de competições e fortalecer o calendário internacional; e estimular a visibilidade da modalidade a partir da imprensa. Um dos objetivos, alcançar 1 bilhão de espectadores na Copa do Mundo de 2019, foi cumprido com sucesso.

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Mas quem começou antes obviamente colheu mais frutos. Ainda favoritos a tudo que disputam, os Estados Unidos somam quatro medalhas de ouro em sete edições dos Jogos Olímpicos (o futebol feminino foi incluído apenas em 1996) e quatro títulos em oito edições da Copa do Mundo (organizada pela FIFA desde 1991). A camisa pesa, mas também pesam os investimentos num país em que o futebol não carrega distinção de gênero e as meninas são incentivadas a jogar desde cedo. Hoje são quase 10 milhões de garotas com menos de 18 anos jogando, terreno fértil para o surgimento e desenvolvimento de novos talentos.

Apesar do histórico positivo, o Team USA não mostrou seu melhor futebol nesta Olimpíada e estreou com uma estrondosa derrota contra a Suécia na fase de grupos, seguida por um sofrido empate com a Austrália, mas conseguiu mostrar sua força, especialmente mental, ao administrar um jogo difícil e eliminar a Holanda nas quartas de final.

As estadunidenses, contudo, pararam na semi contra o Canadá, que quebrou um tabu de 20 anos e 37 jogos sem vencer suas vizinhas: a última vitória havia sido em março de 2001. A seleção canadense acumulou bronzes nas Olimpíadas de Londres 2012 e Rio 2016, quando tirou o Brasil do pódio, e outro na Copa do Mundo de 2019. E foi justamente a experiência de bater tantas vezes na trave que permitiu ao time sonhar com voos mais altos – como o elenco repetiu tantas vezes, a meta em Tóquio era “mudar a cor da medalha”.

20210805_USA(C)Getty images(Foto: Getty Images)

A treinadora Bev Priestman tem papel fundamental no sucesso da equipe. Mesmo jovem, aos 35 anos, é experiente na modalidade e conhece as jogadoras de longa data, tendo treinado muitas delas nos anos em que atuou nas categorias de base da seleção do Canadá, entre 2013 e 2018. Passou as últimas temporadas como auxiliar de Phil Neville na seleção da Inglaterra e voltou para assumir o time de seu país na metade de 2020.

Um trunfo foi manter a base do elenco dos últimos bronzes, mas com a diferença de que muitas de suas jogadoras rumaram para ligas de alto nível na Europa. Quase todo o time jogava nos Estados Unidos em 2016, e hoje conta com jogadoras importantes nos principais clubes da França, como Ashley Lawrence, peça fundamental para levar o Paris Saint-Germain à semifinal da Liga dos Campeões nesta temporada, e Kadeisha Buchanan, peça central da zaga do multicampeão Lyon; e também dos principais clubes da Inglaterra, hoje dono de uma das melhores ligas que reúne grandes estrelas do esporte. É o caso de Janine Beckie, do Manchester City, e Jessie Fleming, que embora recém-chegada ao Chelsea, aos 23 anos já é vista como sucessora da veterana Christine Sinclair.

Outro trunfo da técnica Bev Priestman é usar essas peças que se destacam para fazer o time depender menos de Sinclair, maior artilheira e líder da seleção, com 187 gols em 303 jogos, mas que chega à sua quinta Olimpíada aos 38 anos. No jogo contra os Estados Unidos essa passagem de bastão se deu de forma quase simbólica quando Sinclair deu a bola para a jovem Fleming bater o pênalti que levou o time à final. E há motivação extra para a “última dança” dessa geração.

“Há um grupo de jogadoras no nosso time que trabalhou por isso nos últimos 20 anos. Vê-las chorarem depois da partida (contra Estados Unidos) significa muito”, disse Fleming.

A Suécia, por sua vez, chegou a Tóquio como favorita ao pódio, mas nunca esteve tão perto do ouro, embalada pela confiança das boas atuações. O sucesso da equipe também passa fundamentalmente pelo desenvolvimento das jogadoras atuando em grandes clubes na Inglaterra, França, Alemanha e Espanha que têm investido para elevar o nível do jogo, como o próprio técnico Peter Gerhardsson reconheceu.

“São os clubes que desenvolvem as jogadoras. O treino físico e técnico é o clube que desenvolve a longo prazo, então é muito bom para a seleção que nós tenhamos jogadoras atuando em alto nível. A seleção só empresta as jogadoras de seus times e tenta fazer elas jogarem bem em curto espaço de tempo”, avaliou o sueco, que explicou estar sempre em contato com os treinadores das equipes para guiar o plano de treinamento da seleção.

“As jogadoras que estão batendo escanteio, faltas e pênaltis não são boas por causa de mim ou da comissão técnica da Suécia. É por causa do clube, por isso é importante ter boa comunicação com os treinadores, para que nos dias em que estou com a seleção eu possa focar nas coisas que precisamos e podemos melhorar como um grupo”, completou.

Embora seja um país que historicamente apoia a modalidade, a Suécia, terra natal da técnica Pia Sundhage, ainda não conquistou um título importante a nível mundial: foi prata tanto na Rio 2016 quanto na Copa do Mundo de 2003. Mas até por ter tantas meninas praticando o esporte desde cedo, é outra fonte abundante de talentos. A liga nacional, que já foi referência a ponto de ter atletas como Marta jogando por lá, hoje é percebida mais como uma liga de desenvolvimento onde grandes estrelas são forjadas do que um torneio competitivo que reúne grandes estrelas mundiais.

É esse desenvolvimento que permite à Suécia entrar como favorita na final. O time, que eliminou os Estados Unidos nas quartas de final da Rio 2016 e foi chamado de “covarde” pela goleira Hope Solo por sua postura predominantemente defensiva, fez o dever de casa e desde 2019 vem aprimorando seu poderio ofensivo sem perder qualidade na defesa. Tanto é que tem um dos ataques mais potentes da Olimpíada, atrás apenas da Holanda, e não sofreu gols em três dos cinco jogos disputados até agora.

Para além dos finalistas, outras equipes ilustram que o bom momento da modalidade, como a Holanda, atual campeã da Eurocopa e vice-campeã do mundo que se destacou em Tóquio mesmo sendo sua primeira participação nos Jogos Olímpicos. Eliminado nas quartas para os EUA nos pênaltis, o país colhe frutos de um trabalho de investimento nas categorias de base que começou ainda em 2004 e vê suas jogadoras ocuparem postos de craques nos principais times do mundo.

Há também a Austrália, que nos últimos anos tem adotado medidas para buscar a igualdade de gênero no esporte. Há um projeto para que até 2027 haja uma divisão de 50/50 de atletas meninos e meninas registrados no país – que também tem apostado em ações de marketing para ampliar a visibilidade do jogo das mulheres e aprimorar locais de treinamentos e que anunciou recentemente igualdade de pagamentos nas seleções masculina e feminina.

Os esforços foram premiados com a oportunidade de sediar a Copa do Mundo Feminina de 2023 ao lado da Nova Zelândia. Assim, o país pretende incentivar o surgimento de novos talentos como Sam Kerr, atacante do Chelsea que figura entre as melhores do mundo e que liderou o caminho da equipe nas Olimpíadas.

No Japão, a Austrália eliminou a Grã-Bretanha ao vencer por 4 a 3 em um jogaço nas quartas, mas caiu para a Suécia e acabou perdendo o bronze para os Estados Unidos também pelos mesmos 4 a 3 na manhã desta quinta-feira. Mas o time vem ganhando experiência e deve vir ainda mais forte como anfitrião do Mundial.

Esse novo momento também chegou ao Brasil, que desde 2019 vem implementando um trabalho sério de fortalecimento e estruturação do futebol feminino em nível nacional. Contudo, os tantos anos de descaso alimentados por preconceitos, falta de planejamento estratégico e pouca vontade política por partes dos gestores atrasaram significativamente o desenvolvimento do esporte, e agora resta correr atrás do prejuízo para a equipe verde e amarela voltar ao rol das grandes seleções nos próximos anos.

Hoje são Canadá e Suécia, países que valorizam o futebol de mulheres há mais tempo, que brigam pela glória do ouro olímpico. Certamente será uma grande partida para fechar a competição que inaugura um novo momento do futebol feminino no mundo. 

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