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Andrea PirloGetty Images

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Prisão e relações suspeitas: o que a "maldição de Líbia" fez com as lendas da Itália?

Ninguém imaginava que a geração que fez a Itália inteira chorar de alegria pelas ruas de Berlim em 2006, com a conquista da Copa do Mundo, se tornaria, vinte anos depois, um símbolo do fracasso coletivo. Uma geração que ergueu a taça sob o comando de Marcello Lippi acreditava ser capaz de repetir a glória a partir dos bancos de reservas, mas descobriu que a genialidade em campo não significa necessariamente genialidade na beira do gramado.

A gota d'água para essa geração veio esta semana de onde ninguém esperava. Andrea Pirlo, o maestro tranquilo e autor da cobrança icônica na semifinal daquela Copa, estava a um passo de realizar o sonho de retornar para comandar a Azzurra, antes de ser afastado no último momento sob a acusação de "ligações russas", uma exclusão humilhante que não passou de mais um capítulo em uma longa novela de quedas.

De Gattuso, que perdeu o sonho da terceira Copa do Mundo consecutiva, a Cannavaro, perdido nas selvas da Ásia, passando por grandes nomes que buscam uma chance na segunda ou na quarta divisão, parece que a maldição da "geração Lippi" não poupa ninguém. Como foi que a geração dourada que eliminou a França e Zidane se transformou em uma geração que fracassa até em salvar a si mesma?

  • Queda de Pirlo antes do apito inicial: relações com a Rússia derrubam o sonho

    É difícil encontrar um símbolo melhor do que Andrea Pirlo para representar o sofrimento desta geração. O maestro que comandou o meio-campo da Itália rumo ao título mundial via na seleção da "Azzurra" a oportunidade da vida para salvar sua trajetória como treinador, marcada por tropeços. E, com a chegada da dupla Paolo Maldini e Leonardo em julho passado para conduzir o projeto de reconstrução da seleção perdida, Pirlo era o candidato preferido e mais cotado para assumir a missão.

    Mas tudo desmoronou quando Giovanni Malagò, presidente da Federação Italiana de Futebol, decidiu descartar sua candidatura de forma surpreendente. O motivo declarado foram suas relações extensas com a Rússia por meio de projetos comerciais, algo que a instituição do futebol italiano considerou incompatível com a imagem da seleção na etapa atual.

    Esse tapa não apenas impediu Pirlo de voltar ao primeiro plano, como também confirmou a continuidade da sequência de fracassos desde que encerrou a carreira de jogador. Após um início promissor e não concretizado na Juventus, o maestro passou por escalas apagadas no Fatih Karagümrük, da Turquia, e na Sampdoria, antes de acabar em uma experiência modesta no United FC, na segunda divisão dos Emirados Árabes Unidos, onde ainda segue vinculado por contrato até o momento, em uma trajetória que jamais condiz com uma lenda de seu porte.

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  • O fracasso de Gattuso: o homem número um que não fez a diferença

    Antes da queda ilusória de Pirlo, houve uma queda real e estrondosa de seu companheiro de meio-campo, Gennaro Gattuso. Depois de se tornar o primeiro técnico da geração de 2006 a chegar a esse alto cargo, "Rino" foi nomeado em junho de 2025 com uma missão clara e indivisível: levar a Itália à Copa do Mundo de 2026 e salvar a reputação do futebol italiano após duas ausências consecutivas do Mundial.

    No entanto, a missão terminou em uma catástrofe ainda maior. Após um fracasso chocante diante da Bósnia e Herzegovina, Gattuso deixou a seleção fora do Mundial pela terceira vez consecutiva, em um precedente histórico e humilhante para o futebol italiano. Apesar de sua carreira como treinador ter começado cedo, em 2013, e de ter passado por Milan, Napoli, Valencia e Marselha, ele não demonstrou nenhuma evolução tática digna de nota com a Azzurra e repetiu os mesmos erros do passado.

    Apesar desse fracasso retumbante, Gattuso manteve sua atratividade no mercado de treinadores italiano, conseguindo rapidamente encontrar uma nova tábua de salvação no Calcio, ao assumir o comando da Lazio, em uma nova tentativa de provar que sua ferocidade como jogador pode finalmente se transformar em sucesso como treinador.

  • Um fio de esperança: Grosso e De Rossi desafiam a maldição

    Em meio a esse cenário sombrio, apenas dois nomes surgem como verdadeira exceção à maldição da geração de 2006, e o confronto entre eles será direto na nova temporada 2026-2027. O primeiro é Fabio Grosso, herói da noite de Berlim com seu gol contra a Alemanha e sua cobrança decisiva na final. 

    Após uma passagem fugaz que não ultrapassou os 76 dias no Olympique de Lyon, Grosso conseguiu se reinventar no Sassuolo, levando o clube de volta à Serie A com uma temporada excepcional, sendo recompensado com um cargo de maior prestígio na Fiorentina, onde terá a missão de provar que seu sucesso não foi obra do acaso.

    Já o segundo nome é Daniele De Rossi, que parece o mais maduro taticamente entre seus pares. Apesar de sua equipe, o Genoa, ter encerrado a temporada passada apenas na décima sexta colocação, o desempenho apresentado pelo time recebeu amplo reconhecimento e demonstrou ideias ofensivas modernas. 

    Essa experiência representou um verdadeiro ponto de partida para ele, após dois começos conturbados com Spal e Roma, tornando-se hoje um dos treinadores jovens mais promissores da Itália.

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  • Da Serie B ao Uzbequistão: uma jornada de perdição ao redor do mundo

    Longe dos holofotes, as histórias dos demais campeões parecem mais complexas e dispersas. O artilheiro histórico Filippo Inzaghi, que conseguiu recolocar o Pisa na primeira divisão em 2025, surpreendeu a todos ao recusar permanecer sob os holofotes e preferiu encarar um novo desafio na segunda divisão com o Palermo, clube pertencente ao grupo City e que possui um projeto ambicioso de acesso.

    Lá enfrentará seu companheiro Alessandro Nesta, que tenta reconstruir sua carreira novamente com o Avellino após um ano inteiro de desemprego, na sequência de seu fracasso com o Monza.

    Já o capitão da geração de ouro, Fabio Cannavaro, escolheu um caminho mais peculiar em busca da glória. Após passagens curtas e pouco convincentes pelo Dínamo de Zagreb, pelo Benevento (17 partidas) e pela Udinese (6 partidas), além de experiências na China, decidiu ir ao ponto mais distante possível ao assumir o comando da seleção do Uzbequistão e conduzi-la na Copa do Mundo de 2026. Mas a aventura terminou de forma catastrófica, com a eliminação da equipe na fase de grupos sem somar nenhum ponto.

    A situação de Alberto Gilardino não é muito diferente. Após ser demitido do comando do Pisa em fevereiro passado e fracassar em salvar a equipe, encontra-se hoje sem trabalho, apesar de seu nome estar associado a clubes como Torino, Verona e Monza, à espera de uma oportunidade para desempenhar o papel de salvador ao longo da temporada.

    Praticamente o mesmo destino viveu Massimo Oddo, o mais experiente entre eles, tendo dirigido sete clubes diferentes, e que acabou na quarta divisão com o Milan Futuro, onde enfrentou seu companheiro Marco Amelia, o terceiro goleiro em 2006, que também foi demitido do comando do Sondrio. Já o título de dono da trajetória mais peculiar vai, sem contestação, para Mauro Camoranesi, que percorreu o mundo do México e da Argentina à Eslovênia, Malta e Chipre, onde atualmente dirige o AEK Larnaca.

  • Sete fora dos planos: da análise televisiva à prisão

    Por outro lado, há sete campeões que decidiram não se aventurar de forma alguma no mundo da treinamento, mas permaneceram ligados ao futebol de diferentes maneiras. O lendário goleiro Gianluigi Buffon se dirigiu ao trabalho administrativo na Federação Italiana e obteve um diploma de diretor esportivo, enquanto a dupla Alessandro Del Piero e Luca Toni se contentou em obter a licença de treinador e trabalhar como analistas de televisão.

    Cristian Zaccardo seguiu o caminho de tornar-se agente de jogadores, enquanto Francesco Totti fundou empresas de consultoria para clubes, e Simone Perrotta atua na área de políticas esportivas. Já os casos mais polêmicos são os de Marco Materazzi, que deixou o comando técnico na Índia para se dedicar à produção de vinho, Angelo Peruzzi, que viveu uma breve experiência política, e Gianluca Zambrotta, que passou da análise televisiva e do comércio de padel para retornar à Federação Italiana em um cargo administrativo desde junho de 2025.

    A exceção mais trágica continua sendo Vincenzo Iaquinta, que se afastou completamente do mundo do futebol após ser condenado a dois anos de prisão em 2020, no âmbito de investigações relacionadas à máfia, tornando-se assim o desfecho mais sombrio de um dos heróis da epopeia de Berlim.