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A França recua e o Marrocos desmorona... Como a imigração mudou o panorama da Copa do Mundo?

Quando a Copa do Mundo começa, os olhares se voltam para as bandeiras dos países, os hinos nacionais são entoados e a competição entre as seleções se acirra, em um cenário que parece ser a pura expressão da identidade nacional.

Mas por trás desse cenário tradicional esconde-se uma realidade mais complexa; muitos dos astros do torneio nasceram fora dos países que representam, ou são descendentes de famílias que emigraram há anos, tornando-se hoje parte essencial do sucesso de suas seleções.

Essa ideia, que sempre gerou polêmica nos círculos do futebol, transformou-se em uma experiência digital empolgante que tentou responder a uma pergunta incomum: como seria a Copa do Mundo se todos os jogadores nascidos fora de seus países de origem ou descendentes de imigrantes desaparecessem?

Os resultados foram surpreendentes: a França perdeu sua posição como a seleção mais forte do mundo, enquanto a Espanha assumiu a liderança; o Marrocos foi um dos mais prejudicados, já que o Brasil e a Argentina mantiveram suas posições praticamente inalteradas. Esses resultados refletem o profundo impacto da imigração na formação do equilíbrio de forças no futebol moderno.

A pesquisa se baseou em uma ferramenta conhecida como “fator de imigração”, um projeto que busca medir o impacto real da imigração na força das seleções participantes da Copa do Mundo, conforme informou o jornal espanhol “Marca”.

A ideia consiste em calcular a média da avaliação de todos os jogadores de cada seleção — e não apenas do time titular — e, em seguida, recalcular a força após excluir todos os jogadores nascidos fora do país que representam ou que são filhos de imigrantes.

Por outro lado, esses jogadores são hipoteticamente devolvidos aos seus países de origem, caso participem do torneio, enquanto as outras seleções são complementadas com jogadores de menor classificação, quando necessário.

Esta experiência não tem como objetivo apresentar previsões sobre os resultados da Copa do Mundo nem emitir julgamentos definitivos, mas sim oferecer uma representação numérica que ilustre o grau de contribuição da imigração na formação da força das seleções nacionais durante a atual edição do torneio.

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    A França está em primeiro lugar... antes que tudo mude

    Antes da realização do estudo, a França liderava o ranking com uma média de 83,2 pontos, à frente, por uma pequena margem, da Espanha, que registrou 82,8 pontos. O Brasil ficou em terceiro lugar, com 81,8 pontos, seguido pela Alemanha (81,7), depois a Portugal (81,5), a Inglaterra (81,3), a Argentina (80,6) e a Holanda (80,5), enquanto a Bélgica (78,8) e a Croácia (77,1) completaram a lista dos dez primeiros.

    Quanto às seleções árabes e africanas, o Egito ficou em 11º lugar, com uma média de 76,9 pontos, seguido pelo Senegal, pela Suíça, pelo Marrocos e pela Costa do Marfim, antes de o restante da classificação se estender até a Austrália, que ocupou o último lugar na lista.

    No entanto, ao ativar a opção “excluir os imigrantes”, o panorama do ranking mundial começou a mudar de forma notável. A seleção francesa, que liderava a lista inicialmente, perdeu a primeira posição, enquanto a seleção espanhola subiu ao topo; já a seleção marroquina sofreu o maior impacto, recuando dezoito posições de uma só vez. Já o Brasil e a Argentina foram afetados apenas de forma mínima, o que reflete a diferença no impacto da imigração de uma seleção para outra, de acordo com a composição de cada time.

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  • France v Sweden: Round Of 32 - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    França... uma potência forjada pela imigração

    A experiência revela claramente que a seleção francesa é um dos exemplos mais marcantes que ilustram o impacto da imigração no futebol moderno. Ao longo de décadas, o sucesso dos “Les Bleus” esteve ligado a gerações sucessivas de jogadores de origem imigrante, que contribuíram para grandes conquistas, desde o título da Copa do Mundo de 1998 até a conquista do título na edição de 2018.

    Esse sucesso não foi fruto do acaso, mas sim resultado de um sistema futebolístico que soube aproveitar a diversidade cultural e social da sociedade francesa, transformando-a em uma fonte constante de talentos, por meio das academias e dos bairros populares de onde surgiram muitos dos principais astros da seleção.

    Artur Scartazini, um dos desenvolvedores da ferramenta “Fator de Imigração”, afirma que a equipe de trabalho esperava uma queda maior no nível da França após a exclusão dos jogadores de origem imigrante, mas os resultados foram menos acentuados do que o previsto.

    Isso se deve ao fato de que o modelo estatístico também inclui alguns jogadores ligados à França por suas origens, mesmo que representem outras seleções, o que atenuou a magnitude da queda na avaliação da seleção francesa.

    Apesar disso, a França não escapou do impacto, caindo da primeira para a quinta posição e perdendo a vantagem que detinha antes da aplicação do experimento — um indicador claro da importância do papel que a imigração desempenhou na construção de seu poderio futebolístico nas últimas décadas.

  • Spain v Belgium: Quarter Final - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Por que a Espanha ficou em primeiro lugar?

    Por outro lado, a Espanha apresentou um modelo totalmente diferente. De acordo com os critérios do estudo, a lista da “La Roja” inclui apenas três jogadores que se enquadram na categoria de imigrante ou filho de imigrante: Lamine Yamal, Nico Williams e Aymeric Laporte.

    Embora esse trio seja considerado um dos pilares da seleção espanhola, o restante do elenco possui grande profundidade técnica, o que fez com que o impacto de sua ausência fosse menor em comparação com o que ocorreu com a França, levando a Espanha ao primeiro lugar no novo ranking.

    A seleção espanhola conta com um grande número de estrelas com altas avaliações, lideradas por Rodri, ao lado de Pedri, David Raya, Fabián Ruiz, Dani Olmo e Unai Simón, além de nomes como Mikel Merino, Gavi, Zubimendi, Coria, Ferran Torres, Eric García e outros jogadores que conferem à seleção grande profundidade em todas as linhas.

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  • France v Morocco: Quarter Final - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Yamal vai embora... mas Hakimi volta

    E um dos aspectos mais interessantes dessa experiência é que ela não se limita a excluir os jogadores, mas os reenvia aos países aos quais estão vinculados, de acordo com seus critérios.

    Por isso, a perda de Lamine Yamal pela Espanha não significa necessariamente o colapso da seleção, pois o estudo pressupõe, em contrapartida, o retorno de Achraf Hakimi à seleção espanhola, já que ele nasceu na Espanha e foi formado na academia do Real Madrid, antes de optar por representar o Marrocos em nível internacional.

    Scartazini ressalta que o objetivo do experimento não é reescrever as regras da Federação Internacional nem questionar as escolhas dos jogadores, mas sim mostrar a magnitude da migração de talentos entre os países de nascimento, as raízes e a identidade esportiva.

    Portanto, Yamal poderia ficar de fora da Espanha nesse cenário hipotético, mas a presença de Hakimi compensaria grande parte dessa perda, mantendo a Espanha na liderança do novo ranking.

  • FBL-WC-2026-MATCH98-ESP-BELAFP

    A força da Espanha não está apenas nos números

    O estudo considera que a superioridade da seleção espanhola não se deve apenas ao fato de contar com uma ampla base de talentos locais, mas também ao seu sucesso em integrar jogadores de diferentes origens culturais em um único projeto esportivo.

    Flamin Yamal, nascido na Espanha, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, tornou-se um dos principais símbolos da nova geração, enquanto Nico Williams, filho de pais ganenses, representa uma história diferente de integração e sucesso na sociedade espanhola.

    Já Émerick Laporte, que nasceu na França antes de obter a cidadania espanhola, representa outro exemplo de jogador que optou por defender as cores de uma seleção diferente daquela de seu país de nascimento.

    O estudo afirma que essa diversidade não prejudica a identidade da seleção espanhola, mas reflete uma imagem mais realista da Espanha moderna, que conseguiu combinar a abundância de talentos locais com o aproveitamento da diversidade social, tornando-se a maior beneficiária dessa experiência hipotética.

  • France v Morocco: Quarter Final - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Marrocos... o país mais afetado pelo experimento

    Se a França perdeu a liderança, o Marrocos foi o maior prejudicado nesse cenário hipotético. A seleção, que começou o torneio na 14ª posição com uma média de 75,4 pontos, recuou dezoito posições de uma só vez após a exclusão de jogadores nascidos fora do país ou de origem imigrante — a maior queda registrada por qualquer seleção participante do estudo.

    Esse resultado não foi surpresa para os observadores, já que a Federação Marroquina de Futebol adotou, nos últimos anos, uma estratégia clara para atrair jogadores de origem marroquina residentes na Europa, especialmente na França, Espanha, Bélgica e Holanda.

    Essa política tornou-se um dos principais segredos do sucesso dos “Leões do Atlante”, depois que a Federação conseguiu convencer muitos jovens talentos a optar por representar o Marrocos em vez das seleções europeias onde cresceram, o que se refletiu nos resultados notáveis alcançados pela seleção nos últimos anos.

    Arturo Scartazini afirma que o Marrocos representa o caso mais evidente do estudo, observando que um grande número de seus jogadores nasceu fora do país, o que explica a queda acentuada no ranking após a exclusão desses jogadores.

    No entanto, ele ressaltou, ao mesmo tempo, que o fato de um jogador ter nascido fora do Marrocos não diminui sua identidade nacional, nem significa que ele tenha menos apego ao seu país, pois esses jogadores permaneceram ligados às suas raízes e escolheram defender a camisa da seleção marroquina por sua própria vontade.

  • FBL-WC-2026-MATCH91-BRA-NORAFP

    Brasil e Argentina... os menos afetados

    Em contrapartida, o estudo mostrou que as seleções do Brasil e da Argentina foram as menos afetadas pela exclusão dos jogadores que atuam no exterior.

    O Brasil, que ocupava o terceiro lugar no ranking inicial, manteve praticamente sua posição, assim como a Argentina, pois ambas as seleções dependem mais de jogadores nascidos e formados em seus próprios países, sem depender significativamente de jogadores de origens estrangeiras ou nascidos no exterior.

    Os autores do estudo consideram que esse modelo reflete uma autossuficiência na formação de talentos, o que fez com que o impacto da imigração nessas duas seleções fosse limitado em comparação com outras.

    O estudo esclarece que o impacto da imigração não pode ser generalizado para todos os países da mesma forma, já que o quadro varia de um país para outro, dependendo de sua história social e dos padrões de imigração que vivenciaram.

    Na Europa Ocidental, as sucessivas ondas de imigração contribuíram para a formação de novas gerações de jogadores que se tornaram parte integrante de suas seleções nacionais, enquanto muitos países africanos passaram a contar com a integração de membros de suas diásporas espalhadas pela Europa, transformando-os em pilar fundamental de seus projetos futebolísticos.

    Assim, o futebol moderno tornou-se o resultado de uma interação contínua entre os países de origem, os países de residência e as raízes familiares, em um cenário que reflete a mobilidade humana ao longo das décadas mais do que as fronteiras geográficas tradicionais.

  • Spain v Belgium: Quarter Final - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Mais do que apenas números

    O estudo não se limita a analisar a classificação sob uma perspectiva esportiva, mas também apresenta uma importante dimensão social: a identidade nacional no futebol tornou-se mais complexa do que parece.

    Pode acontecer de um jogador nascer em Madri, passar pela base do Real Madri e depois optar por representar o Marrocos, enquanto outro nasce na França antes de se tornar um dos pilares da seleção espanhola, ou ainda um terceiro crescer na Europa e representar uma seleção africana devido às suas raízes familiares.

    Esses exemplos confirmam que as seleções nacionais não representam mais apenas o local de nascimento, mas se tornaram o resultado de diversas histórias humanas que combinam imigração, pertencimento e diferentes culturas.

    Apesar dos resultados notáveis, os autores do estudo indicam que ele não apresenta uma verdade absoluta, mas sim uma hipótese baseada na avaliação média dos jogadores.

    Esse modelo não leva em consideração muitos fatores que influenciam os resultados no futebol, como a entrosação entre os jogadores, as estratégias táticas, a experiência, a condição física, as lesões, o papel do técnico e as pressões psicológicas impostas por um torneio do porte da Copa do Mundo.

    Além disso, a própria definição de “jogador imigrante” continua sendo objeto de debate, já que ter nascido fora de um determinado país não significa necessariamente que o jogador seja imigrante ou tenha dupla identidade — o que é reconhecido pelos próprios responsáveis pelo projeto.

  • Mexico v England: Round Of 16 - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    A imigração... parte da identidade do futebol moderno

    E, apesar de todas essas ressalvas, a experiência conseguiu destacar uma realidade difícil de ignorar: o futebol internacional não é mais um reflexo das fronteiras nacionais, mas sim da mobilidade humana pelo mundo.

    A exclusão de jogadores de origem imigrante não altera apenas os nomes de algumas seleções, mas redesenha completamente o panorama da competição, altera o equilíbrio de forças e influencia as chances de conquistar o título.

    Por isso, a força de seleções como França, Espanha, Marrocos, Inglaterra, Bélgica, Holanda e Suíça não está ligada apenas aos talentos que produzem dentro de suas fronteiras, mas também à sua capacidade de acolher jogadores que carregam mais de uma identidade cultural e combinam mais de uma história de vida.

    No fim das contas, este estudo confirma que uma Copa do Mundo sem jogadores descendentes de imigrantes seria um torneio totalmente diferente: menos diversificado, menos rico e mais distante da imagem real do futebol em 2026.

    Talvez a classificação das seleções mude e os favoritos ao título sejam outros, mas a verdade que se impõe é que o futebol moderno se tornou um espelho das sociedades que se formam continuamente por meio da imigração, da mobilidade e da diversidade cultural.

    As seleções nacionais não são mais apenas equipes que representam fronteiras geográficas, mas passaram a incorporar histórias humanas entrelaçadas, nas quais o jogador carrega mais do que uma identidade cultural antes de escolher defender uma única camisa em campo. Por isso, a imigração deixou de ser um elemento marginal no futebol mundial e passou a ser um dos principais fatores que contribuíram para traçar seu panorama atual, além de forjar muitos de seus campeões e conquistas.