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A ferida do elo mais fraco no projeto de Marrocos: Lekjaa soa o alarme

Enquanto o futebol marroquino continua a conquistar avanços notáveis no âmbito das seleções nacionais, da infraestrutura e da presença internacional, o presidente da Federação Real Marroquina de Futebol, Fouzi Lekjaa, voltou a soar o alarme sobre uma realidade diferente dentro do campeonato local, advertindo para o agravamento das dívidas, o aumento dos litígios e a transformação das partidas em palco de protestos.

Este alerta assume especial importância por vir do primeiro responsável que lidera o sistema futebolístico marroquino desde 2014, um período que testemunhou o lançamento de uma série de projetos de reforma financeira e administrativa, num momento em que os dados financeiros disponíveis mostram que vários dos maiores clubes ainda enfrentam dívidas e litígios de milhões de dólares, o que traz de volta as dúvidas sobre o grau de sucesso das reformas em resolver um dos dossiês mais complexos do profissionalismo.

  • Diferença técnica evidente: protestos e dívidas viram a marca do campeonato

    Durante uma oficina de trabalho preparatória para a temporada esportiva 2026-2027, Lekjaa afirmou, no encontro com os treinadores do campeonato profissional e os membros da direção técnica nacional, que a realidade do campeonato local passou a ser diferente de épocas anteriores, quando os clubes marroquinos representavam a principal fonte de jogadores para as seleções nacionais.

    Ele explicou que a recente participação de Marrocos na Copa do Mundo nos Estados Unidos refletiu essa lacuna, já que a representação do campeonato local dentro da seleção se limitou a dois goleiros reservas, enquanto os clubes estrangeiros se beneficiaram da participação da maioria dos jogadores internacionais.

    Ele acrescentou que a base fundamental das seleções nacionais passou a depender cada vez mais dos egressos da Academia Mohammed VI de Futebol, além dos jogadores profissionais atuando nos campeonatos europeus.

    Em seguida, Lekjaa criticou a realidade das competições locais, afirmando que as partidas do campeonato se transformaram em um palco de protestos e acusações mútuas relacionadas à arbitragem e à emissão de comunicados, em vez de focar no desenvolvimento do nível técnico.

    Também alertou que o acúmulo de dívidas e o déficit financeiro dentro dos clubes levaram ao aumento dos processos de litígios perante as comissões jurídicas e as comissões de recurso, cujos efeitos chegaram à Federação Internacional de Futebol (Fifa), com a continuidade do crescimento do número de casos ligados aos clubes marroquinos.

    A fala do presidente da federação não incluiu quaisquer números que esclarecessem a dimensão da crise sobre a qual ele falou, de acordo com a notícia publicada pela  Radio Mars há dois dias.

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  • Os números contam a história: dívidas de milhões de dólares e disputas contínuas

    Os dados divulgados ao longo de 2026 revelam um quadro mais detalhado. As informações da Liga Profissional mostraram que apenas 8 clubes da primeira divisão têm litígios financeiros no valor de cerca de 29,5 milhões de dirhams, ou seja, aproximadamente 3,2 milhões de dólares.

    O Ittihad Tanger lidera a lista com mais de 12,5 milhões de dirhams (cerca de 1,3 milhão de dólares), seguido pelo Difaa El Jadida com cerca de 7,2 milhões de dirhams (cerca de 770 mil dólares), e depois o Wydad Casablanca com aproximadamente 3,9 milhões de dirhams (cerca de 420 mil dólares).

    Os documentos do Wydad refletem uma dimensão maior da crise, já que suas obrigações com funcionários e jogadores chegaram a 30,75 milhões de dirhams (cerca de 3,3 milhões de dólares), dos quais 18,8 milhões de dirhams (cerca de 2 milhões de dólares) correspondem a bônus de assinatura não pagos.

    Além disso, 28,2 milhões de dirhams (cerca de 3 milhões de dólares) dos 41 milhões de dirhams devidos a outros clubes ainda são objeto de litígios perante a FIFA ou o Tribunal Arbitral do Esporte, enquanto a liquidez do clube passou de superávit para saldo negativo.

    Em contrapartida, uma avaliação financeira do Raja Casablanca mostrou uma redução do déficit de 145,6 milhões de dirhams para 99,5 milhões de dirhams (de cerca de 15,6 milhões de dólares para 10,6 milhões de dólares) entre 2024 e 2025, mas as provisões relacionadas a litígios judiciais e fiscais continuaram a ultrapassar 109 milhões de dirhams (cerca de 11,7 milhões de dólares), o que reflete a persistência dos efeitos dos processos acumulados.

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  • 12 anos de reformas e o dossiê financeiro ainda não foi encerrado

    Lekjaa preside a Federação Real Marroquina de Futebol desde 2014, e ao longo desses anos o futebol marroquino passou por grandes transformações no que diz respeito às seleções nacionais, ao desenvolvimento da infraestrutura, à realização de torneios e ao fortalecimento da presença dentro das instituições do futebol internacional. Além disso, o orçamento do campeonato profissional subiu para 965 milhões de dirhams, o equivalente a cerca de 103 milhões de dólares, para a nova temporada.

    Em contrapartida, porém, a questão financeira dos clubes permaneceu presente em praticamente todas as etapas, apesar dos repetidos discursos sobre a reforma do sistema profissional e o fortalecimento da governança financeira.

    E a cada novo mandato, o discurso da federação esteve associado à continuidade das reformas e ao fortalecimento das conquistas, enquanto os alertas emitidos por Lekjaa nesta semana trouxeram os mesmos problemas de volta ao centro do debate, com destaque para as dívidas, o déficit financeiro e a grande quantidade de disputas.

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  • Uma reforma que levou anos e uma lei que permaneceu suspensa

    A transformação dos clubes de associações em sociedades esportivas é um dos projetos mais importantes apresentados pela federação para corrigir os desequilíbrios financeiros. Mas esse caminho começou de forma lenta.

    A lei que regulamenta essa transição foi promulgada em 2004, mas Lekjaa reconheceu, em outubro de 2025, que a lei "não foi aplicada da maneira necessária", explicando que as primeiras experiências efetivas só começaram nos últimos anos, antes que o governo interviesse posteriormente com incentivos fiscais para acelerar o processo de transformação.

    Isso significa que uma das mais importantes ferramentas de reforma financeira precisou de longos anos antes de começar a ser aplicada de forma prática, apesar de ter permanecido como eixo essencial no discurso da reforma do profissionalismo.

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  • Perguntas legítimas

    Esses dados não significam que o projeto de desenvolvimento do futebol marroquino não tenha alcançado resultados; as seleções nacionais deram saltos notáveis, a infraestrutura evoluiu e a presença marroquina se fortaleceu no âmbito continental e internacional nos últimos anos. Por outro lado, porém, as próprias declarações de Lekjaa refletem que o campeonato profissional, que deveria representar a base natural desse projeto, ainda sofre com desequilíbrios financeiros e técnicos que o presidente da federação reconhece limitarem sua capacidade de acompanhar essas conquistas.

    Essas declarações ganham um significado especial por virem do responsável que comanda o sistema futebolístico há mais de doze anos e que, ao longo de seus mandatos consecutivos, levantou a bandeira da continuidade das reformas e do fortalecimento do profissionalismo. E enquanto os números revelam a persistência das dívidas e dos litígios, e o presidente da federação admite o aumento da distância entre a seleção e o campeonato local, permanece uma pergunta difícil de ignorar: se o futebol marroquino vive uma de suas eras mais bem-sucedidas em nível internacional, por que o campeonato marroquino local, após mais de uma década de reformas, ainda representa o elo mais fraco desse projeto? E as medidas de que se fala hoje seriam suficientes para tratar uma crise que se estende por anos, ou o caso precisa de uma revisão mais profunda dos resultados do próprio processo de reforma?

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