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Dominik Szoboszlai Liverpool 1:1Getty/GOAL

Dominik Szoboszlai está tornando os golaços uma moda de novo

O meio-campista húngaro acrescentou mais um golaço incrível à sua coleção na vitória da semana passada na Copa da Liga Inglesa, enquanto continua a reviver a arte perdida do gol de longa distância

James Westwood
Traduzido por
  • O Liverpool teve um início lento sob o comando de Andoni Iraola, vencendo apenas um de seus quatro primeiros jogos na Premier League. A torcida precisava desesperadamente de um alento após um desanimador empate sem gols com o Fulham em Anfield, mas voltou a sofrer quando o Liverpool enfrentou o Tottenham na terceira rodada da Copa da Liga Inglesa.

    Gols de Alexis Mac Allister e Cody Gakpo deram ao Liverpool uma vantagem de 2 a 0, mas Conor Gallagher diminuiu para o Tottenham aos 69 minutos, e os visitantes então avançaram em massa em busca do empate. O Liverpool resistiu, porém, e acabou liquidando a partida nos acréscimos com um momento de genialidade de tirar o fôlego de Dominic Szoboszlai.

    Gakpo dominou a bola pela esquerda e encobriu um defensor para Szoboszlai, que matou no peito e soltou uma finalização violenta, que desviou em curva além do alcance do goleiro do Tottenham, Martin Dubravka, já totalmente esticado, e morreu no ângulo. A bomba de 32 metros levou a torcida da casa ao delírio, mas ninguém pareceu surpreso: Szoboszlai já estava bem consolidado como especialista em chutes de longa distância.

    De fato, nenhum jogador da Premier League marcou mais gols de fora da área em todas as competições (13) do que Szoboszlai desde que chegou ao Liverpool vindo do RB Leipzig no verão de 2023. "Eu diria que está no meu top 5", disse o internacional húngaro ao ser questionado sobre onde coloca seu chute mais recente. "Você sabe quando bate bem na bola, você sente. Achei que ela fosse no meio, mas vi que foi para a direita. Tudo foi perfeito."

    Durante muitos anos, houve uma preocupação generalizada de que a popular escola de pensamento de Pep Guardiola, focada em tramas de jogo intrincadas para mais ou menos entrar com bola e tudo no gol, estivesse matando a arte do golaço. Mas Szoboszlai está, quase sozinho, tornando isso legal de novo.

  • Gols espetaculares

    WIMBLEDON V LEEDS
    Getty Images Sport

    Os primeiros anos da Premier League foram repletos de golaços de longa distância, à medida que as defesas recuavam profundamente

    Os chutes de longa distância eram uma parte fundamental do jogo nos anos 1990 e no início dos anos 2000 porque as defesas não eram nem de perto tão compactas quanto são hoje. Muitos times recuavam para dentro da própria área para proteger o gol, deixando um enorme espaço para os adversários prepararem o chute e arriscarem.

    Torcedores e técnicos incentivavam ativamente uma mentalidade de "tentar a sorte" ou "testar o goleiro", e, embora muitos chutes acabassem indo por cima ou para fora, gols espetaculares eram comuns. A maioria dos torcedores vai apontar o golaço de Matt Le Tissier de 35 jardas pelo Southampton contra o Blackburn em 1994, ou o voleio clássico de Tony Yeboah pelo Leeds United contra o Liverpool em agosto de 1995, como os primeiros exemplos de um verdadeiro golaço da Premier League. Yeboah quase superou aquilo no mês seguinte também, acertando a bola no travessão e para dentro da rede da entrada da área depois de enganar um defensor do Wimbledon com uma finta perfeita.

    Em 1996, a lenda do Manchester United David Beckham marcou de forma memorável do seu próprio campo contra o mesmo adversário. Quatro anos depois, Beckham serviu Paul Scholes em uma jogada ensaiada de escanteio contra o Bradford City, e o mágico ruivo do United mandou um voleio seco, de primeira, no canto inferior.

    Scholes venceu o prêmio de Gol do Mês do Match of the Day da BBC em dezembro de 2006 por uma finalização parecida contra o Aston Villa, mas todos os concorrentes mereciam o prêmio. Matt Taylor, do Portsmouth, venceu o goleiro Tim Howard, do Everton, de 55 jardas; o foguete com efeito de trivela de Michael Essien garantiu ao Chelsea um empate contra o Arsenal; e Morten Gamst Pedersen acertou o ângulo pelo Blackburn contra o Newcastle com um chute sublime e certeiro.

    Houve muitos outros golaços inesquecíveis, muitos para lembrar por completo aqui, e esse é o ponto. Fomos mimados com eles. Infelizmente, à medida que o futebol evoluiu nos anos 2010, eles se tornaram uma ocorrência bem mais rara.

  • Táticas orientadas por dados

    Pep Guardiola

    A rápida ascensão da análise de dados levou a uma evolução que naturalmente reduz os chutes de longa distância

    De acordo com informações da Opta divulgadas em dezembro de 2025, em média, 85,7% dos gols da Premier League (desde 2003-04) foram marcados de dentro da área, com uma taxa média de conversão de 15%. A introdução dos dados no futebol mudou tudo, e não apenas no futebol inglês, mas em toda a Europa.

    Técnicos meticulosos como Guardiola passaram a priorizar a criação de chances de maior valor, em curta distância. Os gols esperados (xG) se tornaram a principal métrica para medir a qualidade de uma chance de gol, com cada finalização recebendo um valor entre 0 e 1 para representar a probabilidade de que ela resulte em gol. Analistas e cientistas de dados concluíram que uma finalização de 30 jardas normalmente tem menos de 3% de chance de entrar e, por isso, os principais times passaram a vê-las como um desperdício de posse valiosa.

    Defesas recuadas também se tornaram ultrapassadas, substituídas pela linha alta. O futebol moderno gira em torno da intensidade na pressão e de machucar os times nas transições. Quando isso funciona, pontas e atacantes ficam cara a cara com o gol, com muito menos motivo para arriscar de longe.

  • 'Onde está o amor?'

    Jamie Redknapp penalty
    Getty Images Sport

    Muitos puristas acreditam que a obsessão com a análise estatística prejudicou o jogo do ponto de vista do entretenimento

    Essa evolução não caiu bem para ex-jogadores que eram adorados por sua propensão a chutes milagrosos, incluindo o ex-meio-campista de Liverpool e Inglaterra Jamie Redknapp, que falou sobre o tema em 2024. "Os jogadores de hoje são treinados quase ao extremo. É quase como se não pensassem por si mesmos", disse Redknapp ao iPaper.

    "Se deixarmos acadêmicos e estatísticos comandarem o jogo, onde está a pureza disso? Onde está o amor? Onde estão os grandes momentos que entram para a história? Tente dizer a Bobby Charlton: 'Não chute de 25 jardas porque o xG é 0,1. Você é o melhor finalizador de longe que o mundo já viu, mas não chute dali porque há um par de técnicos dizendo que você tem menos chance.'

    "Eu treinava muito chutes de longa distância. Mas é algo que você vê menos agora porque os jogadores provavelmente não fazem isso o suficiente. É aí que você precisa ter sensibilidade, precisa tirar um pouco o peso dos acadêmicos, dos técnicos e das estatísticas e dizer: 'Sabe de uma coisa? Vou chutar daqui.' As estatísticas nunca deveriam atrapalhar essa sensibilidade."

    Na temporada 2005-06, 48,2% de todos os chutes na Premier League foram dados de fora da área, o que segue sendo o recorde histórico. Em 2011-12, esse número caiu para 44%, e a média tem ficado entre 31,7% e 33,1% com base nos dados coletados até agora na década de 2020.

    Isso certamente prova que o "amor" diminuiu e que os jogadores têm atuado de forma mais mecânica do que com "sensibilidade". Ainda assim, isso não é universal. Sempre haverá aqueles que vão contra as normas aceitas, como Szoboszlai, e técnicos que não apenas compartilham os sentimentos de Redknapp, mas também desempenham um papel ativo para ajudar a facilitar um retorno aos "bons velhos tempos".

  • Canalizando Gerrard

    Steven Gerrard Liverpool
    Getty Images

    Szoboszlai seguiu os passos de uma lenda do Liverpool com seus feitos incríveis de longa distância

    O Liverpool carecia de um especialista em chutes de longa distância desde a saída do ícone do clube Steven Gerrard, que marcou 33 gols na Premier League de fora da área ao longo da carreira, um total superado apenas por Frank Lampard e Beckham. Szoboszlai foi comparado a Gerrard desde o momento em que chegou a Anfield porque herdou a camisa 8 dele, e admitiu abertamente ter uma tatuagem inspirada no internacional inglês.

    Sempre que Gerrard enxergava o gol, não importava de quão longe estivesse, os torcedores do Liverpool pediam que ele chutasse. Ele tinha um canhão no pé direito e sua técnica era impecável. Da bomba de 30 jardas contra o Manchester United em 2001 e o golaço nos acréscimos para salvar o Liverpool em sua decisão de Champions League contra o Olympiacos, até um tremendo chute com efeito de 40 jardas contra o Middlesbrough e seu requintado meio-vôlei na emocionante vitória do Liverpool na FA Cup de 2006 sobre o West Ham, Gerrard tem um repertório de gols que desafia a crença.

    Notavelmente, Szoboszlai já rivaliza com Gerrard nesse aspecto, apesar de atuar em um ambiente de Premier League muito diferente, desenhado para recompensar jogadores de sistema em vez de talentos fora da curva. Ele consegue gerar a mesma força de chute de Gerrard e controlar a bola como quer, além de sempre confiar na própria capacidade para acertar o alvo de ângulos e distâncias audaciosos.

    De fato, 42% de seus 31 gols pelo Liverpool até aqui saíram de longa distância. Szoboszlai abriu sua conta com a famosa camisa vermelha com um brilhante meio-vôlei da entrada da área contra o Aston Villa, o que foi um sinal do que estava por vir. O ex-astro do Leipzig não é programado para escolher a opção segura; ele sabe que pode ser o diferencial máximo quando a oportunidade surge, o que o torna uma arma única para o Liverpool.

  • Especialista em bolas paradas

    Liverpool v Arsenal - Premier League
    Getty Images Sport

    Szoboszlai se tornou o jogador mais temido da Premier League em situações de bola parada

    O Liverpool provavelmente não estaria na Champions League agora se não fosse pela autoconfiança infalível de Szoboszlai. O time entregou o título de forma dócil enquanto arrancava um quinto lugar na Premier League no último ano de Arne Slot no comando, e Szoboszlai contribuiu com 13 gols importantes em todas as competições, sendo que oito deles saíram de fora da área.

    Este também foi o ano em que ele se firmou como especialista em bola parada. Szoboszlai marcou cinco gols de falta, incluindo quatro na Premier League para estabelecer um novo recorde do clube em uma única temporada.

    O primeiro deu ao Liverpool uma vitória em casa por 1 a 0, no fim da partida, sobre o futuro campeão Arsenal, quando ele acertou o ângulo de 29,7 metros com uma cobrança venenosa, com efeito, que não deu chances a David Raya e ainda beijou a trave antes de entrar. O lance acabou sendo eleito o Gol da Temporada, e está entre os melhores de toda a história da Premier League.

    Szoboszlai também acertou uma linda cobrança com efeito na derrota do Liverpool por 3 a 2 para o Bournemouth, e rivalizou com seu gol contra o Arsenal com um chute no estilo "knuckleball", indefensável, na derrota em casa por 2 a 1 para o Manchester City. Ele completou seu quarteto no empate por 1 a 1 com o Tottenham, embora, nesse caso, tenha contado com uma falha terrível de Guglielmo Vicario.

    Em uma sessão de aula sobre cobranças de falta com Redknapp para a Sky Sports em maio, Szoboszlai revelou que "só se concentra na bola" e tenta acertar a válvula, técnica inicialmente levada ao conhecimento do público por Cristiano Ronaldo durante sua primeira passagem pelo Manchester United. Szoboszlai geralmente adota a mesma abordagem quando encontra um metro de espaço com a bola rolando, acertando o centro exato da bola para minimizar o giro e mantendo a perna de continuação curta para criar o movimento sinuoso no ar.

  • Sempre há espaço para autoexpressão

    Dominik Szoboszlai Liverpool 2026-27 Newcastle
    Getty

    As façanhas de Szoboszlai parecem ter inspirado seus pares, com a Premier League registrando um aumento de gols de fora da área em 2026-27

    Parece que Iraola está ansioso para explorar ainda mais os talentos de Szoboszlai nesta temporada, à medida que pressiona o Liverpool para arriscar mais chutes de longa distância. "Estamos treinando muito finalizações", disse Mac Allister ao canal de mídia do Liverpool após a vitória da semana passada contra o Tottenham. "Dom tem isso, é natural para ele."

    Agora, outros estão começando a seguir o exemplo dado pelo talismânico camisa 8 do Liverpool, certamente na Premier League. Apenas 13,9% dos gols marcados na competição na temporada passada saíram de fora da área, mas esse número já subiu para 17,2% após as cinco primeiras rodadas da nova campanha, enquanto os gols de dentro da área caíram de 25,1% para 18,7%, segundo o The Guardian.

    A surpreendente campanha do Brighton tem tido papel enorme nisso, com Lewis Dunk marcando um golaço de 27,4 m e Yasin Ayari também balançando as redes de fora da área na goleada por 5 a 0 sobre o Coventry City. Pascal Gross e Charalampos Kostoulas também conseguiram fazer o mesmo na impressionante vitória por 3 a 0 sobre o Arsenal no sábado, enquanto Emiliano Buendia marcou o terceiro gol do Aston Villa de 22,9 m na vitória por 3 a 2 contra o Tottenham.

    Linhas defensivas baixas estão sendo usadas regularmente de novo, enquanto os chamados clubes menores tentam sufocar a elite, ao passo que os times de nível intermediário ficaram mais ousados. A tentação de arriscar de longe está crescendo de novo como resultado disso, com Guardiola não estando mais por perto para pregar a importância de reciclar a bola sem parar.

    Szoboszlai merece muito crédito por essa mudança romântica. Ele mostrou que sempre deve haver espaço para autoexpressão e para correr riscos de verdade. O puro instinto ainda pode triunfar sobre os algoritmos e lembrar às pessoas por que elas se apaixonaram pelo belo jogo em primeiro lugar.