Carlos Tevez, a lenda do futebol argentino, tem seus momentos bons, com pitadas de lucidez e faíscas de talento. Mas, em geral, a realidade se impõe de outra maneira: o Apache está tendo dificuldades em fazer a diferença. E a principal razão não é tão simples de se encontrar, mas provavelmente pode ser vinculada à sua forma física.
Aos 34 anos, após vários meses jogando na China e com mais de uma década sofrendo traumas e acumulando lesões, ele está vivendo novas fases de seu desempenho futebolístico. Não tem mais a velocidade de antes, e lhe falta ar para tomar decisões.
Mas, e daí?
Ainda assim, teve momentos muito úteis para a equipe do técnico Guillermo Schelotto neste ano. Em 31 partidas, fez 10 gols e deu 3 assistências, além de um gol crucial contra o Palmeiras na fase de grupos e outro contra o Libertad nas oitavas de final. No torneio nacional, fez boas atuações, como no último confronto do Boca contra o Tigre, na Bombonera. Carlos Tevez é o jogador argentino com mais títulos da história depois de Messi, e o mais bem pago do clube xeneize, mas teve um papel secundário nesta temporada.
“Hoje tenho que viver do outro lado, e não dentro do campo, mas não levo para o pessoal. Tenho 26 títulos e os deixo de lado para a glória deste clube, e isso deve ser entendido por todos”, disse o jogador.
Talvez tenha dito isso sem perceber, mas o certo é que Tevez voltou a ser e jogar como um ídolo no momento em que os torcedores do Boca começaram a olhar para ele com desdém, após ter saído para jogar na China.
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(Foto: Getty)
Ele não conseguiu isso com uma base sólida de gols, assistências e nem grandes rendimentos. Ele conseguiu isso a partir do momento em que sentiu o seu novo papel dentro da equipe. Tevez se tocou de que seria a segunda opção, e aceitou a chegada de todos os tipos de reforços no ataque. Não lhe fez mal algum o fato de que seu treinador não tenha o bajulado nem um pouco (de fato, os dois repartem a culpa de não terem encontrado o tipo de jogo que Tevez necessitava para encerrar sua carreira). Ele não se importou com a ideia de ser reserva em diversas partidas importantes, e não fez cara feia a cada vez em que foi substituído (dos 22 jogos em que foi titular no ano, em 15 abandonou o gramado antes do apito final).
Acabou o endeusamento dentro dos vestiários argentinos. Jogadores com menos de 20 jogos na primeira divisão acham que já estão à altura dos pequenos detalhes do dia a dia da convivência de um elenco. E Tevez, quando retornou, acreditou que tinha que assumir um papel muito maior do que o de um jogador, que o silêncio seria saudável para o Boca. O seu Boca. A longo prazo, isso nada mais é que uma demonstração de amor e fidelidade.
Com a final da Copa Libertadores 2018 se aproximando, o jogador de Apache enfrentará uma situação um tanto desconfortável. Ele se sentirá estranho, sem dúvidas, por não ser um dos protagonistas, o centro das câmeras e dos flashes. E até o nome nos gritos dos torcedores (a canção “de la mano de Carlos Tevez” já deixou de ser ecoada há um tempo na Bombonera) será de outro jogador.
Mas, e daí? No final, Tevez jogou em 2018 pelo o que ele é: um ídolo.
