Pronto para voltar, Celso Roth descarta rótulo de retranqueiro: "Me preocupo com equilíbrio”

Em entrevista exclusiva para a Goal Brasil, o treinador falou sobre o futebol atual e não escondeu a vontade de voltar à beira do campo

Celso Roth já treinou vários dos maiores clubes do futebol brasileiro. Campeão da Libertadores da América com o Internacional em 2010, foi justamente sob o comando do Colorado, em 2016, que o gaúcho de 63 anos esteve pela última vez na área técnica de um time brasileiro. Mas engana-se quem acha que Roth não pensa mais em futebol.

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Em uma longa entrevista concedida à Goal Brasil, Roth falou sobre o futebol brasileiro e a realidade atual do jogo. Avaliou o que tem lhe agradado e o que não tem lhe agradado, relembrou histórias – uma delas, um encontro com Jorge Jesus na sala presidencial do Vasco, na presença de Eurico Miranda – e se defendeu do rótulo de “retranqueiro” que muitos colocaram em seu trabalho. Roth deixou claro que seu objetivo é voltar à área técnica. Confira abaixo.

Goal Brasil: O que tem feito desde o seu último trabalho na área técnica, em 2016?

Celso Roth: Tamo aí, nessa luta, com a saúde em geral no mundo e acompanhando, do jeito que a gente pode, o tal do futebol. Está sendo jogado de uma maneira inusitada, mas está sendo jogado.

Goal Brasil: Pensa em voltar à ativa?

Celso Roth: Tem sido um momento muito interessante para olhar, ver, refletir, aprender, ver algumas coisas novas, treinadores novos aparecendo, coisas se repetindo, coisas que nós fizemos e treinadores atualmente estão fazendo e repetindo... é um momento de aprendizagem, e eu estou muito novo para parar. Eu nunca pensei nisso, não pensei nesta possibilidade. Devo retornar imediatamente, ainda estou com 63 anos, estou com muita energia e muita força. E assim que surgir uma oportunidade que eu achar interessante, voltamos à ativa. Até porque o futebol está nas veias. Não tem como. Sou profissional do futebol, minha vida é o futebol.

Goal Brasil: Como você tem visto esta temporada de 2020, com pouco tempo para os técnicos – quase todos muito criticados – trabalharem?

Celso Roth: A pandemia é uma coisa inédita, para nós, em todos os sentidos. Ela é ruim neste sentido técnico/tático/físico, mas também há de se considerar que muitos técnicos ficaram no cargo por mais tempo por causa da pandemia, por não ter tido futebol (risos).

O que eu tenho visto é exatamente isso. Clubes e times com dificuldades, principalmente físicas, com jogos um atrás do outro, com os jogadores tendo que se cuidar, correndo risco de saúde e apresentando, até certo ponto, um nível de futebol bem interessante. Mas o que a gente vê é isso: falta de entrosamento, esquemas táticos às vezes muito improvisados...

Celso Roth Palmeiras Internacional Brasileirão 06112016 Foto: Friedemann Vogel/Getty Images

Goal Brasil: Quais times têm mais te chamado atenção – positiva e negativamente?

Celso Roth: Positiva está difícil. Tudo é momentâneo. Neste momento, é o Internacional. O Abel veio aqui para o Rio Grande do Sul e foi taxado de ultrapassado. Hoje está brigando por uma possível chance de ser campeão brasileiro. Então o Internacional está neste momento. O Grêmio está num vai-e-vem, poderia estar numa situação melhor. Tem uma equipe muito boa, com uma sequência (do trabalho de Renato Portaluppi) muito maior do que todas as outras equipes do futebol. O Grêmio poderia estar melhor, mesmo que esteja ainda competindo pela Copa do Brasil.

Eu não posso deixar de falar, também, mesmo que não esteja bem no Brasileiro, do Santos. O Santos é uma equipe que está fazendo um milagre na Libertadores. O Cuca está fazendo outro milagre, com todo respeito ao plantel do Santos”, disse Roth, que também elogiou São Paulo e América-MG.

Acho que temos muito mais decepções. O Flamengo, por exemplo, é uma decepção e tem uma equipe fantástica. O Atlético-MG, por mais que a imprensa brasileira queira, a todo momento, dar força para o tal do Sampaoli, também não está chegando. Faz seis meses que o Sampaoli só tem uma competição e está em terceiro lugar. E ninguém fala disso, ninguém cita esse tipo de coisa. Por quê? Porque é o Sampaoli, que trabalhou no Santos e também não conseguiu um título expressivo. Então o futebol está assim, neste momento de maiores decepções do que de coisas boas.

Goal Brasil: O Abel Braga foi bastante criticado quando foi anunciado no início da temporada, pelo Vasco, e também nesta sua volta ao Inter. O mesmo aconteceu com o Luxemburgo em sua ida para o Palmeiras. Você identifica algum tipo de “rejeição” contra alguns nomes de gerações passadas do futebol?

Celso Roth: Eu tô incluso, né? Tem que me incluir neste papel porque desde 2016 eu não estou trabalhando. As minhas duas últimas passagens, por Vasco e Internacional, não foram felizes, e aí o mercado simplesmente me tirou fora. E é uma coisa normal, coisa de mercado. Mas isso aí tem muito a ver com o que aconteceu na Copa do Mundo de 2014. Nós fomos humilhados e tivemos que ser humilhados para retomar um caminho, e para rever conceitos. Acho isso absolutamente ótimo. Mas nós não somos, simplesmente, os culpados de tudo. Então essa resistência passa por isso.

E aí os dirigentes começaram a dar oportunidades aos jovens, e agora aos estrangeiros. E a gente está vendo que as coisas são assim. São cíclicas. Acho que o treinador brasileiro é um dos melhores treinadores do mundo, com a sua qualidade. O grande problema foi achar que era o melhor sempre, e não somos os melhores sempre, que não precisávamos interagir com treinadores da Europa, da América do Sul ou da Ásia (...) Agora a gente está tomando um caminho de reintegração com o mundo, de se informar, de se atualizar. Acho que isso é o mais importante.

Goal Brasil: Você revelou ter tido contato com o Jorge Jesus anos atrás, além de outros grandes treinadores como o Fábio Capello. Como foi esse papo com o JJ?

Celso Roth: Foi muito interessante. Foi no Vasco, eu era treinador do Vasco. E não podia ser diferente, o Jesus é português e eu tinha que conhecer o Jesus no Vasco (risos). Foi muito interessante. Nós ganhamos um jogo e o falecido Eurico Miranda me convidou para ir á sala dele e na sala dele estava o Jorge Jesus. Nós trocamos ideias, ficamos um bom tempo conversando. E depois disso tivemos outros contatos.

Celso Roth - Vasco
Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br

Goal Brasil: O Jorge Jesus disse no passado, antes de chegar ao Flamengo, que no Brasil ele tinha simpatia pelo Vasco. Você chegou a ver isso?

Celso Roth: Eu não sei te dizer, só sei que encontrei ele lá. E por ser português, e pelo Vasco ser uma equipe de origem portuguesa, eu acho que tem tudo a ver. Agora, se ele tinha alguma relação com o Eurico e com o pessoal do Vasco, certamente devia ter. mas não posso te dar detalhes porque não sei, não sabia.

Goal Brasil: Hoje um dos assuntos mais comentados no futebol é sobre o chamado “risco assumido” de sair jogando trocando passes desde a defesa. O São Paulo especialmente é bem criticado quando isso dá errado. O que você acha de tudo isso?

Celso Roth: Acho que há uma confusão muito grande nisso. Sair jogando de trás é muito importante, fundamental, desde que tu tenha qualidade. Se tu não tiveres qualidades, até pode sair jogando de trás, mas desde que tenha jogadas para sair de trás. O que me preocupa é a troca de bola na frente do gol, uma, duas, três vezes... Aí isso é muito complicado, muito perigoso.

Tem que ser feito no momento certo, na hora correta, com jogadores que tiverem qualidade para fazer essa função. Fazer com que o goleiro jogue com os pés... não é todo o goleiro que tem essa condição.

Goal Brasil: Ser comumente rotulado como um treinador que foca mais na defesa, te incomoda?

Celso Roth: Não, não me incomoda porque na hora do aperto todo mundo pensa na defesa, né? Acho que é uma coisa normal. O rótulo é que me preocupa, não o jeito que eu faço as coisas. Quem conhece o meu currículo e o jeito que eu faço as coisas sabe que não é verdade isso. Eu não me preocupo com a parte defensiva, me preocupo com o equilíbrio da equipe. Aliás, é uma das palavras que eu sempre usei e que está sendo usada agora de uma forma normal.

Agora, o que tem que se explicar para o torcedor, e o torcedor não admite, é que às vezes esta equipe não está bem tecnicamente. E quando isso acontece a gente trata de arrumar a coisa mais fácil, que é a defesa. E esta situação eu já disse várias vezes, mas as pessoas acham que isso é ser defensivista, é ser retranqueiro. É uma idiotice pensar assim. A lógica das coisas é assim.

Quando a gente entra numa equipe que não está conseguindo os resultados, que não está bem tecnicamente, que não tem recurso para jogadores bons, a primeira coisa que se faz é ajeitar, estruturar o time, para não sofrer gols. E, consequentemente, para não perder o jogo. Porque a equipe que não sofre gols e não perde o jogo, aos poucos ela vai crescendo. A autoestima cresce, a confiança cresce, e aí a equipe passa a jogar. Quando a gente tem uma equipe tecnicamente boa, obviamente vamos jogar para que a coisa flua naturalmente, de acordo com a qualidade técnica dos jogadores.

Ser rotulado de retranqueiro não me incomoda. O que me incomoda é a interpretação do retranqueiro, do defensivista.

Goal Brasil: Você era o técnico do Vasco quando o Romário fez o seu milésimo gol. Como vê essa questão dos recordes e contagens, que voltou a ser pauta com as marcas recentes de Messi e Cristiano Ronaldo?

Celso Roth: Eu não sei os números. Se, numericamente falando, ele tem mais gols que o Romário, não pode ser tirado dele este mérito. Nem dele, nem do Messi ou de outro jogador. Só que falar de Romário não é só falar dos gols. O Romário é uma lenda, um gênio, Pelé é um gênio. Maradona foi um gênio. Não são só os gols.

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