Os erros de Sampaoli e uma Argentina bagunçada representada e humilhada em suas falhas bizarras

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Gabriel Rossi/Getty Images
Atuação pífia contra a Croácia foi reflexo de todos os problemas que a Albiceleste enfrenta nos últimos anos

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Lamentável. Papelão. Pífia. Não faltam adjetivos para a péssima atuação da bagunçada, completamente desorganizada e tosca Argentina na humilhante derrota por 3 a 0 para a Croácia.

Humilhante não por se tratar da Croácia, que possui um excelente time e vários ótimos jogadores, além de Modric e Rakitic, dois craques que seriam titulares em qualquer time do mundo.

Humilhante pela exibição patética da Argentina, que mais pareceu um amontoado de jogadores, um catado de última hora, contra um verdadeiro time, muito bem organizado, de enorme qualidade e totalmente consciente dentro do campo. O contrário dos hermanos.

Humilhante porque o terceiro gol lembrou alguns dos sete marcados pela Alemanha no 7 a 1 contra o Brasil, em 2014, tamanha facilidade com que os croatas tocaram a bola dentro da área argentina.

Humilhante porque a derrota, da forma como aconteceu, representa todas as falhas bizarras e a bagunça do futebol argentino.

Não existe um culpado, mas vários.

Willy Caballero Argentina Croatia World Cup 2018

Começando por Jorge Sampaoli. Ninguém questiona a qualidade e a competência do treinador, com trabalhos sensacionais e históricos na Universidad de Chile e na seleção chilena, além de uma boa temporada no Sevilla antes de assumir a Argentina. No entanto, na Albiceleste, seu trabalho é péssimo até aqui.

Sampa convocou 59 jogadores e, em 13 partidas, não repetiu a escalação uma vez sequer. Ele tenta desesperadamente encontrar uma fórmula que funcione, deixando seu time organizado, coeso e fazendo Messi brilhar ao máximo, mas ainda não conseguiu. A equipe tem sido uma bagunça completa, não possui padrão de jogo, os setores não conversam, a defesa é frágil, o meio-campo não existe e o ataque é inofensivo. 

Isso tudo mesmo com excelentes nomes no plantel: Messi, Dybala, Di María, Agüero, Higuaín, Lo Celso, Banega e por aí vai...

Paulo Dybala(Fotos: Getty Images)

No entanto, suas escolhas têm sido equivocadas e, como é o seu "time", Sampaoli mostra estar perdido. Durante a preparação para a Copa, ele treinou com o excelente e jovem Lo Celso no meio-campo, opção elogiada por muitos, testou Banega e Pavón, e a Argentina parecia encontrar uma equipe ideal.

Na estreia contra a Islândia, porém, ele escalou a Albiceleste no 4-2-3-1, deixou Lo Celso e Banega no banco, e colocou Biglia no time titular. Ao invés de Mercado, titular durante a preparação, optou por Salvio na lateral-direita. Deixou Pavón e Dybala no banco para Meza entrar no onze inicial.

Salvio e Meza até foram bem, mas Biglia ao lado de Mascherano deixou a Argentina pesada demais, sem a transição defesa-ataque ideal e com pouca penetração pelo meio, sem ter elemento surpresa e deixando Messi sobrecarregado e sem ter com quem dialogar, já que Meza estava apenas aberto pela direita e Di María completamente apagado pela esquerda. O resultado foi uma atuação pífia e um empate com a Islândia.

Angel Di Maria Argentina Islandia Iceland World Cup 16062018(Foto: Matthias Hangst/Getty Images)

O time melhorou um pouco no segundo tempo, com as entradas de Banega no lugar de Biglia e Pavón na vaga de Di María. Com mais velocidade, penetração e aproximação, além de um elemento surpresa no meio-campo e fazer a chamada marcação alta nos islandeses, pressionando a saída de bola e forçando o erro rival, a Argentina não foi incomodada na defesa e, com mais capricho, poderia ter vencido, ainda que sem inspiração e a melhor das atuações.

Sampaoli, então, viu que o time precisava de mudanças, e resolveu modificar o esquema tático e três peças. Acertadamente, sacou Biglia, Rojo e Di María, e passou do 4-2-3-1 para o 3-4-3. Ele colocou Mercado na zaga com Otamendi e Tagliafico, Salvio na ala pela direita e Acuña pela esquerda, com Mascherano como volante. Decisões corretas. Ao lado do Jefecito, o ideal seria Lo Celso ou Banega, mas o treinador, de forma equivocada, ficou na dúvida entre Enzo Pérez e Meza.

Nesse cenário, o melhor seria Meza, mas ele escolheu Pérez, que sequer tinha sido convocado e só entrou no plantel após o corte de Lanzini, dias antes do Mundial. No ataque, Sampa testou Pavón com Messi e Agüero. Ao invés do atacante do Boca Juniors, porém, entrou com Meza mais avançado.

Messi Pavon Argentina Trainning 20062018(Foto: JUAN MABROMATA/AFP)

Enzo Pérez entre os titulares com Lo Celso e Banega no banco. Pavón e Dybala assistindo Meza jogar. Simplesmente não faz sentido.

Novamente, ele fez testes durante a semana nos treinamentos e entrou com outro time em campo. Pensou em uma coisa e fez outra. Cometeu os mesmos erros de uma dupla de volantes pesada e não colocar Pavón entre os titulares. O resultado foi um completo desastre do início ao fim.

Perdida, a Argentina mostrou todas as já citadas fragilidades e foi dominada pela Croácia, não conseguindo sequer assustar a defesa adversária.

No entanto, na volta do segundo tempo, o "time" não estava tão ruim. Sem inspiração e organização, a Argentina tentava pressionar e ao menos não era massacrada. Sampaoli inclusive já preparava a entrada de Higuaín e pensava em colocar Pavón em campo, duas boas mudanças, mas acabou pagando o preço por mais uma de suas tantas escolhas questionáveis.

Willy Caballero Argentina Croatia World Cup

Caballero, reserva em seu clube, com apenas seis jogos pela seleção, mas bancado pelo treinador para ser o titular na Copa, mesmo com Armani vivendo fase iluminada no River Plate e sendo considerado um dos melhores goleiros na América atualmente, cometeu uma falha bizarra. Bizarra como o catado hermano.

O goleiro, que até tinha feito uma grande defesa no primeiro tempo, mas já tinha dado sustos inclusive contra a Islândia, entregou a bola de forma tragicômica nos pés de Rebic, que com muita qualidade, fuzilou para o gol argentino sem dó.

A Albiceleste sentiu o gol. O psicológico, que já não estava essas coisas, se mostrou ainda mais frágil. Messi, que já estava sumido, desapareceu. Bateu o desespero. Sampaoli colocou Higuaín e Pavón. Os hermanos partiram pra cima sem organização, na base do abafa e, quando tentavam o empate, viram o craque Modric acabar com as esperanças.

Maestro, melhor em campo e líder de um time de verdade, o camisa 10 acertou um lindo chute de fora da área. No final, uma Argentina entregue ainda viu a Croácia tabelar dentro da área para fechar a humilhação com o gol de Rakitic.

croatia argentina - luka modric - world cup - 21062018

O "futebol" tosco, a atuação lamentável da Argentina e o 3 a 0 humilhante foram reflexo de todos os problemas já citados da Albiceleste, do péssimo trabalho e das escolhas equivocadas de Sampaoli.

E também o reflexo da verdadeira zona que tem sido o futebol argentino. A AFA (Associação de Futebol Argentino) consegue ser pior que a CBF, envolvida em diversos escândalos de corrupção, com uma briga esdrúxula pelo poder e protagonizando diversas trapalhadas.

O Campeonato Argentino é outra bagunça e, após o vice em 2014, a seleção teve três técnicos diferentes no ciclo para a Rússia: Tata Martino, Edgardo Bauza e Jorge Sampaoli, sendo que Bauza durou apenas oito jogos no comando. Os três ainda possuem estilos totalmente diferentes, em mais uma das tantas provas de uma entidade perdida como seu treinador e seu "time".

Bauza Seleccion Argentina Ezeiza 11042017(Fotos: Getty Images)

Além de tudo isso, a preparação para a Copa também foi uma bagunça. A Argentina se classificou na última rodada das Eliminatórias, com Messi sendo mágico e salvando o país com três gols contra o Equador. Nos amistosos antes da Copa, o nível apresentado decepcionou e a equipe ainda foi goleada por 6 a 1 pela Espanha. Romero e Lanzini, que seriam titulares na Rússia, foram cortados por lesões. O polêmico amistoso com Israel foi cancelado e a pressão era e segue enorme pelos três vices seguidos em 2014, 2015 e 2016, assim como as críticas.

É difícil ser mais conturbado que isso.

Não à toa, o que acontece com a Argentina na Rússia tem sido um reflexo de toda essa zorra. Pelo talento de seus jogadores e ter um técnico competente, a imprensa e a torcida hermana alimentavam a esperança de Sampaoli encontrar o time ideal e a Albiceleste brilhar na Copa. Aconteceu o contrário.

Jorge Sampaoli Argentina Croatia Croacia Wolrd Cup 2018 21062018(Foto: Gabriel Rossi/Getty Images)

A vitória da Nigéria sobre a Islândia, porém, manteve vivo o sonho argentino. A classificação é possível, basta vencer as Super Águias e ocorrer um empate ou uma vitória da Croácia no embate com os Vikings. Os resultados são totalmente possíveis, ainda que o time de Zlatko Dalic vá jogar sem seis titulares. O maior empecilho para os hermanos conseguirem dar a volta por cima, no entanto, não é nada disso.

A maior adversária da Argentina é ela mesma. A Argentina precisa vencer si mesma e superar seus próprios problemas.

Sampaoli precisa colocar Lo Celso no meio-campo ao lado de Mascherano, ou então Banega, e Dybala e Pavón ao lado de Messi no setor ofensivo. Assim, a Argentina terá mais aproximação, penetração e velocidade, além de elementos surpresas e parceiros para deixar o camisa 10 menos sobrecarregado e ajudá-lo a criar jogadas e decidir.

Lionel Messi Argentina(Foto: Argentina/Divulgação)

A Argentina precisa deixar de ser o reflexo de sua própria bagunça. Precisa se recuperar para evitar um vexame.

A campanha atual é o pior início de caminhada em Mundiais da história do país, ao lado de 1974. No entanto, na terceira rodada da fase de grupos daquela Copa, a Albiceleste goleou o Haiti e avançou ao estágio seguinte. A história pode se repetir, mas a Argentina precisa vencer si mesma para conseguir.

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