Andrés Escobar foi para as ruas de Medellín ansioso para encontrar com o seu povo, com a ideia de encarar a realidade, com o fascínio de receber um pouco de afeto. Mas a atmosfera era muito podre. A violência era impossível de conter. A luta era desencadeada a cada minuto. O ressentimento nunca parou. E no final, nada foi curado.
"Os dois Escobares", documentário produzido pela ESPN e dirigido pelos irmãos americanos Jeff e Michael Zimbalist, conta os trágicos caminhos paralelos de Andrés e Pablo. Um, o símbolo do futebol colombiano: humilde, elegante, silencioso, talentoso. O outro, uma figura de terror, falta de razão e de poder.
O futebol não pode ser separado da realidade, porque a realidade é forte demais. No final dos anos 80, início dos 90, a Colômbia era controlada por traficantes de drogas. Em certo momento, conseguiram tanto poder que chegaram a participar de setores públicos e legais, aprovados pela sociedade. Então, Pablo Escobar investiu no Atlético Nacional de Medellín. A estratégia? Lavar a sua imagem e, principalmente, dinheiro.
Pablo Escobar era uma espécie de diabo para uns e santo para outros. O dinheiro do tráfico ia para os seus cofres, mas também para as favelas colombianas. Se autodenominava Robin Hood: construía campos de futebol, casas, melhorava as condições de vida de muitas pessoas. O futebol colombiano tornou-se poderoso: já não era mais necessário que grandes jogadores procurassem clubes no exterior. Na Colômbia, eles ganhavam muito bem.
Andrés, um dos grandes símbolos do Atlético Nacional campeão da Libertadores de 1989, preferia se manter à margem disso. Mas era simplesmente impossível. Os jogadores se transformaram em uma espécie de marionetes.
O documentário tem um bom ritmo e conta com todas as fontes que tem para atravessar o tema. No geral, o relato é sensível e o caminho paralelo entre os dois Escobares é percebido, embora a família do ex-capitão colombiano tenha se revoltado porque, como contaram, os criadores do filmes nunca disseram que mesclariam as histórias de Andrés e Pablo.
O momento culminante acontece depois da Copa do Mundo de 1994. A Seleção Colombiana chegou como forte candidata nos EUA. Devorados pela pressão, as bolas não entraram. Derrota de 3 a 1 no primeiro jogo contra a Romênia e os jogadores receberam ameaças de morte. No segundo jogo, contra os EUA, Escobar tentou interceptar um cruzamento da esquerda, mas acabou marcando contra. Colômbia eliminada.
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Dizem que se Pablo Escobar estivesse vivo, nada teria acontecido com Andrés. Mas o traficante foi morto em dezembro de 1993 e as ruas estavam descontroladas. Quando voltou, Andrés foi a um boate com sua noiva e um pequeno grupo começou a incomodá-lo. Ele reagiu. Ao sair, os mesmo caras o procuravam. Andrés levou seis tiros. Nunca ficou esclarecido quem foram os culpados. O motorista do carro ficou preso durante 11 anos, mas a família do jogador não acredita que ele tenha sido o verdadeiro culpado. Seu chefe, os irmãos Gallón, foram condenados a 15 meses por encobri-lo.
Algum tempo depois, os traficantes desapareceram do futebol colombiano que, sem dinheiro, esteve a beira da falência. Andrés Escobar ficou marcado como um símbolo de tempos violentos. Tornou-se uma bandeira: o futebol não pode ser uma ilha, nem escapar da realidade. Muitos pensaram em Andrés quando a Colômbia foi sorteada para o grupo dos EUA na Copa América. Uma ferida ainda está aberta e a cada dia se abre um pouco mais.
"Mas, por favor, que o respeito se mantenha... Um abraço forte para todos e lhes digo que foi uma oportunidade e uma experiência fenomenal, rara, que jamais havia sentido em minha vida. Até breve, porque a vida não termina aqui" - Andrés Escobar

