O segredo do 'senhor' Marcos Antônio no Shakhtar: 'Faço o simples, mas um simples muito bem-feito'

Marcos Antônio - Shakhtar
De volta à seleção brasileira de base, jovem 'workaholic' de 20 anos é o motor do meio-campo do time ucraniano

Com apenas 20 anos, Marcos Antônio é o “senhor” do meio-campo do Shakhtar Donetsk, que domina o futebol ucraniano há temporadas e agora tem sido uma das grandes sensações da atual edição da Liga dos Campeões, principalmente com a vitória por 3 a 2 em cima do poderoso Real Madrid.

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Bahia, como é chamado por amigos e companheiros de time, pode ser considerado um tímido “workaholic” (trabalhador compulsivo). Isso é visto dentro de campo, com diversas ações técnicas e táticas que, apesar de simples, são majoritariamente eficientes. É evidenciado também fora das quatro linhas, visto que a palavra “trabalho” está presente em quase todas as suas declarações.

Revelado pelo Athletico Paranaense, onde acabou por não jogar profissionalmente e saiu de forma conturbada em 2017, o jovem meia trabalha (olha o termo aí outra vez) para crescer cada vez mais no Shakhtar e, consequentemente, pular da seleção sub-23 à principal.

Como faz para deixar de lado a timidez dentro de campo?
É engraçado, né? Sou uma pessoa muito tranquila fora de campo, sou muito na minha, procuro olhar tudo com calma, e já dentro de campo é aquilo você tem visto, é muito trabalho, tentar ser feliz e fazer o melhor possível. Tento me soltar em campo para ajudar a minha equipe e os meus companheiros.

Eu, sinceramente, nunca te daria 20 anos. Demonstra uma personalidade de um jogador experiente, tipo um "medalhão". Às vezes, você mesmo sente que é mais velho?
[Risos] As pessoas falam muito isso mesmo. Mas tenho 20 anos, pode acreditar. Como disse antes, procuro acima de tudo ser feliz e fazer o melhor. O negócio é manter a calma, ter concentração no jogo, mas também jogar de forma solta. Os erros acabam por acontecer, é normal, mas nunca deixo que isso me abale. Sou muito calmo, sempre com foco no jogo.

Sempre foi assim ou foi algo que aprendeu aqui na Europa?
Isso sempre esteve comigo. Obviamente, a idade já ajudou em muita coisa, mas, no geral, sempre fui assim.

Quais são os segredos para ser a referência no meio-campo do Shakhtar?
Não tem como fugir muito daquilo que já falei: é o trabalho. Estou sempre focado, sempre trabalhando. O trabalho é tudo. Sei que vou errar, que não vou ter bons dias, mas não posso perder o foco. Os erros nunca podem atrapalhar o meu jogo. O meio-campo do Shakhtar tem muitos jogadores de qualidade, alguns mais jovens, outros mais velhos. A disputa acirrada só aumenta a nossa qualidade.

Você essencialmente joga o “simples”, mas é um “simples” muito eficiente. Existe uma autocobrança pela simplicidade?
É exatamente isso, sou um jogador que faz o simples, mas um simples muito bem-feito. Treino para fazer isso: fazer o certo e o melhor dentro da minha posição. Não sou de inventar muito, sou sempre objetivo. Sou muito concentrado naquilo que faço, o meu “simples” é aquele simples que ajuda muito a equipe. Já funciona bem assim agora, e acredito que vai funcionar mais e mais.

Quem olha de longe pode achar que ter chegado ao Shakhtar foi fácil, simples, mas sei que o percurso foi árduo e cheio de dúvidas, sobretudo quando deixou o Athletico Paranaense (em 2017) e ficou sem jogar. Como tudo isso mexeu contigo?
Não foi fácil, não foi nada fácil. Quem está em casa, no conforto do sofá, de boa, acha que tudo foi muito fácil para mim. Mas o processo não foi mesmo nada fácil. Saí do Athletico de uma maneira que não queria, queria ter vestido a camisa do time principal, mas infelizmente isso não aconteceu. Tive que sair, porque às vezes precisamos pensar em nós, o clube muitas vezes pensa apenas nele próprio. Naquele momento, o clube não pensou em mim, e fiquei muito triste com isso. Tive que seguir a minha vida, a minha carreira. Tinha, sim, o sonho de se profissional e continuar no Athletico, mas não aconteceu. Não houve um bom acordo para todos os envolvidos, uma parte só pensou nela, então tive que seguir em frente.

Antes de ir para o Estoril, fiquei parado durante um tempo, e isso foi muito ruim. Felizmente, sempre tive foco, com a certeza de que tudo daria certo. Surgiu o futebol português, inicialmente no sub-23. Foi um pouco difícil, um novo estilo de jogo na Europa, sobretudo porque não tinha a experiência de jogar como profissional. Me adaptei, cresci e cheguei à equipe principal. Depois, apareceu o Shakhtar, algo que conquistei com muito trabalho e dedicação. É muito gratificante o caminho que trilhei para chegar até aqui.

Quando fecha os olhos, quais são as lembranças daquele período sem jogar?
Foi mesmo muito difícil para mim, fui obrigado a ficar parado por ser menor de idade. Por diversas vezes pensei comigo: “Vai dar certo? Foi o mais correto sair de um grande clube brasileiro para ficar um tempo sem jogar?”. Repito: tive mesmo que sair, porque pensava em crescer, achava na ocasião que a maneira como o Athletico queria lidar comigo não era a certa. Ficar parado foi muito ruim, ficar dentro de casa, perdi muitas coisas… mas sabia que viria a dar certo lá na frente. Deu tudo certo, graças a Deus.

Que peso tem a forma de pensar de Luís Castro no seu estilo de jogo?
Quando ele [treinador português] chegou aqui, demorei um pouco para assimilar a forma de jogar. Os dias foram passando, os treinos foram rolando, e fui procurando entender o mais rápido possível. Felizmente, consegui, e daí em diante cresci bastante. É um jogo para frente, sempre a propor o jogo.

Já jogou mais próximo ao ataque, às vezes aberto, agora mais recuado… Sente que fica mais confortável em qual posição?
É verdade, já joguei em diversas posições. Só aqui no Shakhtar já fui colocado como primeiro volante, segundo volante, cheguei a ser uma espécie de número 10, mas sempre tendo que voltar para buscar o jogo. Sou muito tranquilo dentro de campo, obedeço as ordens e procuro sempre fazer o meu melhor. No fundo, sempre fui um número 8. Encaro todas as posições de forma muito tranquila.

Quando você para e vê o Shakhtar Donetsk como líder de um grupo da Liga dos Campeões com Real Madrid e Inter de Milão, o que passa pela sua cabeça?
É um grupo muito forte, e todos puderam ver isso logo nas duas primeiras partidas (vitória por 3 a 2 diante do Real Madrid e empate 0 a 0 com a Inter de Milão). Estamos trabalhando muito forte, conseguimos um ótimo resultado contra o Real, quando, na verdade, muitos não acreditavam no Shakhtar, com um time cheio de mudanças e vários jovens jogadores. Agora tivemos um empate com a Inter, que, no fundo, não é um resultado ruim. Seguimos trabalhando e queremos ficar lá em cima.

Já não é de hoje que o Shakhtar aposta forte em brasileiros. Nos últimos anos, então, a prioridade passou por buscar brasileiros cada vez mais jovens. Como fazem para ultrapassar a barreira da “falta de experiência”?
Isso não atrapalha em nada. Os jovens também trabalham forte, trabalhamos todos os dias, com muita dedicação. Estamos todos vivendo um grande sonho, de jogar na Europa, jogar em grandes competições. O segredo é a concentração, com muita união entre todos.

Sente que o Shakhtar de hoje não deixa nada a desejar a Real Madrid e Inter de Milão?
Todos sabemos da grandeza dos dois clubes. Chegamos desacreditados por muitos de fora para enfrentar o Real Madrid, quase ninguém acreditava no Shakhtar, mas, com muita humildade e trabalho, fizemos um grande jogo e vencemos.

O que pesou para “surpreender” e bater o Real Madrid?
Trabalho. Não tem segredo, vencemos na base do trabalho. Entramos em campo sabendo da necessidade de ter muito foco, e assim foi. Tivemos uma grande atuação tática.

O Shakhtar é dono de uma hegemonia na Ucrânia, teve uma grande participação na última Liga Europa… mas acha que faltava uma vitória deste tamanho, frente ao Real Madrid, fora de casa, para olharem de outra forma para vocês?
Estou há dois anos no Shakhtar, tive a oportunidade de jogar grandes jogos… como você disse, um jogo deste tamanho, com um resultado desta dimensão, tudo isso dá uma enorme confiança e demonstra que o Shakhtar também é grande, e tem tudo para crescer mais e mais. Somos grandes, temos demonstrado isso há anos.

Ainda “correm por fora” no grupo ou se consideram um dos favoritos?
Não, não… é um grupo muito forte, com três equipes grandes, então precisamos trabalhar muito e ter confiança. Vamos respeitar sempre os adversários.

A vitória contra o Real Madrid foi gigante e também disse anteriormente que o empate com a Inter de Milão não foi um resultado ruim. Sendo assim, podemos então falar que o Shakhtar Donetsk tem a obrigação de vencer o Borussia Mönchengladbach na próxima rodada?
Não, não vejo assim, até porque do outro lado tem uma grande equipe também. Obviamente, vamos entrar em campo em busca da vitória, isso é muito claro para todos nós. Pensamos sempre na vitória.

O Shakhtar é famoso em potencializar, evidenciar e, na sequência, vender muito bem os jovens jogadores. Você é o próximo?
Isso já aconteceu aqui com muitos jogadores, o último deles foi o Fred, que acabou vendido ao Manchester United [por cerca de 55 milhões de euros]. Tenho esses jogadores como exemplos. Agora, o mais importante é trabalhar pensando em mim e também no clube, não pensando numa venda. Se isso acontecer, que seja bom para todos os lados.

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Voltou agora a ser convocado à seleção de base (sub-23). Demorou um pouco, não? Acha que já deveria ter acontecido antes?
Sempre trabalhei muito pensando em voltar à seleção, também sempre respeitei os meus companheiros e a comissão técnica. Fiz sempre o meu trabalho, à espera do momento certo. Tenho feito um ótimo trabalho no Shakhtar, como todos têm visto, e estou muito feliz por voltar à seleção. A alegria é imensa.

É um processo natural ser em breve chamado à seleção principal…
É um sonho. Sei das dificuldades, dos grandes jogadores que existem na minha posição, mas quem sabe um dia… Para isso, tenho que continuar trabalhando muito e ouvindo bastante.

Mas está pronto para ser uma das opções efetivas do Tite ou acha que ainda falta alguma coisa?
Tenho que evoluir sempre, trabalhar com objetivos. Não adianta vir aqui e falar coisas que não são verdadeiras. Sei que preciso crescer mais, aprender mais e, quem sabe, chegar lá. Chegar à seleção principal é o meu maior sonho.

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