Fred, Conca e Marcão. O que os três tem em comum, além do fato de serem considerados ídolos do Fluminense? A forma pouco amistosa como deixaram o clube das Laranjeiras. Se o artilheiro trocou o seu desejo de encerrar a carreira no Tricolor e partiu para o Atlético-MG em 2016, o eterno camisa 5 também acha que não foi tratado como deveria e não esconde a mágoa dos atuais dirigentes.
Contratado pelo então presidente Peter Siemsen para ser da comissão técnica permanente do clube no início de 2014, o ex-jogador comandou a equipe como técnico interino no final de 2016 e teve 44,4% de aproveitamento (duas vitórias, dois empates e duas derrotas), antes de ser demitido no início deste ano, faltando apenas dois dias para retornar das férias.
Mesmo ciente da pressão existente em qualquer clube grande, Marcão relembra o encontro que teve com o ex-presidente e aponta qual o verdadeiro motivo para o seu desligamento na sua opinião.
"Engraçado que encontrei com o Peter e ele falou que me colocou numa situação muito difícil, mas a gente que trabalha no Fluminense há muitos anos, está acostumado com pressão. Quem não quiser trabalhar com pressão, não pode trabalhar no Fluminense. Então, já sabíamos da situação. Realmente, os resultados não vieram, mas também acho que não foi esse o motivo da minha saída. Em outras oportunidades, eu assumi e fui bem, principalmente no Campeonato Carioca. A minha saída foi questão política mesmo, mudança de grupo e entendemos isso. O Fluminense é muito grande, as coisas giram muito rápido. As pessoas que estão lá hoje, amanhã não vão estar. O processo do futebol é esse, é natural, normal", afirmou em entrevista à Goal.
O treinador admite que a fase era tensa, mas relembra que o clima nos bastidores era um fator que complicava ainda mais as coisas dentro das quatro linhas no ano passado. Tudo isso, na sua opinião, acabou prejudicando o andamento do seu trabalho e por isso foi responsabilizado pelo rendimento abaixo do esperado, culminando com a sua demissão pela diretoria.
"A gente sabia que era um momento muito difícil. Internamente as coisas estavam piores ainda, só quem estava lá sabe. Na verdade, houve uma mudança política e o grupo que entrou achou de alguma forma que a gente não se encaixava no perfil deles. A gente entende."
Nelson Perez - Fluminense
Após polêmica com Levir Culpi, Fred assinou com o Galo (Foto: Nelson Perez - Fluminense FC / Divulgação)
Ainda que não aprove a forma como as demissões foram conduzidas, o ídolo tricolor lembra que não foi o único atleta reverenciado pelos torcedores a sofrer com o descaso vindo por parte do atual grupo político que conduz o clube. Nomes que entraram para a história tricolor, como Fred e Conca, por exemplo, também foram preteridos pelos dirigentes e acabaram trocando de agremiação, o que na visão do ex-volante é muito negativo, pois além do grupo deixar de ter uma referência, os ídolos passam a ter suas histórias questionadas, gerando uma marca negativa para os dois lados. Mesmo deixando claro reprovar esta conduta cada vez mais comum nas Laranjeiras, ele prefere lembrar um caso positivo para usar de exemplo.
"O ruim dessa história toda é o trato. Como que você termina esse casamento do ídolo com o clube. Temos o exemplo muito bom do Thiago Silva que é ídolo até hoje e teve uma saída limpa, um trato bonito. Até hoje trocamos mensagens porque ele assiste aos jogos do Fluminense e fica comentando, falando taticamente. Mas a maioria dos nossos ídolos, o trato dado não tem sido muito legal. De um tempo para cá, você vê alguns jogadores que não querem voltar para o clube por conta do que aconteceu na saída. Quando eu reclamei na minha saída foi pelo mesmo motivo: o trato. O compromisso que tínhamos pelo clube. O mínimo era ter o respeito, de olhar no olho e falar que não estávamos no plano. Não questionamos a escolha, mas a forma. O trato de um clube grande é assim, da mesma forma dos grandes dirigentes", completou.
Décimo jogador que mais vestiu a camisa do Fluminense, com 397 partidas, poucos conhecem tão bem os jovens do clube como Marcão. Sempre acompanhando de perto o que acontece com a equipe, o treinador discordou da forma como trataram o afastamento de Wendel por indisciplina.
"É um menino muito novo, né? O Neymar passou por isso também, se não fosse o Renê Simões naquele momento para dar um grito, a gente não sabia o que ia acontecer. É um menino que estava para ser mandado embora do Fluminense, estava treinando separado porque não era nem relacionado para a equipe Sub-20, mas via muita intensidade. Dali nós cobramos uma posição do pessoal do Sub-20 e o Luis, treinador na época, entendeu e começou a utilizá-lo. É difícil você não ter nada e daqui a pouco já tem uma estrutura, com salário alto e facilidades. Eu falo isso porque a gente teve relação com todos os meninos da base: Thiago, Marcelo... entendemos a realidade de todas as pessoas. Se naquele momento ele está vivendo aquilo, temos que arrumar um jeito de solucionar, não só apontar o dedo e criticar. Discordo muito do método que foi usado. O menino tem muito potencial e vai dar muito retorno. Temos que ter um cuidado muito grande quando fala sobre um menino muito novo", apontou.

Foto: Getty Images
Mesmo reconhecendo o momento delicado do Fluminense na temporada, Marcão se mostra otimista quando ao futuro da equipe nesta reta final de Brasileirão e faz questão de seguir na torcida, ainda que saiba que o elenco tricolor é formado por diversos jovens.
"A gente sabe que disputar o Campeonato Brasileiro é muito difícil. São muitos meninos que estão competindo pela primeira vez, é muito difícil você chegar disputando com elenco forte e grande. Temos de exemplo o próprio Corinthians, com vários jogadores experientes. Imagina o Fluminense com vários jovens e com a pressão da torcida? Mas acredito que vai sair dessa situação o mais rápido possível. São jogos difíceis, é uma preocupação muito grande", afirmou.
Sorriso fácil e fala mansa. Assim é uma boa forma de descrever Marcão, que pode não ter conquistado muitos títulos pelo Fluminense, mas vestiu a camisa da equipe com coração, entrega e criou uma enorme identificação com a torcida.
Números do Fluminense na temporada:
Veja outros pontos da entrevista:
Flu 'rico' x Flu em crise: "A gente começou na Série C, na restruturação. O Parreira foi importantíssimo naquele processo. Se não fosse ele naquele momento, acredito que o Fluminense não sairía daquela situação. Ele foi peça fundamental. Pegamos também a chegada da Unimed, que foi importante assim como a saída. A gente viu que o clube tentou de todas as formas manter um grande elenco, uma grande equipe para disputar o campeonato na parte de cima. Só que nesse ano teve eleição, mudança de presidente e agora estão encontrando uma dificuldade de acertar. Não sei o que passou, o que tinha atrás, isso é briga interna deles, mas a gente tem acompanhado que estão encontrando dificuldade de estruturar novamente o clube. A gente de fora fica na torcida porque o Fluminense é enorme, com uma torcida maior ainda. Tenho certeza que daqui a pouco as coisas vão se encaixar e o clube vai conseguir andar pelo tamanho que é".

Foto: Nelson Perez / Fluminense FC / Divulgação
Carinho do torcedor: "Eu amo o Fluminense. Mês passado eu estive junto com a torcida e foi muito bom. Algumas pessoas me ligaram falando que eu era maluco de acompanhar o jogo no meio da torcida, mas ninguém tem noção como é gostoso aquilo ali (risos). A gente separa muito, sabe? Naquele momento o torcedor só quer apertar a sua mão, dá um abraço... O clube poderia juntar mais isso, fazer um trabalho para aproximar o clube dos torcedores. Foi um momento inesquecível e vou contar para os meus filhos e netos".
Relação com Thiago Silva e conselho pós Copa do Mundo de 2014: "A gente conversa sobre tudo. Somos muito presentes na vida do outro. Sofremos juntos naquele momento. Muitos não entenderam, mas eu que o conheço, sei que ele tem um grande coração. Sentimento puro. E as pessoas quando não querem ajudar, aproveitam para falar mal. Mas entendemos o sentimento porque todos sofreram. Ele tem uma caminhada muito linda pela frente ainda"

Fotos: Nelson Perez / Fluminense FC / Divulgação
Como se tornou treinador: "Na verdade, já estava saindo do Bangu, estava com 35 anos e não aguentava mais correr atrás dos meninos. Então, o presidente perguntou se eu não queria ir para a beira do campo. Eles estavam tirando um treinador e pediram para assumir duas ou três partidas. Isso acelerou o processo. Já tinha o entendimento e conseguimos nos livrar de uma situação ruim que o Bangu estava. Dali, comecei a primorar, estudar e fazer curso.
Técnicos que o inspirou: "Oswaldo de Oliveira, esse cara é fantástico. O Renato Gaúcho também é outro que tenho uma identificação muito grande, além do Eduardo Baptista, que acabei de trabalhar no Fluminense. Tenho certeza que ele vai ser um dos tops em pouco tempo, porque ele tem uma linha moderna. É da linha do Oswaldo e do Renato, com transparência. Waldermar não teve a expressão do Oswaldo, mas o trabalho sempre foi lá em cima. Foram tantas pessoas boas, que posso ser injusto. Mas sem dúvida, Oswaldo, Renato e Eduardo marcaram".
Lembrança como atleta: "Tudo que aconteceu, momentos bons e ruins, eu guardo com muito carinho. Mas eu guardo muito a Série C porque se o Fluminense não fosse campeão, eu voltaria para o Bangu e aquele momento foi muito especial. Viajei, fiz pré-temporada fora, EUA, México, ainda trabalhei com Parreira. Fizemos jogos bizonhos, mas outros demos a vida. A torcida foi entendendo o nosso limite e dali fizemos a nossa força. Então, aquele período foi muito especial".




