Por Andrea Pietrzela
Quando vivia um grande momento em sua carreira, Leandro Castán foi diagnosticado com um tumor cerebral, que mudou o rumo de tudo. Hoje, quase dez anos depois da doença, e já aposentado, o zagueiro deu uma entrevista contando bastidores deste período e de sua passagem pela Roma, que não terminou do jeito que ele queria.
Vendido à Roma em julho de 2012, Leandro Castán chegou ao novo time com status de campeão da Libertadores, título que conquistou pelo Corinthians e pronto para o novo desafio.
“Assim que ouvi falar da Roma, senti pressão sobre meus ombros... mas estava pronto para tudo", disse em entrevista ao Cronache Di Spogliatoio.
No entanto, a primeira temporada na Itália não foi das melhores, em um esquema tático que não favorecia seu estilo de jogo. A mudança no comando da Roma, porém, fez muito bem ao zagueiro, que na temporada seguinte, fez uma boa campanha, digna até de elogios de seu companheiro Daniele de Rossi.
O cenário no ano seguinte, porém, foi completamente diferente. Em 13 setembro de 2014, Castán entrou em campo contra o Empoli, no que foi seu último jogo por um bom tempo. Depois de deixar o jogo por recomendação de Maicon, que percebeu que o companheiro não estava bem, veio o diagnóstico de um cavernoma, um tumor benigno no cérebro.
"Nos primeiros cinco minutos do jogo, senti cãibras nas pernas. Maicon olhou para mim e percebeu que eu tinha algo diferente. No vestiário, ele disse para [Rudi] Garcia: 'Treinador, tire o Castán de lá, confie em mim’, lembrou o zagueiro. “De lá, eu não voltei ao campo durante um ano".
"No dia seguinte, acordei e não consegui me levantar. Minha cabeça estava girando loucamente, pensei que iria morrer”, lembrou. “Eu não podia fazer nada. Durante quinze dias fiquei assim, sem entender o que estava acontecendo comigo. Eu ficava tonto e depois vomitava, vomitava, vomitava. Em quinze dias eu perdi quinze quilos. Eu dizia a mim que estava morrendo”.
“Eu não pensava em voltar ao campo, apenas em ficar vivo. Minha carreira terminou ali, em Empoli. Todos os meus sonhos se apagaram: jogar uma Copa do Mundo, ganhar um Scudetto, o fim. Talvez eu tivesse ficado na Roma até hoje. Mas não, tudo mudou de um dia para o outro".
Após o diagnóstico, Castán passou por mais momentos difíceis, cogitou aposentadoria, mesmo tendo 26 anos, e até pensou em não fazer a cirurgia. “Eu não queria operar. Pensei: 'OK, não vou ser operado, vou parar e voltar para o Brasil”.
E, neste momento, quem o ajudou muito foi seu empresário Walter Sabatini, considerado por ele como seu segundo pai. “Qualquer pessoa teria pensado em dinheiro naquele momento e teria me mandado embora”, disse. “Quando fui rescindir o contrato, encontrei Sabatini, que me disse: ‘Ouça, enquanto eu estiver aqui, você continua sendo o zagueiro da Roma. Leve seu tempo. Você não quer jogar mais? Tudo bem, eu concordo com você, mas pense nisso’".
Duas semanas depois, Castán foi convencido a fazer a cirurgia, mas o caminho da recuperação ainda era longo. O zagueiro precisou reaprender a andar e, quando voltou a jogar, não conseguiu atingir o mesmo nível que estava antes da doença - o que até lhe causou problemas como novo treinador da Roma.
“Eu era o mesmo. Juro, fiz tudo o que pude para voltar ao meu nível. Mas eu não tive sucesso. Agora eu sei que não tinha mais o que fazer, agora estou calmo, não tenho arrependimentos. Mas naquela época eu briguei com todos. Eu queria entender de quem era a culpa por eu não poder voltar ao meu nível. Eu ficava com raiva, mas no fim não era culpa de ninguém”, falou. “Quando cortam sua cabeça, é normal perder a agilidade, velocidade e o equilíbrio”.
Castán também lembrou como foi a reação de seus colegas de time quando ele voltou às atividades. “Não foi fácil estar com meus colegas. Eu podia ver que eles tinham pena de mim no treinamento, dava pra ler isso nos olhos deles, era como se todos pensassem ‘coitadinho’. E eu me sentia mal. Mas agora olho para trás e penso que foi difícil para eles também, se eu tivesse um colega nessa situação teria feito o mesmo".
No momento de seu retorno, Castán encontrou um time completamente diferente do que havia deixado um ano antes, a começar pelo técnico. Luciano Spalletti havia assumido a equipe, e não teve muita paciência como novo ritmo do zagueiro, e precisou de apenas um jogo para ver que não o queria em seu elenco.
"Eu joguei muito mal, realmente. Talvez o pior jogo da minha carreira. No dia seguinte, Spalletti me chamou em seu escritório. Quando entrei, ele estava no computador. Nem me sentei e ele disse: ‘Escute, o jogo de ontem foi um desastre’. Ele virou a tela e havia três ou quatro equipes da segunda divisão 'Seu nível é este, você não pode jogar na Roma'. Tudo se desmoronou para mim’”, lembrou o zagueiro, que no momento cogitou voltar ao Brasil.
No final, ele acabou passando por alguns empréstimos na Itália antes de voltar ao futebol brasileiro. O melhor deles foi ao Torino, quando reencontrou Mihajlovic. No Brasil, defendeu o Vasco e o Guarani antes de se aposentar em 2022.
“Quando olho para trás não é que tenha arrependimentos, mas sinto um gosto amargo na boca. Por não ter jogado mais na Roma e por não ter ido a uma Copa do Mundo com o Brasil”, revelou o zagueiro. “Talvez eu também tenha me enganado na hora certa de voltar, mas eu era como uma criança, eu queria muito voltar. O futebol é o amor da minha vida: eu dei tudo de mim”.


