Jorge Jesus no Flamengo: disputar títulos e criar imagem internacional

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PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images
Treinador português vê no futebol brasileiro a oportunidade de abrir espaço no hoje fechado mercado europeu

Jorge Jesus não esperou até a "última hora" por uma proposta tentadora do futebol europeu, diferentemente do que eu pensava e também era dito constantemente nos bastidores por pessoas próximas ao treinador. Certamente porque, além da grandeza e do prazer do desafio de dirigir o Flamengo, notou que está neste momento com um mercado reduzido nos principais centros.

Antes de fechar com o Rubro-Negro, vale destacar, foi oferecido para Lyon, Olympique Marselha, Roma e Sevilla. Sem sucesso. A dúvida, então, passa a ser inevitável: por que um dos nomes mais vitoriosos da história de Portugal, tendo ainda figurado como o maior salário do país na última década, optou por se "aventurar" no Brasil?

Jesus, de 64 anos, tem um ego peculiar. Ama ser amado entre os portugueses, adora ser visto como referência nacional. Treinou Braga, Benfica, Sporting e espera um dia comandar o Porto, o que muito possivelmente deve acontecer. Apesar de ser um profissional com ideias modernas (e ofensivas) dentro de campo, nunca se preocupou muito em criar uma imagem atraente a nível internacional.

Recordo perfeitamente de ter participado de uma coletiva de imprensa de Jesus, ainda no Sporting, em maio de 2018. Perguntei o motivo de ele, na altura, nunca ter saído de Portugal. Respondeu o seguinte: "Felizmente todos os anos tenho possibilidade de sair para o estrangeiro, mas só saio para um projeto dentro daquilo que entendo como interessante e que venha a depender somente de mim. Neste momento não estou, tenho mais um ano de contrato".

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Sem dominar a língua inglesa, o que também sempre foi encarado pelo próprio como um obstáculo considerável, JJ demorou a ter ao lado um empresário renomado, alguém que pudesse promovê-lo em outros países. Vejam, por exemplo, o até pouco tempo atrás desconhecido Nuno Espírito Santo. Agenciado pelo influente Jorge Mendes, que cuida das carreiras de Cristiano Ronaldo e José Mourinho, o ex-goleiro português precisou de apenas duas temporadas no modesto Rio Ave para, em seguida, pular para Valencia, Porto e, agora, Wolverhampton. Tem apenas 45 anos.

Com o recente sucesso dos jovens treinadores portugueses na Europa, como Leonardo Jardim (Monaco), Paulo Fonseca (Shakhtar Donetsk) e Marco Silva (Everton), Jorge Jesus talvez tenha visto a necessidade de um upgrade. Uma decisão importante, mas tardia. Somente em janeiro de 2019 fez um acordo para ser representado pelo israelense Pini Zahavi, que há anos trabalha com força na França, na Itália e, principalmente, na Inglaterra. Mais recentemente, se aproximou de outro nome de peso, o brasileiro Giuliano Bertolucci, que veio a intermediar a negociação com o Flamengo.

Também sem espaço em Portugal, visto que os três grandes clubes estão bem servidos no momento, JJ viu no Rubro-Negro a possibilidade de dirigir um clube histórico, continuar com um salário interessante, ganhar títulos importantes, curtir um futebol que sempre enxergou com bons olhos e, claro, criar uma imagem mais atraente fora das fronteiras portuguesas. Não à toa assinou um contrato válido apenas até junho de 2020, que acaba bem no meio da conturbada temporada brasileira.

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