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Jardim Peri: o lugar onde Gabriel Jesus era corintiano, "formiguinha" e ousado


REPORTAGEM ESPECIAL


O Jardim Peri é um bairro simples e modesto na zona norte de São Paulo. As condições de vida para quem mora lá são complicadas. Mas algumas características do local foram essenciais na vida de Gabriel Jesus, que cresceu na região e tem muito orgulho disso. Foi lá que o atacante se apaixonou por futebol e mostrou os primeiros sinais de ousadia que teria na carreira. Mas naquele época algumas coisas eram diferentes, como o que ele comia e até para qual time torcia.

A história de Gabriel Jesus tem uma heroína: a mãe dele, Vera Lúcia, que é exaltada pelo atacante a cada conquista. Afinal, ela teve quatro filhos e virou mãe e pai de todos eles. Quando Gabriel, o irmão mais novo, estava prestes a nascer, o pai saiu de casa. Ele sumiu e depois faleceu. Deixou tudo nas costas da "Dona Vera", como ela é conhecida no Jardim Peri. Todos no bairro admiram a forma como ela criou os quatro filhos. Ela já contou que até cheirava a boca de Gabriel para ver se ele tinha fumado. 

gabriel jesus infância casaRodrigo Hoschett/ Goal
Foi nessa casa que Gabriel Jesus cresceu (Foto: Rodrigo Hoschett/ Goal)

Mas tudo deu certo. Vera diz que Gabriel nunca foi um menino mal criado. Vizinhos da região confirmam que o atacante nunca esteve perto de se envolver com crimes ou violência, coisas perigosas que existem na comunidade do Peri. "Primeiramente ele teve educação dentro de casa. E também na própria comunidade. Se alguém via alguma coisa, tirava. Aqui só se perde se quiser. Se não quiser, não vai encostar em coisa que não presta. Gabriel saiu de perto e está aí no mundo. Ele é exemplo para quem não quer o que não presta", explica Wagner, policial que conhece Gabriel desde pequeno. 

O único problema que Gabriel causava no bairro era por causa do futebol. Ele jogava bola na frente de casa e, entre um drible e outro, acertava chutes nas portas e janelas dos vizinhos. Ismael de Oliveira, que até hoje vive na casa ao lado de onde Gabriel cresceu, lembra que ele se acusava: "eles brincavam aqui na porta. Aí falavam: 'seu Ismael, foi eu que chutei'. Aí eu entregava a bola para eles. Mas só para eles. Eu imaginava que ele ia virar jogador porque sempre foi bom de bola e um moleque família. Ele judiava da molecada", afirmou, entre gargalhadas. 

Filho de Ismael, Anderson de Oliveira lembra que jogava com Gabriel e destaca uma curiosidade do atacante: quando criança, o ídolo do Palmeiras torcia para o rival Corinthians, assim como todos irmãos dele. Então ele mandou um recado para o antigo companheiro: "não esquece das suas raízes. Na Libertadores de 2012 nós fomos campeões e comemoramos juntos". A reportagem da Goal perguntou para outros amigos de Gabriel se ele realmente torcia para o Timão. A reação era sempre evasiva. Ninguém negou. "Olha a encrenca". "Assim você me complica". "Não posso dizer isso". O silêncio disse mais do que mil palavras. 

Gabriel tinha um lugar definido para torcer pelo Corinthians e também para jogar futebol: era na frente do Bar da Gi, um local simples, sem luxo algum, mas que atende as necessidades da comunidade: tem lanches básicos, bebidas variadas, uma pequena mercearia, balcão e uma grande televisão. Na frente dele há um encontro de ruas e por isso tem bastante espaço aberto, propício para os jogos dos garotos.  

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Giselle ganhou presente de Gabriel Jesus recentemente (Foto: Rodrigo Hoschett/Goal)

Depois das partidas, Gabriel ia para o bar e mostrava seu lado "formiguinha", pois atacava todo tipo de doce: refrigerante, bolacha, Yakult, bala, chiclete, etc... Também ouvia as brincadeiras da dona do bar, Giselle Xavier, que dizia que futuramente eles iam namorar só para que ela tivesse um filho dele. Gabriel ficava sem jeito:  "ele era tímido, nunca foi namorador, de balada, sempre foi muito tranquilo. Ele sempre foi pé no chão e tinha uma finalidade: jogar bola. Namorar é segundo plano. Eu que falava que ia namorar com ele. Mas até pra responder ele é tímido". 

Além de jogar bola na rua, Gabriel começou a atuar também no time do bairro, o União do Peri, no Campo Tiradentes. Wagner lembra de ajudar ele e outras crianças com transporte: "teve uma vez que foram sete crianças no carro e eu". E também ajudava com doação de chuteiras: "já vi o Gabriel jogar com o pé de uma chuteira e o outro pé de outra". 

Foi lá que Gabriel conheceu Diego Fofão, um formando em educação física que ajuda as crianças no União do Peri. Atualmente ele cuida da carreira de diversos garotos que saíram do bairro e são promessas de diversos clubes. Ele aponta que já existe até um "novo Gabriel Jesus": Cauã Aguiar, que está no Corinthians. Outros destaques apontados por ele são: Wallace Ruan (Palmeiras), Gabriel Mateus (Corinthians), Caio (Audax), Luan Nunes (Audax), Rodrigo Sabão (Atlético de Cajazeira-PB) e Peu (Atlético de Cajazeira-PB). 

Diego lembra que colocou Gabriel Jesus para jogar em campeonatos de adultos, mas teve que deslocá-lo para a lateral direita, pois atuar entre zagueiros adultos podia ser perigoso para um adolescente tão ousado. Porém, isso não escondeu o talento de Gabriel, que partia para o ataque mesmo assim: "teve uma vez lá no campo que eu falei: 'Gabriel, joga com mais seriedade'. Quando acabei de falar, ele deu um chapéu no camisa 10 dos caras. Na sequência fez um lindo cruzamento, e nosso atacante acabou fazendo gol", lembrou Diego. 

gabriel jesus tatuagemReprodução/ The Sun
Gabriel já comemorou gols apontando para tatuagem (Foto: Reprodução/ The Sun)

Quando chegou a hora de tentar virar profissional, Gabriel quase ficou no São Paulo e no Corinthians, mas teve problemas diferentes que o atrapalharam. Então partiu para o Anhanguera, clube no qual aprendeu importantes lições para virar profissional e foi encaminhado ao Palmeiras. Rapidamente se destacou no time Sub-17 e começou a empreitada para virar ídolo do Verdão.  

Mas mesmo depois da fama, ele não esqueceu do Jardim Peri. Gabriel costuma citar o bairro em entrevistas, tem uma tatuagem em homenagem ao local e fazia visitas frequentes enquanto ainda estava em São Paulo. Ele via os amigos, visitava os vizinhos, inclusive o senhor Ismael, e ia para o Bar da Gi para virar "formiguinha" novamente. Giselle lembra: "uma vez perguntei se ele podia comer essas coisas, se faz dieta. Ele: 'Gi, aqui eu posso tudo. Eu quero comer bolacha Trakinas, beber refri, viver uma vida normal". Em Manchester, porém, ele não pode nada disso. Guardiola já censurou até o refrigerante do atacante.

Pouco antes de partir para Manchester, Jesus ganhou uma última festa no Jardim Peri. Sem presença de imprensa nem torcedores, ele voltou a ser criança: jogou futebol na rua, tocou samba com amigos e teve contato com tantas pessoas que o viram crescer. Acabada a festa, Gabriel Jesus teve que sair do Jardim Peri. Mas fica evidente que o Jardim Peri não vai sair de Gabriel Jesus. 

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