Flamengo e Abel Braga: os pontos a favor (e contra) o técnico

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Alexandre Vidal / Flamengo
Apesar do título carioca e classificação na Libertadores, o técnico segue muito pressionado; e dá para entender os motivos

A semana do Flamengo começou com protestos, manifestados em pichações nos muros do CT Ninho do Urubu e da sede da Gávea, após a derrota por 2 a 1 para o Atlético-MG. Os principais alvos da ira rubro-negra foram o vice-presidente de relações externas, Luiz Eduardo Batista (o BAP), e o técnico Abel Braga. A última motivação para o descontentamento em relação à temporada foi o resultado de sábado (18) contra o Galo, pela quinta rodada do Brasileirão, em jogo fora de casa no qual os cariocas atuaram 45 minutos com um jogador a mais no gramado do estádio Independência.

Segundo apuração da repórter Raisa Simplício para a Goal Brasil, os dirigentes que comandam o Rubro-Negro acreditam que as pichações tiveram cunho político. De qualquer forma, não tem como negar que o trabalho de Abel Braga tem sido muito contestado desde que o técnico assumiu a equipe nesta temporada 2019.  Mesmo levando em consideração não apenas o título carioca, conquistado sem muita dificuldade, mas também a classificação para as oitavas de final da Libertadores e o fato de ter o terceiro melhor aproveitamento (66.7%) na temporada – inferior apenas aos de Palmeiras, Cruzeiro e Goiás.

Abel Braga não vive uma situação nova, afinal de contas, a cultura que impera no futebol brasileiro não costuma ser paciente com os treinadores. E no clube com a maior torcida do país, a pressão é proporcional ao tamanho da massa que segue o Rubro-Negro Brasil afora. O próprio Abel sentiu isso em 2004, em sua primeira passagem pela Gávea. Levando em consideração cinco fatores listados nesta matéria, importantes para dar segurança ao trabalho de um técnico, o carioca nascido em 1952 cumpre apenas com um. Curiosamente, o mais importante de todos. Mas a ausência nos demais explica um pouco sobre como a situação de Abelão no Fla é assunto constante entre torcedores, nas redes sociais e canais de TV.

Resultados, o trunfo de Abel

Flamengo comemora título da Taça Rio 2019 após superar o VascoJogadores homenageiam Abel durante a conquista estadual (Foto: Marcelo Cortes/Flamengo)

Apesar de ter uma equipe que constantemente sofre gols, o Flamengo de Abel entra em campo ciente do poderio de seu ataque: foram 53 tentos em 29 duelos, média de 1.83 por jogo. Soma 17 vitórias, se colocando no Top 3 das equipes que mais venceram nesta temporada.

Clubes Aproveitamento em 2019 Jogos Vitórias
Palmeiras 72.8% 27 17
Cruzeiro 71.4% 28 18
Goiás 70.7% 25 17
Flamengo 66.7% 29 17
Inter 66.7% 28 17

O principal trunfo do trabalho feito até aqui está no resultado bruto: o Flamengo cumpriu com a obrigação de conquistar o estadual e, apesar dos sustos, garantiu classificação para as oitavas de final da Libertadores da América. Os dois primeiros objetivos da temporada foram atingidos. E não há argumento mais forte para se manter um trabalho no Brasil do que o fator resultado.

Desempenho, onde as críticas fazem sentido

Abel Braga Vasco Flamengo Carioca 09032019(Foto: Alexandre Vidal/CR Flamengo)

Só que o Flamengo não joga um futebol agradável com a constância que se espera de um dos elencos mais ricos e com boas opções. A impressão é que os resultados chegaram muito mais pelo brilho individual, um lampejo ou uma jogada, do que pela estrutura da equipe em si.

Expectativas na altura dos investimentos

Gabigol Arrascaeta apresentação torcida Flamengo 20012019Gabigol e Arrascaeta, dois dos principais reforços para 2019 (Foto:Alexandre Vidal/CR Flamengo)

Esta avaliação é validada por todo o investimento feito em contratações para 2019: o Flamengo contratou nomes de destaque no cenário nacional, como Bruno Henrique, Gabigol (por empréstimo) e Giorgian De Arrascaeta, que deixou o Cruzeiro para chegar ao Rio de Janeiro com o carimbo de maior contratação na história do Rubro-Negro. Tendo à sua disposição alguns dos maiores atletas do futebol jogador por aqui, esperava-se uma equipe que não encontrasse tanta dificuldade para vencer e, acima de tudo, jogasse o futebol ofensivo entranhado no DNA do clube. O Flamengo de Abel é pragmático.

Identificação baixa com a torcida

Abel Braga Fluminense Portuguesa-RJ Carioca Taca Guanabara 24012018(Foto: Lucas Merçon/Fluminense/Divulgação)

Além disso, falta identificação entre técnico e torcida. Até mesmo por causa da passagem anterior do comandante pela Gávea, em 2004, marcada pelo vice na Copa do Brasil com derrota histórica na decisão realizada contra o Santo André. Declarações feitas por Abel Braga, dizendo que o estádio Beira-Rio, por exemplo, é mais bonito do que o Maracanã não lhe ajudaram (o técnico também tem história vitoriosa no Internacional), assim como dizer que algumas derrotas são "resultado normal".

Redes sociais

Um dos outros pontos, presentes quase a cada vez em que o Flamengo entrou em campo nesta temporada, são as manifestações de torcedores na internet. A hashtag “#ForaAbel” quase se tornou um clássico em dias de jogos do Rubro-Negro, e a insatisfação dos internautas chegou a um ponto de pedirem a demissão de Renato Gaúcho no Grêmio só para o verem no Fla. A questão é que os pedidos são mais presentes na grande rede do que dentro dos estádios, onde geralmente o torcedor tem ido para apoiar quase que irrestritamente a equipe – sem ecoar tanto a campanha que surgiu nas redes sociais.

Os antecessores de Abelão

Dorival Junior Flamengo 2018 apresentacao 29092018(Foto: Flamengo/Divulgação)

Evidente que ser treinador do Flamengo não deve ser tarefa fácil. Raramente o comandante teve muita tranquilidade para fazer o seu trabalho. E em diferentes momentos poucos deles dominaram os cinco pontos aqui listados. Zé Ricardo e Barbieri, por exemplo, foram alçados em meio a baixas expectativas iniciais. Caíram quando elas aumentaram e os resultados positivos diminuíram. Dorival Júnior, em sua última passagem, também chegou com baixa expectativa e fez um trabalho bom o bastante para que muitos quisessem a sua permanência. Em determinado momento, todos eles tiveram um período de calmaria em que contavam com admiração dos torcedores. Isso ainda não aconteceu com o atual treinador.

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Talvez os últimos dois comandantes que contaram com uma boa vontade maior do torcedor tenham sido Muricy Ramalho e Reinaldo Rueda, que chegaram com o respaldo do currículo mas não completaram, por razões diferentes, o projeto que havia sido desenhado (o primeiro teve que se aposentar por razões de saúde e mal contabilizou jogos, o segundo optou por deixar o clube após o final da temporada 2017). Abel também tem currículo. E hoje tem os resultados, mas o desempenho do time em 2019 não garante que eles serão tão constantes quanto o investimento e a expectativa.

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