Exclusivo: porradas e bebedeiras de Hazard, "japonês safado" e as histórias de Túlio de Melo

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GOAL Enviado Especial

Chapecó - SC


Camisa 10 e um dos principais nomes da Chapecoense em seu ano de reconstrução, Túlio de Melo tem uma relação especial com o Verdão do Oeste.

O atacante, autor do gol que garantiu a Chape na Série A do Campeonato Brasileiro em 2018, já tinha defendido a equipe do Oeste de Santa Catarina em 2015 e conhecia boa parte das vítimas da tragédia em 29 de novembro de 2016. Depois de passar a última temporada no Sport, ele retornou ao clube do Sul do Brasil em 2017 para ajudar na reconstrução após receber um emocionante convite de Neto.

Túlio de Melo participou da grande campanha da Chapecoense na Copa Sul-americana em 2015, quando o time foi eliminado apenas pelo gigante River Plate, que teve muito trabalho para passar pelo Verdão. Aquela façanha precedeu o ainda mais extraordinário feito de 2016, interrompido de forma trágica antes da decisão contra o Atlético Nacional. Já neste ano, ele voltou para brilhar não só no Brasileirão, mas ser importante também no Campeonato Catarinense, conquistado pela Chape.

Em seu ano de reconstrução, o clube encerra a temporada 2017 como 2016: campeão estadual e garantido na elite nacional do ano seguinte. O feito é incrível, assim como a ligação de Túlio de Melo com a Chapecoense.

(Foto: Sirli Freitas/Divulgação/Chapecoense)

No entanto, antes de defender e fazer história na Chape, o atacante rodou o mundo e se destacou na Europa. No Velho Continente, ele acumulou resenhas, conheceu jogadores que hoje são mundialmente reconhecidos, como Eden Hazard, e viveu grandes momentos, principalmente na França.

O INÍCIO

Revelado pelo Atlético-MG, Túlio de Melo, com apenas 19 anos, deixou o Galo depois de oito temporadas nas categorias de base rumo ao AaB, da Dinamarca. "Esse time tinha uma parceria com o Atlético na época e me levaram para fazer testes lá. Fui aprovado e contratado. Chegar na Dinamarca já era um sonho. Jogar na Europa era o meu grande sonho desde o início. Mas é claro que a Dinamarca não era o meu objetivo, porque a liga não é grande e tradicional, e eu queria chegar em uma das grandes ligas europeias", conta o atacante, em entrevista exclusiva à Goal Brasil.

"Depois, quando tive a chance de ir para a França jogar no Le Mans, fiquei muito feliz. Fui muito feliz lá, joguei três anos e até hoje sou o maior artilheiro da história do clube na Ligue 1", celebra.

Quando um jovem jogador vai jogar em outro país, ele costuma levar um certo tempo para mostrar seu melhor futebol. A adaptação, afinal, não é fácil com tantas mudanças: língua, clima, alimentação, cultura, estilo de jogo e várias outras questões. No entanto, Túlio de Melo não viveu grandes dificuldades na França, e atribui seu rápido bom rendimento na terra de Zinedine Zidane aos apertos vividos antes na Dinamarca.

(Foto: Getty Images)

"Toda a minha adaptação foi na Dinamarca, com um clima muito mais rigoroso. Passei tudo que tinha que passar de perrengue na Dinamarca. Então, quando cheguei na França, foi muito mais fácil. Eu não sabia nada da língua quando cheguei lá, mas com três meses eu já sabia francês. A língua é muito mais fácil e parecida com o português do que na Dinamarca (risos). Quanto ao futebol, não tive muito problema para me acostumar. A ida para a Dinamarca foi uma preparação muito boa para minha sequência na Europa", diz.

RESENHAS NO LE MANS

A primeira experiência do atacante na França foi no Le Mans, em 2005. Ele fez parte de uma boa equipe, que tinha ótimos jogadores como o atacante Gervinho, o volante Romaric e o talentoso meia japonês Daisuke Matsui. Como não poderia ser diferente, não faltam histórias sobre a passagem de três anos pelo clube.

"Eu joguei com o Gervinho, o Romaric e o Stéphane Sessègnon no Le Mans, entre outros ótimos jogadores. O Matsui, japonesinho que era muito bom de bola também... A safra da minha época foi sensacional, todo mundo deu certo. Quando eu saí do Le Mans, tinha jogador no Sevilla, no PSG, na Inglaterra... Eu joguei também com o Grafite, que depois arrebentou no Wolfsburg e jogou na Seleção", relembra.

"Eu lembro de várias histórias, principalmente com o Matsui, que era muito gente boa e foi um grande amigo que eu fiz por lá. Ele era uma peça rara. Normalmente, as pessoas acham que japonês é todo certinho, né? Nada! Pelo menos o Matsui não era (risos). Nunca vi um japonês safado que nem ele, sem vergonha (risos)", brinca.

"Eu e o Matsui fomos fazer aula de francês. O Matsui não falava nada de francês nem de inglês e a professora falava um inglês bem ruim. Então, imagina só, ninguém falava nada direito e para se comunicar era duro. E todo dia a gente tinha dever de casa. Era engraçado porque o Matsui todo dia chegava com o dever bem feito, certinho, mas na aula ele não falava nada, e eu ficava sem entender como ele conseguia", lembra.

"Depois de algum tempo, uns três, quatro meses, com todo mundo falando francês, eu descobri a verdade. Eu conheci uma menina na cidade, que era do clube, e ela me perguntou se eu conhecia o Matsui. Eu disse que sim e ela me contou que ela que fazia o dever de casa dele, e o safado falava que ele quem fazia (risos)", se diverte.

"Já dentro de campo, ele era impressionante. Jogava demais e era muito habilidoso. Mas ele precisava de um treinador como o Rudi García, que passava a mão na cabeça e elogiava. Ele precisa de um treinador que cuide dele, dê muita atenção para ele e carinho. Quando chegou um cara que brigava, dava dura, ele murchou e não conseguia render mais. Ele precisava de carinho", explica.

MELHOR FASE

Após os três anos no Le Mans, Túlio de Melo jogou uma temporada no Palermo e voltou ao futebol francês para defender o Lille. Foram cinco temporadas de muito sucesso no clube, com os títulos da Ligue 1 e da Coupe de France em 2010/11. No clube, o atacante acompanhou o surgimento e crescimento de um dos melhores jogadores do mundo na atualidade: Eden Hazard.

(Foto: Getty Images)

"Eu vi o Hazard subir para o profissional e a gente fez muita brincadeira com ele, por ele ser mais jovem. A gente sempre mandava ele pegar as bolas, os cones e o material do treino e carregar. A gente também pedia pra ele pegar a chuteira, e ele tinha que ir. A gente fazia na brincadeira quando ele subiu. Ele era um menino muito bom, mas meio debochado", conta.

"Ele sabia que era bom, mas às vezes a gente pegava ele no campo e dava umas porradas nele pra ele saber que ainda não mandava em nada e precisava ficar na dele e ir crescendo e aprendendo. Mas ele se tornou um grande amigo e chegamos até a viajar juntos. Ele é o jogador que mais me impressionou na minha carreira, principalmente no Lille. E isso por puro dom. Ele não fazia nada para ser forte e veloz como era. Não fazia musculação nem nada. Ele nasceu com o dom, a força e o talento, porque ele não fazia nada para ser como era", exalta.

"Em vários jogos ele pegava a bola, arrancava do meio-campo driblando o time adversário inteiro e marcava o gol. Era impressionante. Eu lembro de vários golaços dele, chutes de muito longe também. Não tem um gol ou um lance específico dele que tenha me impressionado mais, todos eram muito impressionantes", elogia.

No entanto, além do talento dentro de campo e da parceria vitoriosa no Lille, Túlio de Melo também coleciona boas histórias de Hazard fora das quatro linhas, e ele contou a sua favorita.

"Já tínhamos sido campeões franceses com duas rodadas de antecedência, e lá na França é bem normal os jogadores e o treinador saírem para beber em algum bar após as vitórias. Sempre que a gente ganhava, rolava isso. Alguns passavam do ponto, bebiam demais e ficavam bêbados (risos)."

"Eles acreditam que sair após os jogos fortalece o grupo, porque cria uma relação especial que não se constrói dentro de campo. Nós fizemos isso durante todo o ano em que fomos campeões. E após sermos campeões, a gente saía praticamente todos os dias (risos). Não tinha concentração, chegávamos na hora do jogo, e mesmo assim ganhamos os últimos dois jogos", completa.

 

Festival de cannes / tapis rouge/tapete vemelho

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"Além do Hazard, muita gente estava alterada e tinha bebido além da conta, mas a gente jogou pra caramba, ganhou os últimos dois jogos e foi impressionante como a gente estava bem e muito confiante (risos). O Hazard jogou muito naqueles jogos também, como já tinha jogado durante o ano inteiro", conclui.

Depois do sucesso no Lille, Túlio de Melo defendeu o Evian e rumou para a Espanha afim de jogar pelo Valladolid, antes de voltar ao Brasil para fazer história na Chapecoense. "Fiquei 11 temporadas na Europa. Ganhei a Ligue 1, a Copa da França e joguei a Champions League. Foi um sonho realizado", finaliza o atacante.