Quando você participa de quatro Jogos Olímpicos, acaba tendo muitas histórias para contar.
A mais incrível que Rosana, duas vezes medalhista de prata pela seleção brasileira (em 112 jogos), conta, porém, é de como ela nem deveria ter participado pela quarta vez do torneio.
"No último amistoso, eu machuquei minha mão. Era uma semana antes de Londres, 2012, e os médicos disseram que eu teria que ser cortada do elenco," relembra em uma entrevista exclusiva concedida à Goal.
"Eu sentei com ele, e falei, 'doutor, olha, eu estou trabalhando a quatro anos para jogar essa Olimpíadas. Se coloque no meu lugar. É minha mão, né, não é o meu pé, não é o meu tornozelo. Nós conseguimos fazer alguma coisa, sabe? Me dê uma chance."
"Ele disse, 'Eu sei que você merece essa oportunidade, vamos tentar fazer alguma coisa. Mas você precisa fazer a cirurgia amanhã."
"Foi difícil, mas eu tive muita força de vontade, e em menos de dez dias após a cirurgia, eu já estava jogando. Eu perdi os dois primeiros se recuperando, mas consegui jogar na terceira partida. Entrei em campo e me dediquei. Tive que usar uma proteção na minha mão, mas entrei em campo e joguei bem.
A recuperação foi tão milagrosa que o médico pediu para o caso de Rosana ser estudado - e foi um caso tão especial que a sua experiência em Londres foi completamente diferente do que aconteceu em suas outras tres participações.
Sua perseverança valeu a pena também. Além de ter competido no mais alto nível do esporte mundial novamente, Rosana passou tempo com alguns de seus ídolos no futebol: Marcelo, do Real Madrid, e Ronaldinho, que já havia conhecido em seus primeiros Jogos Olímpicos, em Sydney, em 2000.
"Naquela época, encontrar caras assim e passar tempo com eles foi fantástico," ela conta.
"Pouco tempo depois, Ronaldinho me convidou para jogar em uma partidada comemorativa que ele estava organizando, então eu também tive o privilégio de jogar com ele. Eu não só pude contar quanto o admirava, mas também joguei com ele no mesmo time."
Quando a dupla se conheceu, a 21 anos atrás, Rosana simplesmente estava surpresa de ter sido convocada para viajar para a Austrália, e viver a experiência do que é "o ápice para qualquer atleta."
"Eu fiquei sabendo antes da lista ter sido anunciada," ela relembra a memória do que foi sua segunda convocação para a seleção principal como se fosse ontem.
"Eu vi o estafe preparando as malas e os uniformes e achei meu nome em uma delas. Saí correndo pelo corredor, rindo, gritando, comemorando - aí cheguei no meu quarto e liguei para os meus pais."
O Brasil terminaria na quarta posição naquele ano, assim como em 1996. Após mostrar ter um time promissor em ambos os torneios, finalmente chegaram ao ápice na Grécia, em 2004.
GettyA seleção também tinha uma nova estrela, uma menina de 18 anos chamada Marta. Hoje, conhecida como a maior jogadora de todos os tempos.
"As pessoas de fora ainda não sabiam quem era ela," relembra Rosana. "No dia-a-dia, nós treinávamos com ela, víamos ela jogar e... nossa. Sabíamos que seria uma jogadora extraordinária."
"Ela se mostrou para o mundo, todos só falavam dela depois do primeiro jogo contra a Austrália. Ela jogou muito, mostrou que seria fantástica no futuro."
Com talento, potencial e muita experiência, o Brasil chegou até a final, onde enfrentou a seleção americana. E o título poderia ter ficado para qualquer uma das equipes.
"Nós sofremos um pênalti que acreditamos até hoje que deveria ter sido marcado." explica. "Naquela época, era prorrogação e gol de ouro. Se tivéssemos marcado o gol de pênalti, teríamos ficado com o ouro."
Os Estados Unidos, então, marcaram cinco minutos depois e ficaram com a glória eterna.
Mesmo assim, os jogos de 2004 seguem sendo os favoritos de Rosana "simplesmente pela pouca expectativa que todos tinham" pelo Brasil. "A gente sabia do que éramos capazes." justifica. "Ninguém acredita que poderíamos ganhar uma medalha."
"O engraçado é que depois dos jogos, até algumas americanas acreditavam que nós merecíamos o ouro, pelo nosso estilo de jogo, entusiasmo e força de vontade."
A experiência de fazer parte do pódio nunca será esquecida por Rosana e o resto daquele time. Todas, inclusive, seguem mantendo contato até os dias de hoje.
"Nós estávamos de mãos dadas, e quando levantamos as mãos, nos demos conta do esforço, do suor, da força e de tudo que nós fizemos para chegar ali, mesmo sem ter o investimento que merecíamos." pontua.
Em 2007, na Copa do Mundo Fifa, e em 2008, nos Jogos Olímpicos de Pequim, o Brasil terminou também com a medalha de prata, perdendo na final para a Alemanha e os Estados Unidos, respectivamente.
Com um time contando com Rosana, Marta, Formiga - a jogadora de 43 anos que está indo para a sua sétima Olimpíada -, Cristiane, Pretinha, Daniela e muito mais, "é triste pensar no que poderia ter sido", admite Rosana.
"Eu tenho certeza que aquela geração foi a melhor da história do Brasil até hoje." opina. "Se tivéssemos o investimo de hoje, poderíamos ter ganho uma medalha de ouro ou um título da Copa do Mundo. É algo desapontante."
"No Brasil, o futebol feminino teve que se provar para que o investimento começasse a chegar. Teria que ser o contrário, como acontece em outros países. Infelizmente, no Brasil, não funciona assim."
