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Gabriel Jesus - Pequeninos do Meio Ambiente - 26/04/2017

Parabéns, Gabriel Jesus: A história do garoto que começou a brilhar no campo de terra de um presídio militar pelo Pequeninos do Meio Ambiente


REPORTAGEM ESPECIAL


Gabriel Jesus completou nesta terça-feira (03), 21 anos. Mesmo com a pouca idade, a vida do atacante do Manchester City e da Selçeão Brasileira já deu várias voltas. Confira, como começou a trajetória do próximo camisa 9 canarinho, na Copa do Mundo da Rússia.

O garoto tinha oito anos quando apareceu com um par de chuteiras debaixo do braço no campo do presídio militar Romão Gomes, no bairro do Tremembé, zona norte de São Paulo, pedindo para jogar pelo Pequeninos do Meio Ambiente, equipe de futebol amador criada para os filhos de um grupo de adultos nos anos 90.

Bastou um treino para que José Francisco Mamede, seu primeiro treinador, percebesse que o garoto tinha um talento especial com a bola nos pés. Tudo, porém, só se tornou realidade graças a sua dedicação nos treinos e nos jogos.

“O Gabriel chegou aqui como chegam todas as crianças. Com a chuteira debaixo do braço e pedindo uma oportunidade para jogar. Lógico que quando ele chegou já treinou, fez gol, deu chapéu... Desde o começo a gente via que ele era uma criança diferenciada das demais. O começo do Gabriel aqui foi muito gostoso e legal”, afirmou Mamede em entrevista à Goal Brasil.

Gabriel Jesus - Pequeninos do Meio Ambiente - 26/04/2017Arquivo pessoal
(Foto: Arquivo pessoal)

“Costumo dizer que o Gabriel Jesus tem uma estrela muito grande e com certeza vai longe. Isso tudo que está acontecendo com ele eu já esperava. Trabalho com crianças há quase 30 anos e vou falar uma coisa pra vocês: tive jogadores melhores que o Gabriel aqui, mas eram preguiçosos, não queriam saber de nada e hoje estão trabalhando em outra coisa. A gente puxa um alongamento ou algo físico e às vezes tem um menino que fica como o último da fila dando migué e eu falo: ‘filho, você não está me enganando, você está engando você mesmo’. O Gabriel era o primeiro da fila, nunca faltou num treino, jogo... Foi um garoto de ouro”, acrescentou.

A tranquilidade exibida por Gabriel Jesus na frente do gol, inclusive, fez com que rapidamente ele se tornasse o camisa 9, ganhasse a braçadeira de capitão e recebesse o apelido de Tetinha.

“O Gabriel chegava pra mim quando o jogo estava cinco a zero e falava: ‘Pô Mamede, mas já está cinco. Esse time é uma teta, uma tetinha’. Aí ficou Gabriel Tetinha porque ele achava muito fácil os adversários”, explicou Mamede, que destaca que o campo de terra batida utilizado até hoje pelo Pequeninos do Meio Ambiente ajudou na formação do atacante.

Gabriel Jesus - Pequeninos do Meio Ambiente - 26/04/2017
(Foto: Arquivo pessoal)

“No campo de terra o menino tem que ter muita esperteza. Antes de a bola chegar, ele tem que saber que ela pode quicar. Isso desenvolve nele uma capacidade que quando ele chega no campo sintético ou no gramado fica fácil. Tanto é que os profissionais treinam no areião de vez em quando. Acho importante eles fazerem esse treinamento, porque com certeza lá na frente será muito melhor pra eles. Isso tudo a gente vê pelo Gabriel Jesus”, ressaltou.

Em 2012, aos 14 anos, Gabriel Jesus estourou a idade da categoria 'Dentão' e precisou parar de jogar no Pequeninos do Meio Ambiente. Mamede lembra da conversa que teve com o camisa 9 na ocasião e ainda aproveita para dizer que tem certeza de que em alguns anos o atacante do Manchester City e da Seleção Brasileira conquistará o prêmio de melhor jogador do mundo.

“A nossa última conversa foi numa festa de confraternização quando ele tinha 13 anos e ganhou um troféu lindo do campeonato. Nós falamos: ‘Gabriel, temos certeza de que você será um jogador profissional. É só continuar da mesma forma, com o mesmo respeito que você tem com os adversários e a mesma educação’. Depois de um ano que ele já estava no Palmeiras, eu disse: ‘Gabriel, presta bem atenção no que vou te falar. Você vai ser profissional no Palmeiras, vai para a Seleção Brasileira e para Europa’. Ultimamente tudo que eu falei deu certo e agora está faltando uma coisa que vou falar. O Gabriel daqui a três ou quatro anos ele vai ser Bola de Ouro. Tenho certeza disso. Podem anotar o que estou falando”, declarou o treinador, que relembrou a visita do atacante ao local para doar chuteiras antes de se transferir do Palmeiras para o Manchester City.

José Francisco Mamede - Pequeninos do Meio Ambiente - 18/03/2017
(Foto: Rodrigo Hoschett/Goal Brasil)

“Nesse dia foi interessante, porque o Gabriel me ligou e disse que queria doar chuteiras para molecada. Ele deu 250 pares de chuteira. O Gabriel está muito forte na mídia, então para essas crianças é um incentivo. Ele mesmo falou naquele dia que quando ele era criança sentiu a falta desse profissional para fazer o que ele fez para as crianças. Por isso que ele fez questão de vir entregar as chuteiras para as crianças. Achei fora de série, muito bom e legal da parte dele... Muita gente pergunta quanto nós ganhamos por causa dele e fico até um pouco chateado. Não ganhamos nada e nem quero, o que a gente gostaria e está acontecendo mais agora é o reconhecimento dele ao Pequeninos. Isso é muito gratificante”, relata Mamede, que sempre recorda com carinho da vez em que colocou 11 crianças num Fusca que usa até hoje para poder ir para um jogo.

“Esse fusca é a própria história do Pequeninos do Meio Ambiente... Eu brinco muito com as crianças e adoro quando elas vão dentro do meu Fusca. Tenho uma brincadeira que eu desço numa ladeira, ponho em ponto morto e ao invés de pisar no freio eu piso na embreagem dizendo que o freio acabou, então é uma farra. Pergunta pra todo mundo, se o cara vem com um carro novo, eles preferem ir no Fusca porque eles sabem que vão se divertir”, conta.

Mamede, que também é um dos fundadores do Pequeninos do Meio Ambiente, se emociona ao falar do trabalho dele e de toda a diretoria, cita as dificuldades enfrentadas no dia a dia e faz questão de lembrar de outros jogadores que também começaram no campo do presídio e de futuros garotos com potencial para se tornarem profissionais.

“Costumo falar que como diretor de esportes e um dos fundadores do clube ganhei mês passado R$ 55 mil, o presidente R$ 150 mil... Não é a realidade. A gente sempre coloca dinheiro do bolso e precisamos de mais parceiros. Temos o lanche que o supermercado dá pra gente. Tem criança que vem aqui não para jogar, mas só para comer o pão com mortadela porque está com fome. O trabalho que a gente faz aqui para tirar as crianças da rua é tudo na base do carinho. Gostaria de pedir para que as pessoas viessem olhar o nosso trabalho, que merece uma ajuda de um patrocinador”, afirmou.

Pequeninos do Meio Ambiente - 18/03/2017
(Foto: Rodrigo Hoschett/Goal Brasil)

“Isso aqui pra mim é a saída das drogas das crianças. Não existe outra situação que vai tirar seu filho das drogas, porque ele vai ficar com a cabeça voltada para o futebol e Deus. Não podemos esquecer de uma boa religião. Não importa qual, mas tem que ter uma se não ele acaba fazendo besteira... Não posso falar muito que começo a chorar, porque sou muito emotivo. Tinha um menino que jogava com a gente que entrou de gaiato num carro e quando ele viu os amigos estavam assaltando uma pizzaria, ele levou um tiro na cabeça e morreu. André, um garoto que saiu daqui. Tem o Fernando, filho de um amigo da gente, que fui no enterro dele. O menino tinha 15 anos. Não é só o lado bom da coisa, tem o lado ruim também. Por isso que falo que a gente tem que fazer mais com amor a coisa”, recorda, emocionado.

“Muitas pessoas não sabem que não revelamos só o Gabriel (Jesus). O Gabriel Xavier, que joga no Vitória, saiu daqui, o Douglas, que foi campeão brasileiro com o Santos em 2002, e o Matheus Pereira, que foi pra Juventus, também saíram daqui... De futuros jogadores, temos um menino no Palmeiras que por incrível que pareça chama Gabriel também. Ele está fazendo testes, está indo muito bem e espero que ele seja mais um profissional”, finalizou.

Pequeninos do Meio Ambiente - 18/03/2017Rodrigo Hoschett/Goal Brasil
(Foto: Rodrigo Hoschett/Goal Brasil)
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