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Tite treino seleção brasileira Brasil Lucas Figueiredo/CBF

Escalação da seleção brasileira parece mero detalhe, e talvez seja

A dúvida que Tite levou do Rio de Janeiro para Doha, com escala em Turim, é tão mínima quanto o tempo de preparação para a atual Copa do Mundo, de caber no bolso de fora da mala de mão. A seleção brasileira estreia depois de dez dias reunida com pelo menos duas formações bem definidas, e, ainda que exista uma ansiedade para finalmente ver que time entrará em campo no fechamento da primeira rodada, não se trata de um debate que faça alguém se descabelar.

Tite, quatro linhas à parte, tranquilizou o entorno da equipe nacional. Resultado de sua maturidade, da profissionalização do ambiente de trabalho e dos mais de seis anos no cargo. A comissão dá expediente no escritório e divulga os jogos que irá assistir, troca ideias públicas sobre convocados e preteridos. Subiu a régua para o sucessor apesar de um único porém, o nepotismo na figura de um filho em cargo tão importante e visado.

O maior ruído dos últimos dias, sendo até exagerado no uso da palavra, surgiu quando Richarlison chamou de "babaca" um crítico de Neymar, em uma história que mal se ouvia falar e se esvaziou em meio à maratona de jogos. Em segundo lugar, um zoom numa foto de um bote de Daniel Alves em Pedro, chegada atrasada trivial que não demandou nem um "gelol". A falta de assunto é tanta que Tite foi perguntado na entrevista de véspera o que acha de jogadores preparando dancinhas na comemoração.

Não há nem sinal das bravatas de Zagallo em toda reta final do ciclo para a França, das batalhas travadas com ironia por Luiz Felipe Scolari fechando o grupo para a Ásia, da farra de Weggis antes de chegar na Alemanha, da grosseria de Dunga, da convocação ufanista para o Mundial em casa. Não há uma grande ausência, uma forte injustiça, nem alguém que pareça destoar do resto do grupo. O convocado mais polêmico, um lateral-direito reserva, campeão de tudo, importante no ciclo e que joga numa posição carente, nem aos microfones foi. Um sossego só.

Com três jogos em nove dias e com quinze substituições a serem realizadas durante a primeira fase, cravar um time titular se torna ainda menos determinante. Até porque não é a escolha entre Vinicius Junior ou um meio-campista a mais (Paquetá/Fred) de início que se mostra o ponto fundamental para o Brasil impor seu jogo contra a Sérvia. Cada escalação tem suas aproximações e espaços, tem suas vantagens e desvantagens para o entorno, tem seus caminhos possíveis para vencer o jogo.

Ao que parece, essas formas todas vão se revezar, por circunstância e tempo de campo, somando ainda a possibilidade de jogar sem um camisa 9. De Casemiro para frente são tantos jogadores, tantas combinações possíveis, que o onze da súmula está parecendo mero protocolo, listagem apenas de momento.

Para além dessa conversa principal sobre o time, meus dois tostões individuais, de gente que espero ver se confirmar na Copa. Bruno Guimarães pode ser o segundo homem de meio que o futebol brasileiro buscava, precisa jogar, o torneio dele é esse, está no ponto; e Rodrygo, ainda que seja o reserva de Neymar, tem bola e cabeça para virar o furacão do time, a estrela que pede passagem porque precisa de poucos minutos para mostrar seu impacto. Elevaria o jovem do Real Madrid a um papel de 12º jogador, maior do que consta hoje.

A preparação do Brasil para a Copa do Mundo pareceu ótima, principalmente porque teve tempo de ajeitar a rota depois da pobre Copa América perdida em casa. É o melhor time possível nesses anos todos. Porém essa história termina às quatro da tarde desta quinta-feira, quando começa uma disputa de três semanas e meia que se resolve por si só e ofusca tudo que veio antes. Faz parte.

Thiago Silva foi escolhido como capitão da seleção. É mais uma referência técnica e um exemplo no vestiário do que exatamente um líder que se projeta, compra as brigas e usa a voz em campo. A essa altura, também não faz grande diferença, não havia concorrentes muito diferentes. Neymar deveria usar a faixa se ela não lhe fizesse tão mal, mas um holofote a mais é tudo que ele não precisa. No fim, ele nunca teve essa figura por perto, o que Dunga foi para Romário. Talvez Daniel Alves é quem tenha ficado mais próximo.

A Espanha é a maravilha da Copa até aqui, porque apesar da fragilidade da Costa Rica, que parecia um quadro qualquer de veteranos visitando os melhores jovens do mundo (na realidade foi quase isso), empilhou chances e gols com uma facilidade chocante de seu protagonismo coletivo. Essa sensação de que Luis Enrique tem o time nas mãos e todos jogam no mesmo tom chega a ser um pouco assustadora para o que vemos no futebol de seleções. Sobrar é uma coisa, fazer sete e não deixar o rival tocar na bola, é outra.

A Alemanha chegou a fazer, até ali, o melhor primeiro tempo da Copa do Mundo. Foi muito vistoso o controle de Kimmich e Gundogan, a passagem de Raum na esquerda, a forma com que Musiala procurou jogo. Mas o Japão competiu e contrastou na meia hora final. Os reservas de Moriyasu levaram o time para frente e decidiram, os de Flick não mantiveram o nível. O maior jogo do Qatar foi um sonho japonês para antecipar o mata-mata aos alemães.

O Canadá preencheu todos os itens de sensação da Copa. Aquele azarão clássico, retornando depois de trocentos anos, atrás do primeiro gol da história, jogando para a frente, com coragem, leve, mesmo diante de um respeitável elenco europeu. Parou no melhor goleiro do mundo e naquelas coisas do futebol: cria, ataca, desperdiça e perde. Errou um pênalti, imperdoável, e teve outro sonegado pela pior arbitragem do torneio, que assinalou um impedimento em passe da própria defesa. A Bélgica, enquanto time, é a decepção até aqui, jogou ainda pior que os derrotados argentinos e alemães, distante, lenta. Competiu mal, mas Courtois é um goleiro craque que ganha jogos.

O Brasil entra em campo sabendo todas as inspirações possíveis da Sérvia. Assustar como a Austrália, amassar como o Canadá, suportar e espetar na hora certa como Arábia Saudita e Japão. Sabemos que não será Irã, muito menos Costa Rica. Tecnicamente, pode ser o melhor jogo da primeira volta.

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