Por Kirillos Daoud
Um gigante que a mídia internacional apresenta como uma criança rebelde que destrói tudo o que toca; retratam-no em momentos espontâneos e naturais como se fosse uma criança de tamanho grande que não joga futebol, mas sim um monstro cuja presença representa um perigo para quem está ao seu redor.
Um jovem no auge da vida, que ainda não completou a primeira metade de sua terceira década, que quebrou todos os padrões internacionais de estrela estabelecidos pelo atual sistema do futebol, que esmagou muitos talentos e os sobrecarregou com cálculos muito além do futebol, chegando até a se sobrepor à ideia de nacionalismo e pertencimento, de modo que o jogador deixou de ser propriedade de seu clube ou de sua seleção nacional para se tornar propriedade de empresas de publicidade e apostas cujos orçamentos ultrapassam os de alguns países pequenos.
Um jogador capaz, em sua primeira temporada como profissional no Borussia Dortmund, de marcar 62 gols em 76 partidas — uma média de gols impressionante —, o que chamou a atenção dos grandes clubes internacionais, e que agora joga por um deles: o Manchester City.
Haaland não se apresentou como uma das estrelas mundiais perseguidas pelos holofotes, exploradas pelos criadores de conteúdo e acompanhadas por agências de publicidade inteiras, mas sim como um dos novos talentos do mundo do futebol, reforçando essa ideia ao declarar abertamente sua nacionalidade e sua ligação com seus ancestrais escandinavos, os “vikings” Embora essa declaração incomode alguns vizinhos daquela região, pois ela carrega uma longa história de conflitos.
Eles queriam um monstro domesticado, sem opinião própria nem lealdade, e cuja única lealdade fosse ao sistema que administra o futebol mundial, para que ele agisse conforme os caprichos deles, esquecendo suas origens, sua paixão e tudo o mais — lembrando-se apenas deles e de suas ordens. Mas esse maravilhoso garoto escandinavo recusou-se a aparecer sob aqueles holofotes ofuscantes e brilhantes, e sua humanidade pura recusou-se a pertencer a isso, declarando-o abertamente na Copa do Mundo de 2026: “Eu e meus companheiros viemos aqui para que o mundo saiba que ainda há homens no futebol a quem nada mais importa além de elevar o nome de seu país.”
E, a cada partida e após cada vitória, ele lembra à torcida, com a famosa dança dos “vikings”, na qual o capitão da equipe e seu companheiro “Odegaard” o tambor, ao ritmo do qual os jogadores e a torcida da seleção da Noruega comemoram, em uma mensagem clara: “Eu não sou a estrela que vocês esperam, ó vocês que se importam com isso; pois, quando se trata do ‘Valhalla’, não me falem de ego, e eu cedo voluntariamente a braçadeira de capitão ao meu amigo de equipe.”
E o Valhalla, caro leitor, é uma antiga lenda escandinava que consiste em um conselho no qual somente os heróis — “apenas os heróis” — têm a honra de se sentar; aqui não se leva em conta o estrelato, nem os holofotes, nem as agências de publicidade... Apenas a grandeza que permite que você se sente nesse conselho.
Erling Haaland tornou-se, de fato, um grito humanitário contra o sistema futebolístico mundial, que queria transformá-lo em parte do conteúdo e do espetáculo de entretenimento vulgar que apresenta às custas do verdadeiro prazer do futebol, o esporte mais popular do mundo.
Desejo do fundo do coração que “Haaland” e seus companheiros conquistem a Copa do Mundo nesta edição, já que estão prestes a alcançar essa vitória, que isso seja um grito contra esses sistemas corruptos que estragaram tudo no mundo do futebol e o transformaram em um espetáculo de entretenimento vulgar, no qual o conteúdo prevalece sobre a competição esportiva e os nomes das estrelas prevalecem em detrimento de tudo, até mesmo em detrimento de suas nacionalidades e identidades.
E que “Haaland” saiba que se tornou o herói daqueles de quem ninguém mais se lembra, não por ser um talento excepcional no mundo do futebol, mas por ter apresentado a eles a imagem da estrela que existe em sua imaginação, e não apenas um monstro criado pelos produtores de conteúdo das empresas de marketing que controlam até mesmo a relação do jogador com sua família e sua torcida, impedindo-o até mesmo de usar seu próprio rosto, pois este se tornou propriedade exclusiva das empresas comerciais.


