O futebol para Elias parou antes mesmo da pandemia do novo coronavírus. Sem clube desde que deixou o Atlético-MG, com quem tinha contrato apenas até o fim de 2019, o experiente volante tem treinado sozinho desde o início de 2020 à espera da "melhor opção" para mostrar que ainda tem lenha para queimar.
O tempo afastado dos gramados também tem servido para o ídolo de Corinthians e Flamengo (sim, também do Flamengo, segundo palavras do próprio) refletir não somente sobre a longa e vitoriosa carreira, mas, acima de tudo, a vida.
Sem inimigos e muito menos mágoas, Elias, que está perto de completar 35 anos, reconhece com muita naturalidade que "tudo é marcante, não apenas as glórias" e que "é preciso sempre fazer por merecer". É isso, aliás, que tenta passar diariamente aos filhos... e ao mundo da bola.
Quanto tempo você acha que o futebol vai precisar para superar toda a crise mundial causada pelo novo coronavírus? Julga que o futebol nunca mais vai ser o mesmo?
O mundo já viveu outras crises, guerras, pandemias, e acabou superando. Acho que vamos superar mais essa. Mas a gente também precisa tirar lições, tentar melhorar as nossas vidas e o nosso relacionamento com o próximo. Ser mais tolerante, ter mais respeito. Espero crescer com tudo isso, temos, de fato, que amadurecer e rever alguns pontos. Melhorar. Na vida precisamos melhorar sempre. Procuro fazer sempre isso, crescer e evoluir. O Brasil está passando por uma crise política, agora também com uma crise sanitária, então a gente espera que, depois disso tudo, o Brasil volte a unir-se novamente para superarmos as outras crises. Um país desunido não é capaz de crescer. Nós, brasileiros, precisamos ter uma vida melhor e digna, com mais respeito ao próximo. É preciso tolerância.
Em algum momento da vida e/ou carreira, desejou não ser você mesmo? Por quê?
Como você mesmo falou, são momentos. Acho que isso não é o que diz a minha vida... mas em alguns momentos sim, acho que faltou motivação. Isso faz com que você perca o foco das coisas. Às vezes perdemos o foco, precisamos então dar uma tropeçada e tomar um chacoalhão para voltarmos aos trilhos.
Quais são as suas grandes glórias e histórias que mais têm orgulho de contar aos seus filhos?
Tudo na vida marca, não apenas as glórias. As derrotas também marcam. Tento passar isso para eles [filhos], que a vida não é feita apenas de vitórias. A vida também é feita de derrotas. Quando perdemos, precisamos levantar a cabeça e voltarmos aos trilhos. Conto para eles sobre os meus grandes jogos, os títulos... fico todo bobo quando eles estão na internet assistindo aos meus vídeos. Isso, particularmente, é muito bom para o meu ego, ter os meus filhos como fãs. Mas também conto para eles sobre as minhas derrotas, quando fiquei parado, quando fiquei desempregado, como é o caso de agora, visto que estou sem clube. É preciso reforçar que a vida não é mil maravilhas.
Seguramente, você tem muito mais amigos no futebol, mas acha que chegou a criar inimigos?
Olha, não sei se tenho inimigo. Ninguém nunca chegou e falou para mim que era meu inimigo, mas, com certeza, a gente acaba por conviver com pessoas que não gostam de você. Sempre respeitei e procurei tratar bem todas as pessoas. Isso vem de berço, fui educado assim e também educo os meus filhos desta maneira. Mas ninguém ainda declarou-se meu inimigo no futebol [risos].
Está sem clube desde o início do ano, perto de completar 35 anos... O que ainda vislumbra na carreira? O que ambiciona?
Já apareceram algumas coisas, estou pensando na melhor opção. Sempre falei: ainda tenho muita lenha para queimar. Focado, treinando forte e num clube minimamente organizado, vou conseguir render. Posso não render o que rendia quando era jogador da seleção brasileira, do Corinthians, do Flamengo, mas ainda tenho um pouco para oferecer ao futebol. Posso voltar a ser competitivo e ajudar o meu futuro clube. Mas o que estou a viver hoje não é o momento mais difícil da minha carreira. Fiquei um ano parado num momento crítico, quando saio da base e vou para o profissional [do Palmeiras]. Não consegui espaço, fui mandado embora e fiquei desempregado. Se tivesse desistido, ali poderia ter jogado no lixo dez anos de base. Já passei por isso [desemprego], sei muito bem o que é preciso fazer para voltar. A oportunidade vai aparecer, então tenho que estar preparado. Venho treinando e condicionando-me para, quando voltar o futebol, estar preparado.
Houve algum tipo de problema ou desrespeito na forma como o Atlético-MG lidou com a sua saída?
Não tem como falar em desrespeito do Atlético, até porque o meu contrato acabou. Havia a opção de renovação, mas o clube não quis renovar comigo depois de um certo tempo. A princípio, eu poderia ter renovado, isso em meados de setembro [de 2019]. A gente estava negociando, mas eu não quis. Depois, o Atlético também não deu sequência na negociação. Não guardo mágoa. O que tinha de falar do Atlético, já falei, e falei para eles. Seria covardia da minha parte falar algo agora sobre alguma eventual insatisfação. Vida que segue. É preciso respeitar os torcedores, as pessoas que gostaram da minha passagem pelo Galo... e também aceitar as críticas de quem acha que deixei a desejar. Agora é trabalhar para agradar ainda mais pessoas no meu próximo clube.
Atlético de Madrid e Sporting: o que faltou para você ter tido uma história mais marcante na Europa? Existem arrependimentos?
A passagem pelo Atlético de Madrid foi rápida, procurei fazer o meu melhor nas poucas oportunidades que tive. Todo jogador que deixa o Brasil a caminho da Europa precisa de um período de adaptação, ainda mais naquela época que não havia redes sociais, a internet não era como é agora, onde podemos acompanhar vários jogos e arrumar um jeito de adaptar-se mais rápido. Quando adaptei-me, acabei saindo. Fui depois vendido para o Sporting, até porque não tinha passaporte europeu. O meu único arrependimento no Atlético do Madrid... quando fui negociado, fui negociado em definitivo, não tinha tanto a noção das coisas, poderia ter saído por empréstimo e depois voltado. Poderia ter voltado com mais experiência de futebol europeu. Mas, enfim, isso já passou. Fui feliz no pouco tempo que estive lá, sou muito grato ao clube, onde fui campeão da Liga Europa [2011/12]. Coloco isso no meu currículo, até porque iniciei a competição e até fiz gols [risos].
Quando cheguei ao futebol português, o Sporting estava mudando a diretoria. Godinho Lopes estava entrando, contratou vários jogadores e trouxe o Domingos Paciência como treinador. Montamos uma equipe forte e iniciamos muito bem a temporada, sobretudo os primeiros quatro meses de campeonato. A gente tinha tudo para terminar o ano bem, mas chegou em dezembro e as coisas desandaram um pouco. A diretoria perdeu um pouco o rumo, demitiu o treinador e a equipe então começou a cair na tabela. Perdemos a Taça de Portugal e, quando virou o ano, a crise política aumentou, com atrasos de salários, entre outras coisas, e o Godinho saiu. Isso atrapalha, influencia dentro de campo. Por causa dos salários atrasados, pedi para sair e voltar para o Brasil.
Sou muito grato ao Sporting, mesmo com todas as coisas que tive com o Bruno de Carvalho [novo presidente], pelo fato de querer ficar no Flamengo. Gostei muito de ter jogado no clube, Portugal foi um país muito bom para viver, o meu filho mais velho nasceu em Portugal, então temos uma história que vou levar para toda a minha vida. Assim como no Atlético de Madrid, não tenho nenhuma mágoa do Sporting. Ainda tive uma terceira passagem pelo Sporting, mas fiquei pouco tempo. Eu, particularmente, queria ter sido campeão, até porque foi o único clube onde não fui campeão. Não tive esse gostinho.
Ídolo do Corinthians, destaque no Flamengo e no Atlético Mineiro: costuma parar para pensar que fez história em três grandes clubes de estados diferentes? Tem a noção disso? É para poucos...
Jogar no Corinthians, jogar no Flamengo e jogar no Atlético, são os clubes de massa no nosso país. Pude jogar nos três, pude ser campeão nos três. Como você bem disse, considero-me um ídolo do Corinthians... e também considero-me ídolo do Flamengo, mesmo tendo jogado pouco tempo lá. Ser ídolo, ser reconhecido, nenhum dinheiro no mundo paga isso. As pessoas no Rio de Janeiro idolatram-me, agradecem, perguntam sobre os meus filhos. Noção? Noção a gente nunca tem. A gente, quando está dentro do futebol, acaba não tendo muito a noção das coisas. A gente mexe com emoções, com milhões de pessoas. Dependendo do que fazemos dentro de campo, às vezes deixamos a semana do torcedor mais leve ou mais pesada. Não é nada fácil ter a noção disso. Somente quando nós pararmos é que vamos ter a noção: caramba, o que fiz é realmente para poucos, então preciso ter muito orgulho da minha carreira.
Até onde acha que chegaria – e o que conquistaria – se tivesse ficado mais tempo no Flamengo? Às vezes pensa nisso?
Olha, não dá para saber até onde chegaria se tivesse ficado mais tempo no Flamengo. O que o flamenguista precisa saber é: gostaria de ter continuado. Briguei para isso, a minha família toda brigou, a gente tentou voltar, mas era uma situação que não dependia da gente, dependia de terceiros. Entre Flamengo e Elias, estava tudo acertado, com um contrato longo. Queria ter ficado, e a diretoria [do Flamengo] sabe muito bem disso. A outra parte, que era o Sporting, ainda presidido pelo Bruno de Carvalho, acabou melando e dificultando as coisas ao máximo.
Não consegui regressar ao Flamengo. Não tenho noção da onde poderíamos ter chegado, talvez poderia estar até hoje no Flamengo, um clube que atualmente vive um momento mágico. Poderia ter continuado e participado dessas conquistas todas, ter colocado de vez o meu nome na história do clube. Mas acho que coloquei o meu nome na mesma, o ano [2013] que tive também foi mágico, foi muito especial, um dos melhores da minha carreira. Vai ficar para sempre aquele gostinho de querer ter voltado e retribuído todo o carinho que recebi.

Elias jogou duas vezes no Timão: 2008 a 2010 e 2014 a 2016 (Foto: Divulgação)
O que seria do Elias se não tivesse existido a passagem – principalmente a primeira – pelo Corinthians?
O Corinthians projetou-me para o futebol. Passei por outros clubes, sou grato a todos, o próprio Palmeiras, onde fiz toda a minha formação. O São Bento, o Juventus, onde fui campeão pela primeira vez, a Ponte Preta, que projetou-me para o cenário nacional... e o Corinthians é aquele marco. Foi o ponto de passagem para que pudesse alcançar aquilo que sempre sonhei: ser reconhecido, conquistar grandes títulos, jogar na seleção brasileira, ir para Europa e ter a minha independência financeira. Devo tudo isso ao Corinthians, foi o primeiro grande clube que contratou-me. Cheguei num momento difícil, uma Série B do Brasileirão, e pude ajudar no acesso à elite.
Depois, com a chegada do Ronaldo, atingimos voos que jamais vou alcançar outra vez. Foi um momento muito especial, jogar ao lado de um ídolo e uma pessoa fantástica. Ele colocou todo mundo para cima, colocou todo mundo em outro patamar, essa é a realidade. Sou eternamente grato ao clube que torço, sempre torci e vou continuar torcendo. Fico feliz de ter tornado-me ídolo do Corinthians e ter sido campeão. Se não for agora, jogando ainda, provavelmente quando parar, até porque pretendo seguir no futebol, vou voltar ao Corinthinas para continuar o meu trabalho.
Peço que descreva a você próprio, Elias, no papel de um torcedor fanático do Corinthians...
É difícil descrever um Elias fanático, até porque sei o que acontece nos bastidores, dentro de campo, o que faz um time ganhar ou perder. São vários os fatores que influenciam no resultado. Já não posso falar que sou fanático, porque o fanatismo tira um pouco a razão, faz pensar apenas com a emoção. Hoje vejo mais o futebol com a razão, percebo o que os clubes fazem para merecer as vitórias ou as derrotas, com ações dentro e fora de campo. Dito isso, torço sempre para o Corinthians, quero que o clube esteja sempre brigando por títulos. Sou corintiano. Mas tem que fazer por merecer. Repito: hoje vejo o futebol mais com a razão, deixo a emoção um pouco de lado.
