Brasil x Alemanha: Repórteres da Goal relembram 7 a 1

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Canarinhos voltam a enfrentar alemães, nesta terça (27), em Berlim, em duelo com cara de revanche

Brasil e Alemanha se enfrentam nesta terça-feira (27), em Berlim, num amistoso com cara  'revanche'. A trágica goleada, de 7 a 1, sofrida pela Seleção na Copa do Mundo de 2014, está longe de ser esquecida. Os gols de Muller, Klose, Khedira, Kroos e Schürrle estão eternizados na memória do torcedor brasileiro como a pior derrota do selecionado nos seus 100 anos de história.

Os repórteres da Goal relembram o fatídico dia. E você, lembra o sentimento que teve? Recorda o que estava fazendo e onde estava naquele 8 de julho de 2014?

Veja as lembranças dos jornalistas da Goal:

Felipe Torres - Editor-chefe Goal Brasil


Felipe Torres no Mineirão durante a cobertura do Mundial / Créditos: Arquivo pessoal

"Fiquei sem reação. Cobri a Seleção durante a Copa do Mundo. Foram 45 dias ao lado dos canarinhos, seja em jogos ou em Teresópolis. Aquele 8 de julho, era uma data especial, um momento especial para mim. Sou mineiro, de Belo Horizonte, e trabalhava para um jornal local. Nunca imaginei reportar um duelo de semifinal de Copa do Mundo, no Mineirão. Ainda mais um Brasil x Alemanha. Achava que a Seleção ia perder. Até comentei com um amigo no ônibus da imprensa, que nos levava ao estádio: "Se for eliminado, que o Brasil não perca de muito". O jogo começou, os gols alemães aconteciam, um após o outro. Ao meu lado, na tribuna, jornalistas não acreditavam naquilo. Foi surreal. Meu chefe estava na cadeira ao lado. Virei para ele e disse: "Não sei como escrever este texto. Pela primeira vez na minha carreira, não tenho palavras para contar o que estou presenciando". Ele me disse: "Esse deve ser o relato do seu primeiro parágrafo". A zona mista foi um caos! Nunca sofri muito com a Seleção, sempre fui apaixonado pelo meu clube. Portanto, não doeu tanto. Mas feriu nossa honra, perdemos respeito perante ao planeta. Hoje, posso contar que vivenciei um momento histórico naquela tarde/noite, no Mineirão. Eu vi os 7 a 1!".

Tauan Ambrosio - Repórter

"Na época, estávamos fazendo uma cobertura específica para cada seleção aqui na Goal. Eu fiquei responsável pelos times do Grupo G, e até por isso acompanhei bastante a Seleção Alemã ao longo do torneio. Foi apenas após o jogo contra a Argélia que o time engrenou de vez, mas enfrentar o Brasil em casa seria difícil. Mesmo sem o Neymar – era o que todos pensávamos.

Quando o primeiro tempo terminou já com goleada, foi um choque. O resultado já era histórico, mas não dava para imaginar que o segundo tempo seguiria na mesma toada. E dentre o jogo histórico, o vexame histórico... ainda teve o Klose quebrando o recorde de gols marcados em todas as edições de Mundiais. Era muita informação para a coluna que eu tinha que escrever após o apito final, mas na verdade era impossível não ficar atônito com tudo aquilo.

A Seleção que virou o pesadelo dos brasileiros / Foto: Getty Images
 

Todos nós sabíamos que tinha um clima de ‘oba-oba’, que faltava padrão de jogo na Seleção... mas o meu foco tinha que ser em cima do time alemão. E escrever elogiando o algoz do maior vexame que o nosso futebol já deu (dentro de uma partida) não foi difícil. Apesar dos 7 a 1, no fim das contas minha sensação pessoal foi positiva: por fazer parte da cobertura realizada e por ter testemunhado um acontecimento que receberia um capítulo próprio em um eventual livro sobre a história do futebol no mundo."

Matheus Harb - Subeditor da Goal

"Eu também acompanhava o nosso trabalho no site naquele fatídico dia 8, já tendo encerrado a cobertura do Mundial em Porto Alegre. Tive a chance de acompanhar a saga alemã para vencer a Argélia na prorrogação, e tinha ficado pouco impressionado com o que vi. Acredito que isso, aliado ao afã nacionalista que tomou parte da população, me fez acreditar em uma vitória apertada, e a classificação à tão sonhada final.

Durou alguns minutos, até que o desequilíbrio emocional da Seleção desse as caras e deixasse o Müller sozinho pra abrir o placar. Ali eu lembro de já pensar: "complicou". Depois, com o gol do Klose, já era diferente: "se for pra levar assim, que vire goleada de uma  vez". A partir daí, tudo era motivo de deboche e graça, apesar de, em parte, pensar "não acredito que isso esteja mesmo acontecendo"

Foi uma surra muito necessária pra entender a dimensão do buraco negro que o futebol brasileiro se tornou, pelo menos, desde a década passada. Como jornalista, então, ficou uma lição ainda maior. Não é à toa que o bordão do "7 a 1 foi pouco" apareça a cada demonstração de retrocessos no futebol daqui, e nos desmandos da Dona CBF (não a Lúcia, vejam bem)."
 

Rodrigo Calvozzo - Subeditor da Goal

"Durante a Copa do Mundo recebi a missão de cobrir as equipes do Grupo A, onde estava a Seleção Brasileira. Desde o início da competição o time de Felipão não havia convencido, porém após superar dois adversários do próprio continente e por estar jogando ao lado da torcida, era até possível acreditar que as coisas dessem uma engrenada. Porém a traumática saída de Neymar, caiu como uma bomba e bastou ver as feições angustiadas dos jogadores durante a execução do Hino Nacional para que eu achasse que as coisas não estavam normais. É claro que jamais imaginaria quem fosse ocorrer um atropelamento como requintes de crueldade como aquele, mas bastou a bola rolar para notar que nada daria certo naquela partida.

Ainda no primeiro tempo já sabia que meu colega Tauan Ambrósio seria o responsável pelo texto analítico da partida, já que ele era o responsável pelos times do Grupo da Alemanha e já ali não tinha dúvida de que o sonho do título em casa tido ido por água abaixo. Como gosto da tese "se te derem limões, faça uma limonada", decidi acompanhar cada lance através das redes sociais, que passaram a ser uma tremenda fonte de memes e brincadeiras hilariantes, típicas dos brasileiros que adoram rir dos seus próprios dramas. 

A surra foi inesquecível e deveria ter servido pelo menos para que tentássemos recolocar o nosso futebol na linha. Porém, ao que tudo indica, esse foi o primeiro de muitos "7x1" que levaremos, pois a coisa anda feia para a nossa Seleção e ainda temos a soberba de achar que não precisamos aprender nada com os nossos adversários."

Cássio Santestevan - Colaborador

"Foi surpreendente. Eu estava no plantão, no site, desde mais cedo, acompanhei a preparação para o jogo. Esperava vitória alemã, mas não do jeito que foi. A partida, na minha análise, foi resultado de escolhas técnicas e táticas ruins, abatimento dos jogadores brasileiros pela ausência de Neymar, e de um grande jogo alemão. Foi uma lição dentro de campo, mas não mais que isso. Sem Felipão e sua teimosia, não tomaríamos nem três. Em outro cenário, até uma vitória seria possível. A Argélia quase eliminou a Alemanha no mesmo torneio.

Falar sobre as gozações depois, do "7 a 1 fora de campo" sobre a falta de planejamento, é complicado. Penso que o time precisa de reformulação, mas sou pessimista em relação a isso. Tirando o que acontece em algumas seleções europeias, como a Alemanha, não vejo esses projetos em que se pensa anos à frente acontecendo em nenhum país sul-americano. Adoraria que estivesse errado, que até o calendário e as condições de jogo mudassem por aqui, mas o que cobramos da CBF, da seleção nacional, não acontece também com os nossos vizinhos.

A Argentina foi finalista do Mundial e embora o time tivesse mais qualidade técnica e estivesse melhor montado taticamente, nos bastidores, a AFA é igual à CBF e à Commebol. Não houve um longo planejamento em volta de Messi e cia, mas pelo menos, se apostou as fichas nos homens certos no comando. A diferença entre perdedores e vencedores, nas disputas entre seleções principalmente, onde não há o trabalho diário, algo reservado aos clubes, acaba se definindo pela qualidade superior de alguns jogadores e técnicos."

Gabriel Pazini - Repórter

"Assim como o editor Felipe Torres, sou mineiro, de Belo Horizonte, e trabalhava em um outro jornal local. O futebol é delicioso porque proporciona algumas surpresas incríveis e histórias que parecem inacreditáveis, mas nunca tinha visto algo como aquilo que ocorreu no dia 8 de julho de 2014. Cobrir a Copa do Mundo em seu país é um sonho para qualquer jornalista, curiosamente, até mais do que cobrir em outro território, já que a chance é menor, pois é difícil presenciar dois Mundiais em sua terra. 

Apesar de crescer vendo o Brasil finalista em três Copas seguidas e ganhando duas, além de ver o puro talento da Seleção pré-2006 que depois decepcionou, curiosamente na Alemanha, nunca fui fã e torci pelo Brasil. Sempre fui apaixonado pelo meu time, mas nunca tive a mesma ligação com o time da CBF.

Nos dias e horas antes da partida, eu era tido como o realista chato da redação. O clima, apesar da ausência do Neymar e do futebol nada convincente da Seleção, era de alegria e esperança na vitória. Eu era dos poucos que em textos analíticos e programas na webtv afirmava que o Brasil não venceria e não tinha nem de perto time para bater de frente com a Alemanha, que era muito, muito superior técnica e taticamente, coletiva e individualmente. 


Jogadores brasileiros sofrem com a goleada sofrida / Foto: Getty Images

Foi surreal, mas uma porrada que o futebol brasileiro precisava tomar. Pena que de nada adiantou por enquanto. A arrogância de achar que ainda somos os melhores, algo que faz tempo que não somos, continua, assim como as incontáveis escolhas erradas fora de campo. Deixando os cartolas e a corrupção de lado, a mentalidade e cultura do futebol de resultado, a formação de técnicos e as categorias de base entregues aos empresários, que priorizam acordos ao invés do talento - basta ver os milhares de garotos que não conseguem espaço aqui e estouram na Europa - precisam mudar urgentemente, mas parece que o 7 a 1 não foi suficiente para essas pessoas. Realmente, o 7 a 1 foi pouco."

Fernando H. Ahuvia - Repórter

"Antes mesmo de o Brasil fazer a sua estreia na Copa do Mundo já tinha a nítida sensação de que o hexa não seria conquistado. Adquiri esse sentimento durante o tempo em que estive cobrindo pela Goal a preparação da equipe comandada por Felipão na Granja Comary. Um verdadeiro circo do futebol foi montado, com prioridade para determinadas emissoras de televisão e jornalistas. Isso sem falar do clima de oba-oba entre os jogadores e da lamentável declaração do coordenador técnico Parreira, que disse que a Seleção já estava com uma mão na taça.

Apesar de sempre ter sido mais apaixonado pelo meu clube, nunca deixei de torcer pelo time canarinho. E foi justamente esse meu lado que me fez acreditar no impossível. Acompanhei a sofrida vitória dos comandados de Joachim Löw sobre a Argélia, nas oitavas de final, em um reduto alemão, em São Paulo, para fazer uma matéria para o portal e deixei o local com a sensação de que o Brasil poderia conseguir surpreender.

Felrnando H. Ahuvia na Granja Comary durante a cobertura do Mundial / Foto: Arquivo pessoal

Estava totalmente enganado. No fatídico 7 a 1, estava na Vila Madalena (bairro boêmio da cidade de São Paulo). A grande maioria das pessoas que ali estavam sabiam que o jogo seria difícil, ainda mais sem Neymar em campo. No entanto, ninguém poderia imaginar que o Brasil seria atropelado. A reação das pessoas foram as mais diversas. Muitos voltaram pra casa antes mesmo do fim do primeiro tempo. Os que ficaram não acreditavam no que estavam vendo. Alguns xingavam, outros choravam e tinha também aqueles que riam de tamanha desgraça.

O resultado corrobora com a opinião minha e da grande maioria das pessoas de que o futebol brasileiro passa por uma profunda crise nos últimos anos. Fica difícil imaginar dias melhores com as mesmas pessoas no comando do esporte mais popular do nosso país."

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