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Thomas Tuchel England GFXGetty/GOAL

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Tuchel destrói e reconstrói... Como a Inglaterra se livrou do legado de Southgate?

Há muitos anos, a seleção da Inglaterra vem buscando a combinação ideal entre resultados convincentes e um futebol atraente. Embora Gareth Southgate tenha conseguido trazer a seleção de volta à vanguarda do futebol mundial e levá-la a fases avançadas em grandes torneios, a chegada de Thomas Tuchel ao cargo de técnico trouxe consigo ideias totalmente diferentes sobre como alcançar o sucesso.

A partida de estreia da Inglaterra na Copa do Mundo de 2026, contra a Croácia, que terminou com uma vitória emocionante por 4 a 2, deu aos torcedores um vislumbre claro das características dessa transformação. A Inglaterra pareceu mais ousada, mais direta e mais disposta a arriscar em comparação com a equipe que os torcedores estavam acostumados a ver durante os anos de Southgate.

Embora o julgamento definitivo de qualquer projeto técnico esteja ligado aos títulos e resultados conquistados, a comparação entre os treinadores revela diferenças fundamentais na filosofia de jogo, na forma de selecionar os jogadores e nas estratégias para lidar com partidas importantes, segundo informou a “BBC”.

  • England HIC 2-1GOAL

    O jogador em primeiro lugar ou o sistema em primeiro lugar?

    Talvez a principal diferença entre os treinadores seja o ponto de partida na formação da equipe. Durante a gestão de Southgate, o foco estava, na maioria das vezes, em aproveitar os melhores talentos disponíveis na seleção. Mesmo quando isso exigia escalar alguns jogadores em posições ou funções que não representavam o melhor deles, o técnico inglês preferia encontrar um lugar para as estrelas no elenco.

    No Campeonato Europeu de 2024, por exemplo, vimos Phil Foden atuando como ponta esquerda, Cole Palmer em posições avançadas entre as linhas e Trent Alexander-Arnold no meio-campo, embora essas funções nem sempre fossem as que melhor se adequavam às suas características naturais.

    Já Tuchel seguiu o caminho exatamente oposto. O técnico alemão começou definindo o esquema tático que desejava e, em seguida, escolheu os jogadores capazes de executar suas funções com precisão, independentemente de seus nomes ou da repercussão na mídia. Por isso, não hesitou em deixar de fora nomes de destaque como Foden, Palmer e Alexander-Arnold da lista para a Copa do Mundo, preferindo jogadores que considera mais adequados ao seu sistema.

    Morgan Rogers é um dos exemplos mais notáveis disso. Sua escolha não se baseou na fama ou no valor de mercado, mas sim em sua capacidade de cumprir as exigências táticas que Tuchel espera de um jogador na posição número 10.

    Essa diferença revela duas filosofias totalmente distintas: a primeira se baseia em adaptar o sistema para atender às estrelas, e a segunda se baseia na escolha de jogadores para atender ao sistema.

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  • FBL-EURO-2024-MATCH51-ESP-ENGAFP

    A liberdade individual diante da disciplina coletiva

    Durante a era Southgate, havia uma maior margem de liberdade individual em campo. O técnico inglês acreditava que os grandes jogadores eram capazes de encontrar soluções nos momentos mais complicados das partidas e, por isso, concedia-lhes ampla liberdade para tomar decisões de acordo com as circunstâncias.

    Essa abordagem gerou momentos inesquecíveis, como o gol espetacular de Jude Bellingham com um chute de tesoura contra a Eslováquia na Euro 2024, ou algumas jogadas individuais que fizeram a diferença em partidas difíceis.

    Por outro lado, a versão de Tuchel parece mais dependente do trabalho coletivo organizado. As jogadas ofensivas não são deixadas à improvisação, mas sim preparadas com antecedência por meio de movimentos e esquemas de jogo repetidos, que os jogadores treinam constantemente.

    É verdade que esse estilo pode diminuir a dependência da criatividade individual, mas confere à equipe maior coesão e clareza na execução das tarefas.

    E embora a seleção atual possa carecer de algumas habilidades excepcionais que jogadores como Foden ou Palmer possuem, Tuchel aposta que a força do coletivo terá mais impacto do que o talento individual.

  • FBL-WC-2026-MATCH22-ENG-CROAFP

    Acelerar o ritmo de jogo... A essência do projeto de Tuchel

    Um dos conceitos fundamentais do projeto de Tuchel consiste em aumentar a velocidade do jogo no meio-campo. Nos últimos anos, as equipes tornaram-se mais organizadas defensivamente, e ficou mais difícil romper os blocos defensivos coesos por meio de passes lentos e posse de bola prolongada.

    Por isso, a comissão técnica da Inglaterra busca superar esse problema movimentando a bola com mais rapidez na zona entre o terço defensivo e o terço ofensivo. Isso ficou evidente durante o confronto contra a Croácia.

    Embora o goleiro Jordan Pickford tenha tocado na bola dezenas de vezes durante a construção do jogo a partir da defesa, o objetivo não era apenas manter a posse de bola, mas atrair o adversário para áreas mais avançadas e, então, explorar os espaços deixados por ele.

    Assim que a Croácia conseguia avançar, a Inglaterra se deslocava rapidamente para as áreas ofensivas, aproveitando os movimentos diretos dos atacantes e das pontas. Essa mudança de ritmo representa uma das principais diferenças em relação ao estilo de Southgate.

  • England v Switzerland: Quarter-Final - UEFA EURO 2024Getty Images Sport

    Como Southgate organizava os ataques?

    Southgate adotou, por longos períodos, um estilo mais calmo e paciente. A seleção inglesa avançava com a bola gradualmente por meio de uma série de passes curtos, mantendo a coesão entre as linhas.

    O objetivo era chegar ao último terço do campo com o máximo de controle possível antes de tentar romper as defesas compactas. Essa abordagem teve muito sucesso contra seleções que preferiam recuar e defender em profundidade.

    No entanto, com a evolução constante do futebol moderno, algumas seleções começaram a encontrar soluções mais eficazes para enfrentar esse tipo de construção lenta. Os blocos defensivos tornaram-se mais ousados, e as situações de pressão alta organizada aumentaram.

    Nessas circunstâncias, a Inglaterra enfrentou, por vezes, dificuldades para criar oportunidades, especialmente quando os jogadores não conseguiram encontrar soluções individuais para romper a organização defensiva do adversário.

  • England v Croatia: Group L - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Soluções prontas em vez de improvisação

    Uma das principais características da filosofia de Tuchel é que os problemas táticos devem ser resolvidos com antecedência. Em vez de esperar por um momento de criatividade individual, o técnico alemão se dedica a preparar uma série de cenários e jogadas que ajudem a equipe a superar as diversas pressões durante a partida.

    Contra a Croácia, surgiram várias jogadas cuidadosamente planejadas. Declan Rice se deslocava, às vezes, para o lado esquerdo, enquanto Harry Kane recuava para o meio de campo para participar da construção das jogadas, ao mesmo tempo em que Jude Bellingham avançava em direção à última linha defensiva.

    Essas jogadas não eram aleatórias, mas sim parte de um sistema integrado que visava neutralizar a pressão do adversário e criar novos espaços para o ataque. Assim que essas jogadas davam certo, passes longos ou verticais rápidos levavam a equipe diretamente para as áreas de perigo.

    Já na era de Southgate, os jogadores tinham mais liberdade para encontrar suas próprias soluções durante a partida. Isso conferiu à seleção flexibilidade e criatividade em alguns momentos, mas também a tornou mais vulnerável a tropeços diante de times altamente organizados.

  • FBL-EURO-2024-MATCH51-ESP-ENGAFP

    A ousadia diante do realismo

    O estilo de cada técnico reflete, em grande medida, sua personalidade. Southgate era, por natureza, um técnico pragmático. Ele se concentrava em minimizar erros e riscos e buscava manter o equilíbrio em todas as fases do jogo.

    Por isso, suas seleções não eram das mais ousadas no ataque, mas, por outro lado, raramente perdiam o controle das partidas.

    Essa abordagem ajudou a Inglaterra a alcançar resultados notáveis e a chegar a duas finais europeias, mas também foi alvo de críticas por excesso de cautela, especialmente quando a equipe estava na frente no placar e recuava para manter a vantagem, em vez de buscar gols adicionais.

    Já Tuchel parece mais disposto a arriscar. Ele aceita a ideia de conceder algumas oportunidades ao adversário se isso aumentar a periculosidade ofensiva de sua equipe. Além disso, suas substituições costumam manter o mesmo ritmo ofensivo, em vez de recorrer a opções defensivas quando a equipe está na frente.

    Durante o confronto contra a Croácia, essa tendência ficou clara. A seleção inglesa pareceu mais aberta defensivamente em comparação com as equipes de Southgate, mas, ao mesmo tempo, demonstrou maior capacidade de criar oportunidades e chegar ao gol.

  • England FIFA World Cup 2026 Squad AnnouncementGetty Images Sport

    Será que Tuchel levará a Inglaterra à glória?

    Ainda é cedo para fazer julgamentos definitivos sobre o projeto de Tuchel, mas os primeiros indícios confirmam que a seleção inglesa está passando por uma verdadeira fase de transformação.

    A Inglaterra passou de uma filosofia baseada na paciência, no realismo e na aposta na qualidade individual dos jogadores para uma filosofia fundamentada na organização coletiva, em soluções táticas pré-definidas e em um jogo direto e rápido.

    Cada escola tem suas vantagens e desvantagens, e cada técnico tem sua maneira própria de buscar o sucesso. Southgate proporcionou estabilidade à Inglaterra e a trouxe de volta à disputa por títulos, enquanto Tuchel agora tenta conferir à seleção uma identidade mais ousada e ambiciosa.

    E a grande questão que os próximos jogos do campeonato responderão é: será que essa ousadia será a chave para transformar a Inglaterra de um mero adversário forte em campeã mundial?