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Fluminense v Flamengo - Brasileirao 2024Getty Images Sport

Tite e Botafogo precisam um do outro para voltar ao patamar dos títulos grandes

O Botafogo anunciou a contratação de Tite até dezembro de 2028. Aos 64 anos, o treinador retorna ao trabalho após seis meses como agente livre, período que sucedeu sua passagem pelo Cruzeiro, encerrada em março, e chega para comandar a equipe justamente na reta final da temporada. Ele inicia os trabalhos com o elenco nesta quinta-feira (17) e deve estar à beira do gramado já no sábado (19), contra o Mirassol, pela 28ª rodada do Brasileirão, um teste imediato para uma equipe que vive longe de seus melhores dias.

Na atual temporada, a situação do Glorioso é delicada. Eliminado ainda em março na fase preliminar da Libertadores, pelo Barcelona de Guayaquil, o time carioca também caiu na Copa Sul-Americana, goleado pelo Cienciano por 6 a 2 nas oitavas, e não foi longe na Copa do Brasil, eliminado pela Chapecoense, também nas oitavas. No Brasileirão, o cenário não é de rebaixamento, mas assusta: o Botafogo ocupa a 14ª posição, com apenas quatro pontos de vantagem sobre o Z4, e vem de seis jogos sem vencer, sequência que ligou o alerta na diretoria antes mesmo de o campeonato entrar na reta decisiva.

A chegada de Tite nasce justamente para conter esse cenário. Mas, por mais respeitado e decorado que seja seu currículo, como um ex-comandante da seleção brasileira em duas Copas do Mundo e dono de 16 títulos ao longo da carreira, já faz alguns anos que ele não apresenta um trabalho realmente vitorioso. Por isso, essa passagem pelo Rio de Janeiro tende a funcionar como uma prova dupla: tanto para o próprio treinador quanto para o clube, de o quanto ele ainda é capaz de comandar uma equipe grande no futebol brasileiro.

  • Flamengo v Cruzeiro - Brasileirao 2026Getty Images Sport

    Um nome de peso que ainda precisa se reencontrar com as taças

    O último trabalho de Tite antes do Botafogo foi no Cruzeiro, entre janeiro e março deste ano. Foram 17 jogos, com oito vitórias, três empates e seis derrotas, além da conquista do Campeonato Mineiro, decidida contra o Atlético-MG. O problema veio no Brasileirão: a Raposa amargava a vice-lanterna quando o vice-presidente Pedro Junio anunciou a saída do treinador, duas semanas depois do título estadual, logo após um empate por 3 a 3 com o Vasco.

    Antes disso, Tite havia ficado sete meses afastado do futebol por uma questão de saúde mental, decisão pessoal tomada em abril de 2025, quando o comandante chegou perto de reassumir o Corinthians.

    Seu trabalho anterior à pausa para cuidar da saúde foi no Flamengo, entre outubro de 2023 e setembro de 2024. Pelo Rubro-Negro, seu único troféu também foi estadual, o Campeonato Carioca de 2024, já que o time caiu nas quartas de final da Libertadores para o Peñarol naquele ano. Não muito depois que foi demitido, Filipe Luís assumiu o clube interinamente e conquistou a Copa do Brasil.

    Olhando com mais cuidado para a trajetória recente, o último grande título de Tite em uma competição de peso nacional ou continental remonta à Copa América de 2019, ainda à frente da seleção. De lá para cá, são sete anos sem erguer uma taça de real relevância.

    Esse hiato alimentou um debate recorrente no futebol brasileiro: o de que o estilo de Tite, calcado em uma liderança mais paternal e em esquemas táticos tradicionais, teria ficado para trás. Em 2024, o jornalista Renato Maurício Prado afirmou: "O trabalho do Tite no Flamengo é horroroso. Jornalistas que são fãs do Tite pelo que ele já fez, mas que não conseguem enxergar o óbvio: não tem mais nada do Tite de 2015. Ele é um treinador tão ultrapassado como o Vanderlei Luxemburgo".

    Dois anos depois, no início de 2026, quando Tite foi novamente vinculado a uma quarta passagem pelo Corinthians, o ex-jogador e apresentador Neto se mostrou contra a possibilidade e criticou o estilo do treinador: "Que bom, eu como corintiano, que ele não aceitou ir para o Corinthians. Ele é ex-treinador. Ele não entende mais nada de futebol. Ele está ultrapassado daquilo que se entende de futebol hoje em dia".

    Essa passagem pelo Botafogo, portanto, será um verdadeiro teste de atualização para o treinador.

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  • imago-sport-1083120667.jpgZUMA Press Wire

    Do topo do Brasil ao caos em menos de dois anos

    O dilema do Botafogo em 2026 começou antes mesmo da temporada esquentar. Martín Anselmi, jovem técnico argentino que priorizava a organização tática e havia sido contratado para suceder Davide Ancelotti, foi demitido no dia 22 de março, sem conseguir emplacar um padrão de jogo consistente. Rodrigo Bellão, técnico do sub-20, assumiu de forma interina até a chegada de Franclim Carvalho, que já havia trabalhado no clube em 2024 como auxiliar de Artur Jorge nas campanhas do Brasileirão e da Libertadores.

    Sob o comando de Franclim, a equipe somou dez vitórias, sete empates e cinco derrotas em 22 partidas. A queda veio de forma abrupta: uma goleada de 6 a 1 para o Cienciano, na altitude de Cusco, pela Copa Sul-Americana, seguida de uma derrota para o Vitória, selou a demissão do português no dia 18 de agosto. Bellão voltou ao comando interino, dessa vez sem o mesmo desempenho, somando apenas uma vitória em cinco jogos até o anúncio da contratação de Tite.

    Fora de campo, o cenário ajuda a explicar a instabilidade. O clube viveu meses de dívidas e instabilidade financeira, agravadas por um transfer ban da Fifa motivado por uma pendência referente à contratação de Thiago Almada junto ao Atlanta United. Para aliviar a folha salarial, a diretoria promoveu uma redução expressiva do elenco e vendeu peças importantes ao longo do ano, como Marlon Freitas, Jefferson Savarino e Alexander Barboza.

    Em agosto, o clube ainda aprovou uma mudança na gestão da SAF, que incluiu a saída de John Textor do comando direto e a chegada do investidor Gabriel de Alba. Ainda que vista como um passo para melhorar a saúde do clube, a alteração abalou as estruturas e encerrou o ciclo daquela gestão que, em outras circunstâncias, havia conduzido o Botafogo à glória em 2024.

    Foram tantas mudanças desde a conquista daqueles troféus que, do time titular campeão de 2024, restam hoje apenas dois jogadores: os laterais Alex Telles e Vitinho.

  • Flamengo v Paranaense - Brasileirao 2024Getty Images Sport

    Ajustes e novas chegadas

    Os números do Botafogo neste Brasileirão expõem onde está o principal problema. A defesa é a 16ª pior do campeonato, com 41 gols sofridos, enquanto o ataque tem rendimento mais razoável, com 38 gols marcados e a sétima melhor média da competição, ainda que a produção tenha sido irregular ao longo do ano.

    Danilo Santos segue sendo, inegavelmente, o melhor jogador do Botafogo na temporada, mas o volante parece cada vez mais sozinho para produzir o melhor do seu futebol. Não à toa, sua produção caiu de forma visível após a Copa do Mundo. O sintoma mais claro dessa desorganização está nos números do Brasileirão: Danilo divide a artilharia do time com o centroavante Arthur Cabral, ambos com sete gols, uma distribuição que escancara como as responsabilidades ofensivas estão bagunçadas dentro de campo.

    De olho nesse desequilíbrio, o clube trouxe nove reforços na janela de meio de ano. O principal nome é o meia-atacante marroquino Hakim Ziyech, que pode aliviar a sobrecarga de Danilo tanto na criação de jogadas quanto na artilharia. Na mesma lógica, o retorno do centroavante Tiquinho Soares, ídolo da torcida, e a chegada do atacante Danilo Pereira miram dividir com Arthur Cabral o peso de balançar as redes.

    Na defesa, a diretoria reforçou o setor com os goleiros Gabriel Batista e Warleson, o zagueiro Arthur Chaves, que chega emprestado pelo Hoffenheim com passagem consistente pela Bundesliga, o lateral-esquerdo Paulinho e o também zagueiro Lucas Monzón. São apostas de custo relativamente baixo, mas que têm potencial para entregar resultados ainda em 2026.

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  • Flamengo v Bahia - Copa Do Brasil 2024Getty Images Sport

    Uma mão lava a outra

    Cabe agora a Tite reorganizar essa defesa, aproveitar as peças ofensivas que ainda funcionam e devolver ao Botafogo alguma previsibilidade dentro de campo antes que a temporada termine. O sucesso dessa missão vai dizer muito sobre o futuro imediato do clube, mas também sobre o que ainda resta da carreira de um dos treinadores mais decorados do futebol brasileiro.