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Amorim sacked featureGetty/GOAL

Ruben Amorim é o único culpado pela própria demissão do Manchester United: maus resultados e postura inflexível custaram seu cargo nos Red Devils

Visivelmente abatido e incomodado em sua última entrevista pré-jogo, Ruben Amorim evitou falar sobre possíveis problemas internos, repetindo por três vezes que “não queria comentar” quando questionado sobre sua relação com o diretor esportivo Jason Wilcox. No entanto, ao final da coletiva, ao ser perguntado diretamente se ainda sentia respaldo da diretoria, o técnico não recuou — pelo contrário.

“Para começar, percebi que vocês receberam informações seletivas sobre tudo”, iniciou. “Eu vim aqui para ser o manager do Manchester United, não para ser o coach do Manchester United. E isso está claro. Eu sei que meu nome não é Tuchel, não é Conte, não é Mourinho, mas eu sou o manager do Manchester United. E vai ser assim por 18 meses, ou até o conselho decidir mudar.

Com uma única resposta, uma coletiva de imprensa pós-jogo de rotina de repente pareceu uma cena de um drama televisivo. E Amorim não parou por aí, repetindo mais duas vezes que queria ser "o técnico, não o treinador" antes de proferir a frase de efeito: "Em todos os departamentos – o departamento de olheiros, o diretor esportivo – cada um precisa fazer o seu trabalho, eu farei o meu por 18 meses e depois seguiremos em frente."

Esse prazo, no entanto, durou apenas mais 19 horas. Na manhã seguinte, o Manchester United anunciou sua demissão. O que não deve ter sido uma surpresa para o técnico, já que sua coletiva em Leeds pareceu um pedido de demissão. Apesar de seu relacionamento frequentemente tenso com a mídia, Amorim a estava usando para se manifestar contra a diretoria que o havia contratado. E, como Enzo Maresca acabara de presenciar no Chelsea e Nuno Espírito Santo descobriu no Nottingham Forest, quando se faz isso, geralmente só há um vencedor.

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  • Manchester City FC v Manchester United FC - Premier LeagueGetty Images Sport

    Traindo seus aliados

    Apesar das críticas constantes durante sua passagem — vindas tanto de comentaristas rivais como Carragher, quanto de ídolos do clube como Rooney, Neville e Scholes — Amorim sempre contou com a confiança da diretoria. Mesmo após conduzir o United à pior colocação em 51 anos no Campeonato Inglês e de ficar fora das competições europeias pela primeira vez em mais de uma década, após ser derrotado para um enfraquecido Tottenham na final da Liga Europa.

    Sir Jim Ratcliffe chegou a afirmar publicamente que Amorim merecia três anos para provar seu valor, fazendo um paralelo com Mikel Arteta no Arsenal. O CEO Omar Berrada, por sua vez, chegou a compará-lo a Pep Guardiola, destacando sua fidelidade aos princípios de jogo e o crédito acumulado por conquistas anteriores.

    Por isso, causou surpresa o fato de Amorim ter direcionado críticas justamente àqueles que mais o apoiaram internamente. Ao expor o desgaste publicamente, o treinador rompeu a última linha de sustentação que ainda possuía no clube.

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  • Manchester United v Wolverhampton Wanderers - Premier LeagueGetty Images Sport

    Rigidez e desgaste nos bastidores

    Imediatamente após a demissão de Amorim, fontes do United ressaltaram que nunca houveram conflitos dentro do clube, muito pelo contrário, o treinador sempre contou com apoio inabalável de todos dentro do clube. No entanto, havia um claro desconforto entre o treinador e o diretor esportivo Wilcox, especialmente pela insistência do português no esquema 3-4-2-1, utilizado praticamente em todos os jogos.

    A rigidez de Amorim com sua formação preferida acabou sendo sua queda. Isso limitou a equipe dentro de campo e, por fim, levou a um rompimento entre ele e a hierarquia do clube. Fontes próximas a Amorim afirmam que ele sempre teve dificuldade em lidar com questionamentos sobre suas escolhas — algo que, no Sporting, nunca foi um problema, já que detinha total confiança da diretoria, além de controle sobre elenco e contratações. No United, esse cenário era diferente.

  • ruben-amorim(C)Getty Images

    Pior campanha desde os anos 1970

    Fontes do United afirmam que Amorim foi demitido porque o clube não via sinais suficientes de evolução ou progresso. Deixando de lado, por um momento, a decisão equivocada dos Red Devils de contratar Amorim no meio da temporada passada, quando ele queria esperar até o final, é difícil contestar o raciocínio deles.

    Em 14 meses no cargo, Amorim venceu apenas 24 dos 63 jogos disputados, com aproveitamento de 38,7%. Trata-se do pior índice entre todos os técnicos do Manchester United na era pós-Sir Alex Ferguson – com Louis van Gaal, Erik ten Hag, Ole Gunnar Solskjaer, José Mourinho e David Moyes vencendo ao menos 52% de suas partidas – e o mais baixo desde o início dos anos 1970.

    Diferentemente de alguns de seus antecessores, Amorim não pode dizer que não recebeu apoio no mercado de transferências ou que não teve permissão para reformular o elenco.

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  • Manchester United v ACF Fiorentina - Pre-Season FriendlyGetty Images Sport

    Investimento pesado

    Logo nos primeiros meses de Amorim, o United reforçou as alas com Patrick Dorgu e deu sinal verde para decisões drásticas, como a saída de Marcus Rashford, um movimento que ganhou contornos ainda mais negativos com a recuperação do atacante no Aston Villa e, posteriormente, no Barcelona, além de seu retorno à seleção inglesa.

    Na janela de verão, o clube investiu £216 milhões em reforços (aproximadamente R$1,5 bilhão), incluindo nomes prontos para a Premier League, como Matheus Cunha e Bryan Mbeumo, além do goleiro Senne Lammens e do atacante Benjamin Sesko, a contratação mais cara do pacote, por £74 milhões (R$500 milhões aproximadamente).

    Isso tornou o United o quinto clube que mais gastou na Premier League e o terceiro maior em gasto líquido, atrás apenas de Arsenal e Liverpool — o que fontes do clube também fizeram questão de destacar quando Amorim foi demitido. Elas também reforçaram que ele estava totalmente alinhado com o plano de priorizar a contratação de três atacantes em vez de um meio-campista ainda na janela de verão europeu.

    Mesmo com um elenco mais forte e sem compromissos europeus — o que garantiu mais tempo de treinamento — o United não conseguiu transformar sua vantagem em desempenho. Após 20 rodadas, a equipe ocupava apenas a sexta colocação da Premier League.

  • Manchester United v Everton - Premier LeagueGetty Images Sport

    Queda de rendimento em casa e má relação com a base

    Diante de uma sequência ruim de resultados, é praticamente um milagre que o United ainda brigue por uma vaga na Liga dos Campeões. O time venceu apenas três dos últimos 11 jogos, enfrentando apenas o Aston Villa como único adversário do top 5 nesse período, que saiu vencedor. Enfrentou cinco equipes da zona de rebaixamento e não venceu nenhuma delas, incluindo um Wolverhampton possuindo o pior retrospecto da história da primeira divisão inglesa, e um West Ham em crise, atropelado pelo Wolves no fim de semana.

    A equipe também decepcionou em casa, somando apenas seis pontos em seus últimos cinco jogos em Old Trafford, perdendo para o Everton com um jogador a mais e empatando com Wolves, West Ham e Bournemouth. A única vitória nesse período, contra o Newcastle, teve os Magpies dominando o segundo tempo.

    Além disso, Amorim perdeu apoio ao adotar uma postura considerada desrespeitosa com a base do clube, afastando Rashford e Alejandro Garnacho enquanto não ofereceu chances à Kobbie Mainoo. Também deu declarações negativas sobre atletas recém-formados como Chido Obi e Harry Amass, minando ainda mais sua relação com torcida e elenco.

  • FBL-ENG-PR-MAN UTD-WOLVESAFP

    Críticas ao elenco e racha no vestiário

    As críticas públicas ao elenco também pesaram. Ao afirmar que preferiria escalar seu treinador de goleiros a utilizar Rashford e ao classificar o grupo como “talvez o pior da história do clube”, Amorim ultrapassou um limite difícil de sustentar internamente. Dentro do vestiário, o impacto foi negativo. Jogadores sentiram que declarações desse tipo aumentavam a pressão e geravam desgaste desnecessário.

    Christian Eriksen descreveu recentemente o quanto isso caiu mal entre os jogadores: “Não acho que isso ajudou os jogadores em nada. Algumas coisas você pode dizer internamente, e não é nada inteligente dizer externamente, colocando pressão extra e um rótulo a mais nos jogadores que já estavam tentando dar o seu melhor. Não acho que isso ajudou em nada, não. Se ele está certo ou errado, tanto faz, mas para nós foi meio que ‘lá vamos nós de novo, outra manchete’.”

    Durante as muitas manchetes surgidas na era Amorim, poucas eram positivas. Embora 14 meses pareçam curtos, muitos torcedores e comentaristas acreditam que ele deveria ter sido demitido bem antes. A derrota na final da Liga Europa para o Tottenham — que demitiu Ange Postecoglou apesar de conquistar seu primeiro título em 17 anos — teria sido um momento óbvio para mudar os ares. A derrota para o Brentford, em setembro — após a qual a GOAL pediu sua demissão — foi outro.

    A diretoria manteve confiança enquanto pôde, mas quando o treinador voltou suas críticas para quem o apoiava, o fim do ciclo se tornou inevitável.

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