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O terremoto do isolamento atinge Infantino: de legitimidade absoluta a ameaça de exclusão

Em apenas alguns dias, a ambição de Gianni Infantino, presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), passou de estar perto de realizar o sonho do "grande aporte" para se tornar uma das maiores crises que ele enfrentou desde que assumiu o cargo, em 2016. 

O projeto anunciado no fim de julho de 2026 sob o nome "FIFA Forward Enterprise" tinha como objetivo criar uma empresa comercial avaliada em cerca de 20 bilhões de dólares, encarregada de administrar os direitos comerciais e as operações organizacionais dos torneios da Fifa, com destaque para a Copa do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes. 

O plano previa a venda de uma participação minoritária de até 20% a investidores do setor privado, em troca da arrecadação de cerca de 4,2 bilhões de dólares, com promessas de distribuir financiamento adicional generoso às federações-membros. Mas o projeto ruiu rapidamente sob o peso de uma ampla oposição continental, de renúncias internas e de duras críticas, o que obrigou Infantino a um recuo oficial em um comunicado divulgado nas primeiras horas do dia 1º de agosto de 2026. 

Em seu comunicado, Infantino admitiu que o projeto "provocou divisões" que já não serviam ao objetivo central, declarando que "não seguirá adiante". Esse recuo não foi apenas o cancelamento de um plano comercial; ele revelou perdas de múltiplas dimensões que atingiram o homem que, até pouco tempo atrás, era visto como uma das figuras mais poderosas do mundo do esporte.

  • Derrota política e de liderança: perda de confiança e ameaça ao cargo

    O golpe mais forte foi essencialmente político; a União das Federações Europeias de Futebol (UEFA) declarou que a atual liderança da FIFA "perdeu a confiança" da entidade europeia e de vários membros da família do futebol.

    A UEFA foi ainda mais longe ao acenar com o boicote a todas as competições da FIFA, incluindo a Copa do Mundo, caso o projeto prossiga. A esse posicionamento se somaram outras confederações continentais influentes, com destaque para a Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf), que sediou a Copa do Mundo de 2026, e a Confederação Asiática de Futebol, o que fez com que a oposição abrangesse quase mais da metade das federações membros.

    No âmbito interno, as renúncias e as críticas vieram dos círculos mais próximos. Carlos Cordeiro, principal assessor de Infantino e ex-presidente da Federação Americana, renunciou, declarando sua total rejeição ao plano e o descrevendo como "um mau negócio para as federações membros e um mau negócio para o futebol e seu futuro no longo prazo".

    Ao mesmo tempo, Kevin Lamour, diretor executivo de operações da FIFA, acusou que os funcionários "foram enganados", descrevendo o projeto como "um projeto de uma única pessoa".

    Esses desdobramentos colocaram o futuro de Infantino por um fio, especialmente com a aproximação das eleições presidenciais de 2027. O homem que parecia praticamente garantido para a reeleição se transformou em uma figura isolada, diante de exigências por uma revisão completa da governança.

    Reportagens da imprensa ao longo dos dois dias anteriores indicaram que círculos próximos o haviam alertado previamente, mas seu estilo de tomar decisões unilaterais o fez parecer "um homem morto andando pela terra", segundo a expressão de alguns observadores.

    A derrota aqui não é apenas um recuo em relação a um projeto, mas uma erosão na legitimidade política sobre a qual Infantino construiu seu poder ao longo de quase uma década. Ele passou a ser cobrado a reconstruir as pontes com os grandes continentes, em meio a um clima de desconfiança e a apelos por responsabilização dos responsáveis pelos "planos secretos".

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  • Perda de reputação e integridade: a imagem da ganância e do sigilo

    A crise ultrapassou o âmbito político e atingiu a imagem pessoal e institucional de Infantino. Rapidamente, o projeto foi qualificado como de "pura ganância", um "mau negócio" e um "plano secreto", com comparações diretas ao colapso do projeto da Superliga Europeia em 2021, quando o jornal "The Times" e outros destacaram que o plano fora elaborado longe dos olhos das federações-membro e, em seguida, apresentado de uma forma que parecia uma tentativa de impor um fato consumado em troca de promessas de financiamento.

    A possível ligação com investidores associados a círculos políticos americanos, como o grupo "Thrive Capital", ligado à família Kushner, levantou ainda mais suspeitas sobre as motivações. O próprio momento, poucas semanas após o encerramento da Copa do Mundo de 2026, descrita como a mais lucrativa da história, fez muitos verem na iniciativa uma tentativa de aproveitar o sucesso financeiro em benefício de interesses pessoais ou restritos.

    A Uefa não hesitou em usar expressões duras como "negócio suspeito fechado às escondidas" e "planos secretos em cronogramas acelerados", apontando que Infantino falhou em cumprir as promessas de transparência que fez quando de sua eleição. O resultado é que a reputação que ele havia construído como "reformador" após a era de Joseph Blatter sofreu um golpe doloroso, cujos efeitos podem durar anos. Mesmo após o recuo, relatos afirmaram que "a má reputação continuará presente por mais tempo".

    Sobre isso, o famoso jornalista da "Sky News", Rob Harris, diz: "A crise em torno de Infantino está se agravando, e isso pode ser comprovado pelo que fez a Federação de Futebol do País de Gales, que se tornou a primeira instituição futebolística do mundo a retirar oficialmente seu apoio à reeleição do presidente da Fifa, Gianni Infantino".

  • Prejuízo financeiro: perda dos salários de "Haaland, Lewis Hamilton e Steve Curry"

    No aspecto financeiro, Infantino perdeu a oportunidade de arrecadar bilhões de dólares, dos quais esperava direcionar uma parte para programas de desenvolvimento, com promessas de distribuir quantias que chegavam a dezenas de milhões para cada federação-membro em caso de aprovação. Em vez disso, o projeto ruiu sem gerar qualquer retorno, enquanto a Fifa já dispunha de reservas que ultrapassavam os 5 bilhões de dólares, o que colocou em grande questionamento a necessidade da venda parcial.

    O ponto mais polêmico foi o lado pessoal, já que uma jornalista do The Times revelou que Infantino era cotado para receber um salário anual superior a 30 milhões de euros pela direção da nova empresa, além de bônus atrelados ao desempenho, ou seja, cerca de dez vezes o seu salário atual, estimado em aproximadamente 3 milhões de euros.

    Já o jornal The Sun acrescentou que, com a aprovação do projeto, Infantino passaria a receber um salário que rivalizaria com os de Haaland, Lewis Hamilton e Steve Carell, cifra que não foi desmentida oficialmente de forma categórica, o que alimentou as acusações de que o projeto servia a interesses pessoais tanto quanto servia ao esporte.

    O fracasso do acordo também significa a perda da oportunidade de fortalecer a influência financeira da Fifa a longo prazo e da possibilidade de usar esses recursos em programas ampliados do "Fifa Forward". Em vez disso, a entidade voltou à sua situação anterior, com um financiamento menor do que o prometido, em meio ao receio de que as federações que se opuseram possam sentir que foram punidas financeiramente nos próximos ciclos.

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  • A derrota da influência: uma divisão global expõe os limites do poder de Infantino

    O projeto provocou uma profunda divisão dentro da família do futebol mundial, com as 55 federações europeias posicionando-se de forma unânime, às quais se somaram vozes da Ásia e da América do Norte, enquanto algumas federações da África, da América do Sul e da Oceania mantiveram uma postura mais cautelosa ou de apoio parcial. Essa divisão revelou os limites do poder de Infantino, acostumado a aprovar suas decisões por maioria confortável graças ao apoio das federações menores.

    Agora, torna-se imperativo para ele trabalhar para reunificar as fileiras, algo que ele reconheceu em seu segundo comunicado, no qual afirmou que "o futebol fala todas as línguas" e conclamou ao diálogo. Mas a confiança foi abalada, e as reivindicações por uma revisão dos mecanismos de tomada de decisão na Fifa tornaram-se públicas. A Confederação Asiática exigiu uma "revisão urgente" dos processos de consulta, enquanto a Uefa afirmou que "a verdadeira tarefa de reconstruir a confiança acaba de começar".

    No fim das contas, Infantino já não dispõe da ampla margem de que desfrutava; qualquer projeto futuro enfrentará um escrutínio mais severo, e sua capacidade de manobra política ficará ainda mais limitada. O que aconteceu em apenas cinco dias destruiu ambições de investimento e prejudicou a reputação da Fifa, além de relembrar que o futebol mundial ainda é capaz de rejeitar a transformação de seus mais importantes torneios em mera mercadoria de investimento.

  • A perda da frente de apoio: a CAF entre a hesitação e a oportunidade adiada

    A Confederação Africana de Futebol (CAF), liderada por Patrice Motsepe, sempre representou uma das mais importantes frentes de apoio a Infantino, graças à estreita relação e aos generosos financiamentos que chegaram ao continente por meio dos programas "FIFA Forward". Ainda assim, Infantino não conseguiu transformar esse apoio histórico em uma posição decisiva capaz de salvar seu projeto.

    A CAF limitou-se a convidar seus membros a "estudar e avaliar" a proposta durante uma reunião do comitê executivo, sem emitir um apoio explícito ou uma recusa categórica, num momento em que a UEFA, a Concacaf e a Confederação Asiática declaravam oposição firme.

    Essa hesitação relativa configura uma derrota temporária, já que o projeto fracassou antes que a possível aliança africana pudesse se consolidar por completo, apesar da necessidade de muitas federações africanas pelo financiamento adicional prometido pelo plano (valores que poderiam chegar a 40 milhões de dólares por federação). Reportagens da BBC indicaram que a África estava cotada para ser uma "voz solitária" de apoio, graças à lealdade e às necessidades de desenvolvimento.

    No entanto, essa derrota carrega em si uma importante oportunidade estratégica, pois, depois de acalmada a tempestade, Infantino pode voltar a contar com a frente africana como uma "carta na manga" para reconstruir seu projeto ou apresentar uma fórmula revisada e mais consultiva.

    As federações africanas, como a egípcia e a marroquina, apressaram-se, após o recuo, a elogiar a decisão de retirada e a qualificá-la como "sensata", renovando a confiança em sua liderança.

    E permanece a forte relação pessoal entre Infantino e Motsepe, a quem ele havia descrito anteriormente como o "amigo fiel da África", um capital que pode ser aproveitado no futuro para aprovar novas iniciativas focadas no desenvolvimento e no financiamento, sem provocar os mesmos receios europeus.

    No balanço final, Infantino já não dispõe da ampla margem de que gozava, pois qualquer projeto futuro enfrentará um escrutínio mais rigoroso; mas a manutenção do apoio do continente africano lhe concede espaço de manobra quando os ânimos se acalmarem. O que aconteceu em poucos dias destruiu ambições de investimento e prejudicou a reputação da FIFA, mas não cortou todas as pontes.

    As reportagens e os comunicados divulgados pela UEFA, pela FIFA e pela CAF confirmam que as perdas são múltiplas e que o caminho para recuperar a confiança será longo, com a África permanecendo como uma das mais importantes cartas que se pode jogar mais adiante.