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O segredo do domínio da Espanha... Como De la Fuente formou uma seleção imbatível?

A seleção da Espanha não é mais apenas uma das principais candidatas à conquista da Copa do Mundo de 2026, mas tornou-se um modelo completo de time que sabe exatamente quem é, como quer jogar e o que busca alcançar. Menos de dois anos após conquistar o título da Eurocopa, a “La Roja” está prestes a alcançar um feito histórico: conquistar simultaneamente os títulos europeu e mundial, uma conquista que apenas três seleções conseguiram ao longo da história: a Alemanha Ocidental em 1974, a França em 2000 e a própria Espanha em 2010.

O técnico Luis de la Fuente lidera esse projeto com notável firmeza, tendo conseguido, desde que assumiu o cargo em janeiro de 2023, transformar a seleção espanhola em uma das mais estáveis do mundo, já que sofreu apenas três derrotas, enquanto mantém uma sequência impressionante de 35 partidas consecutivas sem perder antes do confronto contra a Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo.

No entanto, o segredo do sucesso de De la Fuente não reside apenas nos esquemas táticos, nos números e nas estatísticas, mas em uma filosofia integrada que combina o lado humano, a disciplina coletiva e a identidade futebolística que se consolidou no futebol espanhol ao longo de muitas décadas.

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    Um projeto que começou há muitos anos

    Embora De la Fuente esteja apenas em seu quarto ano como técnico da seleção principal, seu verdadeiro projeto começou muitos anos antes, na Federação Espanhola de Futebol, onde atua desde 2013 como técnico de diversas seleções de categorias de base.

    Durante esses anos, seu papel não se limitou ao desenvolvimento técnico dos jogadores, mas também contribuiu para incutir uma cultura unificada e uma identidade clara nas novas gerações, o que facilitou a transição de muitos deles para a seleção principal, levando consigo os mesmos princípios dentro e fora de campo.

    Por esse motivo, o técnico espanhol não precisou construir um projeto totalmente novo após assumir o cargo, mas encontrou uma base sólida que trabalhou para desenvolver e à qual acrescentou seus toques pessoais, conforme informou a emissora britânica “BBC” .

    De la Fuente acredita firmemente que o futebol, antes de ser um jogo tático, é um jogo de pessoas. Por isso, ele sempre repete sua famosa frase: “O futebol é um esporte coletivo feito por pessoas de bem”.

    E ele não se refere à palavra “boas pessoas” apenas no sentido moral, embora seus valores pessoais e religiosos se reflitam claramente em seu estilo; ele se refere ao jogador que coloca o interesse da equipe acima do seu próprio, que se sacrifica pelos companheiros, que oferece apoio a todos e que possui disciplina e disposição para se dedicar.

    Ele afirma que quem já viveu dentro dos vestiários compreende muito bem o valor desse tipo de jogador, assim como sabe do perigo que representa a presença de um jogador que semeia a divisão e busca sempre a glória individual.

    Com base em sua longa experiência, o técnico espanhol chegou à clara convicção de que o talento por si só não basta para formar uma equipe campeã; é necessário um ambiente saudável, onde prevaleçam a cooperação, a confiança e o respeito mútuo.

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    Uma identidade que não muda

    Há muitos anos, o nome do futebol espanhol está associado à posse de bola, aos passes e à inteligência nos movimentos, mas De la Fuente encara esses elementos mais como um reflexo de uma cultura coletiva do que como meros detalhes táticos.

    Para ele, o passe não é apenas um meio de movimentar a bola, mas uma demonstração de confiança entre os jogadores; e a posse de bola não é um objetivo em si, mas uma expressão do domínio coletivo e da harmonia dentro da equipe.

    Por isso, ele preservou a identidade da seleção espanhola, mas não a transformou em um dogma rígido; ao contrário, conferiu-lhe maior flexibilidade, adequada à evolução do futebol moderno.

    Muitos comparam o trabalho de De la Fuente ao que Pep Guardiola disse sobre Johan Cruyff, quando afirmou que alguns treinadores não constroem a catedral, mas sim a repintam.

    Essa descrição se aplica em grande medida ao técnico espanhol, pois ele não destruiu o projeto que herdou, mas trabalhou para desenvolvê-lo.

    Ele conferiu à seleção maior capacidade de transição rápida entre a defesa e o ataque, acrescentou mais variedade no terço final do campo e tornou a equipe mais sólida na perda de bola, além de mais flexível na abordagem de diferentes tipos de partidas.

    O resultado é que a Espanha se tornou uma seleção com identidade bem definida, mas extremamente difícil de ser parada.

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    O mais fácil de ler... e o mais difícil de derrotar

    Um dos membros da comissão técnica da seleção portuguesa descreveu a seleção espanhola, após o confronto entre as duas equipes, como “a seleção mais fácil de analisar, mas a mais difícil de derrotar”. Talvez essa descrição pareça contraditória, mas reflete a essência do projeto espanhol.

    A Espanha não esconde seu estilo, e todos sabem que ela buscará a posse de bola, a pressão e os passes rápidos, mas conhecer a estratégia não significa ser capaz de pará-la. Isso se deve ao fato de que os jogadores vêm treinando esses princípios há muitos anos, e sua execução tornou-se parte de sua identidade futebolística.

    Apesar de se manter fiel à identidade da equipe, De la Fuente não encara as partidas com uma mentalidade rígida. Ele se baseia em uma análise minuciosa de cada adversário e trabalha com sua comissão técnica para revisar todos os detalhes após o término de cada partida, a fim de corrigir os erros e fazer os ajustes necessários.

    Assim, quando a seleção espanhola perdeu a precisão nos passes contra Cabo Verde, a comissão técnica trabalhou para resolver esse problema rapidamente, fazendo com que a equipe apresentasse uma imagem totalmente diferente na partida seguinte contra a Arábia Saudita.

    Já no confronto contra o Uruguai, o técnico se concentrou mais no aspecto mental do que no tático, pois sabe que a seleção espanhola já perdeu em várias ocasiões ao se deixar levar pelas provocações e perder a calma.

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    Uma lição que ele aprendeu com as derrotas

    De la Fuente reconhece que sua experiência atual é resultado de erros que cometeu no passado. Ele afirma que agia com mais emoção nos primeiros anos, mas aprendeu, com o tempo, que algumas partidas não são decididas apenas pela habilidade, mas pela capacidade de controlar os nervos.

    Ele considera que o pior que pode acontecer à sua equipe é abrir mão de sua identidade e se deixar levar pela confusão do adversário, pois isso faz com que os jogadores percam seus pontos fortes fundamentais. Por isso, ele sempre faz questão de lembrar aos seus jogadores que a disciplina mental é tão importante quanto a disciplina tática.

    A influência de De la Fuente não se limita apenas ao campo, mas se estende à maneira como ele lida diariamente com os jogadores, a mídia e todos os que trabalham na seleção. Ele faz questão de se dirigir aos jornalistas pelo nome, olha diretamente para quem está falando com ele e acredita que o respeito começa por conhecer a pessoa que está à sua frente.

    Ele também conta com psicólogos e especialistas em comunicação da Federação Espanhola de Futebol para ajudar na preparação das coletivas de imprensa, mas sempre prefere falar com espontaneidade quando a situação assim o exige. Ele afirma que essas atitudes não fazem parte de uma estratégia de comunicação, mas refletem sua verdadeira personalidade.

  • Uruguay v Spain: Group H - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    Lamine Yamal... Gerenciando o talento antes de investi-lo

    De la Fuente está ciente de que contar com um jogador do calibre de Lamine Yamal é uma grande bênção, mas, ao mesmo tempo, uma enorme responsabilidade. Por isso, tem lidado com o jovem astro com muita calma, especialmente após seu retorno da lesão que o manteve afastado dos gramados por dois meses antes do campeonato.

    Ele não exigiu que o jogador fizesse milagres desde o primeiro dia, mas sim lhe deu confiança e traçou um plano gradual para que ele voltasse à sua melhor forma. O técnico espanhol acredita que a fase atual representa o momento em que Yamal deve começar a se impor no maior palco do futebol mundial.

    Na opinião de De la Fuente, as melhores partidas de Lamine Yamal não foram aquelas em que ele impressionou a torcida com dribles ou gols.

    Ele considera que a partida contra a Portugal foi a mais importante, pois demonstrou sua evolução como jogador coletivo, que pressiona sem a bola, se sacrifica pela equipe e toma as decisões certas nos momentos mais difíceis.

    Na sua opinião, um grande jogador faz a diferença não apenas quando a bola está entre seus pés, mas quando se coloca a serviço do coletivo em todos os aspectos da partida.

  • Spain v Croatia: Group B - UEFA EURO 2024Getty Images Sport

    Oyarzabal... um campeão que não busca os holofotes

    E os elogios constantes de De la Fuente a Mikel Oyarzabal revelam muito sobre sua filosofia. O técnico espanhol o descreve como um dos cinco melhores atacantes puros do mundo, embora ele não tenha a fama de que desfrutam muitas estrelas.

    Ele afirma que o jogador já merecia reconhecimento mundial há anos, mas continuou trabalhando em silêncio e dando tudo de si pela equipe — exatamente o tipo de jogador que De la Fuente prefere ter no vestiário.

    De la Fuente não aplica a filosofia da disciplina apenas aos seus jogadores, mas também a si mesmo. Ele faz questão de praticar esportes diariamente para manter a boa forma física e acredita que o sucesso não se alcança com impulsos momentâneos, mas sim com persistência e comprometimento diário.

    Ele se descreve como alguém que não sabe parar e admite que seus amigos às vezes o chamam de “cansativo” devido à sua atividade constante e à busca contínua pelo aperfeiçoamento. Para ele, as grandes conquistas não vêm de um momento de inspiração passageiro, mas do acúmulo de trabalho, disciplina e dedicação ao longo de muitos anos.

    A seleção espanhola chega à reta final da Copa do Mundo com todos os ingredientes necessários para disputar o título: uma identidade clara, um técnico que conhece seus jogadores de cor, um elenco que combina experiência e juventude, e uma filosofia que não muda com a mudança dos adversários.

    Talvez De la Fuente não seja o técnico mais badalado do mundo, mas conseguiu construir uma equipe da qual todos falam mais dentro de campo do que fora dele.

    E, com a Copa do Mundo se aproximando de suas etapas decisivas, a Espanha parece mais perto do que nunca de escrever um novo capítulo em sua história e alcançar uma conquista que colocará esta geração ao lado das maiores que o futebol já conheceu, depois de ter provado que o verdadeiro sucesso não é construído apenas por planos, mas sim pela identidade, pela confiança, pelo trabalho em equipe, e a crença de que a equipe sempre será maior do que qualquer estrela.