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«Não se pode comprar o que a Fifa quer»: a fatura negra da Copa de 2030 coloca o Marrocos diante do impossível

Após a consagração da seleção espanhola como campeã mundial, as atenções se voltaram rapidamente para a Copa do Mundo de 2030, que será realizada de forma conjunta nos territórios da Espanha, do Marrocos e de Portugal. A grande alegria futebolística não escondeu os pesados desafios organizacionais e econômicos que as cidades-sede das competições enfrentam.

O evento, que se pretende que seja uma celebração continental, transforma-se em uma equação financeira complexa, na qual os custos ocultos se destacam como um fator comum que provoca indignação e desconfiança nos dois lados do estreito. É possível analisar essas situações, já que o que se aplica às cidades espanholas também se aplica, naturalmente, às cidades marroquinas e portuguesas, seja na questão dos estádios, das taxas, das isenções fiscais ou das possibilidades de redução e desistência.

  • O estado dos estádios: garantias e riscos semelhantes entre Espanha e Marrocos

    A Espanha propôs inicialmente onze estádios, enquanto o Marrocos trabalha na preparação de suas próprias instalações dentro da candidatura conjunta, mas a realidade logo se impôs. No lado espanhol, já se retiraram estádios como o de La Coruña e o de Málaga, e alguns alertam que essa não será a última desistência.

    A Federação Espanhola acredita que a Fifa reduzirá o número de estádios na Espanha e no Marrocos juntos. Dos nove estádios atualmente restantes no lado espanhol, espera-se a perda de pelo menos dois ou três, uma lógica que se estende diretamente ao lado marroquino, onde a lista de instalações propostas poderá ser revista segundo os mesmos critérios.

    Entre os estádios espanhóis que parecem relativamente confirmados estão o Santiago Bernabéu, o Camp Nou, o Metropolitano e o San Mamés. Já no Marrocos, as cidades-sede enfrentam desafios semelhantes relacionados à capacidade, aos critérios técnicos e à infraestrutura do entorno.

    O estádio espanhol Anoeta, por exemplo, tem capacidade no limite máximo do que a Fifa exige, uma situação que pode se repetir em algumas instalações marroquinas que necessitam de atualizações substanciais.

    Antón Meana, jornalista da rádio espanhola "Cadena SER", indica que as chances de Vigo não parecem fortes, enquanto Valência goza de melhores oportunidades, acrescentando que chegar a oito estádios no total já seria considerado uma conquista.

    Essa redução esperada significa que as cidades marroquinas também podem perder oportunidades com as quais contavam, especialmente aquelas que investiram no planejamento inicial sem garantias definitivas.

    O desafio é comum: a Fifa exige critérios rigorosos que incluem transporte, hotéis e áreas de segurança. Por isso, as cidades que não conseguirem atendê-los rapidamente, seja na Espanha ou no Marrocos, se veem diante da opção de desistir ou do risco de serem excluídas.

    Essa realidade coloca os dois países diante da necessidade de uma coordenação minuciosa para apresentar uma proposta equilibrada, que preserve o espírito da organização conjunta sem sobrecarregar qualquer uma das partes com encargos injustificados.

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  • As desistências precoces e os significados que atingem também as cidades marroquinas

    Gijón foi a primeira cidade espanhola a se retirar precocemente, quando a prefeita da cidade, Carmen Moriyón, adotou uma posição clara segundo a qual não é possível comprar tudo o que a Fifa deseja, e que assinar o contrato hipoteca a cidade praticamente por toda a vida.

    Essas palavras ganharam importância crescente e passaram a ecoar nos círculos de outras cidades que se perguntam sobre a viabilidade de sediar o evento. E, como as mesmas condições são impostas a todas as cidades-sede na candidatura conjunta, as cidades marroquinas se encontram diante da mesma equação: "compromissos de longo prazo que podem ultrapassar suas capacidades financeiras e organizacionais".

    A desistência não foi uma decisão emocional, mas o resultado de cálculos precisos; as cidades descobrem que os compromissos vão além da modernização do estádio para incluir garantias financeiras, ajustes legais e a preparação para atender às exigências da Fifa ao longo de anos.

    Essa hesitação se reflete nos dois lados, já que Valência aparece em posição forte na Espanha, ao passo que algumas cidades marroquinas podem enfrentar dificuldades semelhantes às enfrentadas por Vigo.

    O que se pode destacar é que as cidades, sejam espanholas ou marroquinas, não rejeitam o evento em si, mas sim as condições que as deixam hipotecadas por longos períodos sem um retorno claro e garantido.

    Essas possíveis desistências levantam questionamentos mais amplos sobre o modelo de sede conjunta, pois, enquanto alguns veem a Copa do Mundo como uma oportunidade de promoção turística e econômica para ambos os países, outros a enxergam como um fardo pesado que exige sacrifícios que talvez não sejam compensados.

    E o Marrocos, na condição de parceiro fundamental, se vê diretamente envolvido nesses cálculos, uma vez que qualquer redução no número de estádios ou desistência adicional afetará a distribuição das partidas e as oportunidades econômicas previstas.

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    Compromissos que chegam a 50 milhões de euros: um encargo compartilhado entre as cidades-sede

    Um dos pontos que mais provocam indignação são os compromissos impostos às cidades-sede. Segundo várias dessas cidades, tais compromissos podem chegar a cerca de 50 milhões de euros e, embora o número não seja totalmente confirmado, as cidades consultadas repetidamente afirmam que ele gira em torno desse valor.

    E, como as condições são padronizadas, as cidades marroquinas enfrentam a mesma possibilidade. Esses compromissos são pagos em troca dos direitos de sediar o evento e dos serviços a ele associados, representando um grande fardo financeiro, especialmente para os municípios com orçamentos limitados nos três países.

    Os compromissos financeiros não são apenas um número, mas parte de um sistema mais amplo de custos ocultos. Além do valor principal, há despesas com infraestrutura, segurança, transporte e marketing local.

    As cidades que se retiraram ou que pensam em se retirar calculam esses custos em relação ao retorno esperado com o turismo, pois, em muitos casos, as contas mostram que o retorno pode não cobrir os demais compromissos. Isso, naturalmente, se aplica às cidades marroquinas, que começaram a rever a viabilidade da participação à luz dos mesmos números que preocuparam suas congêneres espanholas.

    Vale destacar que esses valores tornam o processo de sediar o evento menos atraente do que aparenta ser à primeira vista, pois o evento mundial traz os holofotes, mas impõe compromissos financeiros que podem comprometer os orçamentos das cidades por anos, sejam elas na Espanha ou em Marrocos.

    Essa realidade compartilhada entre (Espanha, Marrocos e Portugal) leva os responsáveis desses países a repensar o equilíbrio entre a ambição esportiva e a capacidade econômica.

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  • As isenções fiscais: a principal fonte de frustração tanto na Espanha quanto em Marrocos

    A questão das isenções fiscais é o ponto de discórdia mais evidente, uma vez que a "Fifa" obtém isenção fiscal total em cada cidade-sede da Copa do Mundo de 2030, o que é considerado um dos problemas que causam grande frustração.

    Isso preocupa profundamente muitas das cidades e municípios-sede, pois, ao fazerem as contas, concluem que não se justifica sediar a Copa do Mundo. E, como a isenção se aplica a todas as cidades-sede da candidatura conjunta, as cidades marroquinas sentem a mesma frustração.

    Essa isenção significa que a Fifa não pagará impostos sobre suas receitas com ingressos, patrocínios e transmissão dentro dessas cidades, enquanto as cidades arcam com os custos dos serviços públicos ligados ao evento sem receber uma parcela fiscal direta.

    Os cálculos feitos pelos municípios revelaram uma possível diferença entre os custos e os retornos, o que torna a organização economicamente inviável em alguns casos. E a frustração se agrava quando as cidades comparam essa situação com experiências anteriores, nas quais houve negociações sobre os impostos e os retornos locais.

    Já neste caso, a isenção total parece ser uma condição inegociável, o que leva os responsáveis na Espanha e no Marrocos a questionarem a justiça na distribuição dos lucros.

  • world cup 2026 opening ceremony(C)Getty images

    A rentabilidade total e o futuro da sede compartilhada da Copa do Mundo de 2030

    Os relatórios da Federação Internacional de Futebol confirmam, após cada edição, que a Copa do Mundo é lucrativa no geral, mas as redes de televisão obtêm lucros superiores aos dos países-sede, e essa disparidade explica por que várias cidades pensam em continuar ou desistir antes que a Fifa dê sinal verde aos estádios finais.

    A equação aqui reside no fato de que a verdadeira lucratividade se concentra nos direitos de transmissão e no patrocínio global, enquanto as cidades-sede na Espanha, no Marrocos e em Portugal arcam com os custos logísticos e tributários.

    A edição de 2030 revela um quadro complexo e compartilhado: por um lado, há o desejo de apresentar um espetáculo à altura das cidades-sede; por outro, há cálculos financeiros que fazem algumas cidades hesitarem.

    A possível redução do número de estádios, as desistências antecipadas, as taxas exorbitantes e as isenções fiscais são todos fatores que levam a uma reavaliação da viabilidade de ambos os lados. Se a sede compartilhada conseguir manter um número suficiente de estádios, isso será uma conquista. Já se as desistências ou reduções continuarem, o formato do evento pode mudar de maneira notável, o que afetaria as ambições do Marrocos e da Espanha em conjunto.

    No fim das contas, a Copa do Mundo de 2030 continua sendo uma oportunidade histórica para os marroquinos, mas também revela as tensões entre a ambição esportiva e a realidade econômica. As cidades-sede, seja na Espanha, no Marrocos ou em Portugal, já não aceitam as condições sem cálculos precisos, e é isso que torna o custo oculto o principal eixo do debate durante o próximo período, confirmando que o que se aplica a um dos lados aplica-se necessariamente ao outro.