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Cruzeiro v Flamengo - Copa CONMEBOL LibertadoresGetty Images Sport

Keny Arroyo: a nova pérola da fábrica equatoriana que desponta no Cruzeiro

Nos últimos anos, dizer que um jovem saiu do Independiente del Valle virou, no futebol sul-americano, quase um selo de garantia. Foi de lá que saiu Moisés Caicedo, hoje um dos melhores volantes do mundo no Chelsea; o zagueiro William Pacho, titular na zaga do bicampeão da Europa, Paris Saint-Germain; e Piero Hincapié, peça importante no último título do Arsenal da Premier League. A pequena Sangolquí, cidade nos arredores de Quito, transformou-se num raro exemplo de fábrica de craques num país historicamente mais conhecido por exportar força física do que talento refinado com a bola.

E é justamente num momento de embalo que o mais novo produto dessa fábrica pede passagem. Nas últimas semanas, Keny Arroyo vive a melhor fase desde que chegou ao Brasil. Foram três gols em pouco mais de dez dias, cada um deles com sabor especial: dois contra o Flamengo, um pela Libertadores e outro pelo Brasileirão, e mais um na ida das quartas de final da Copa do Brasil, contra o Atlético-MG. Em comum, as três finalizações vieram de fora da área, com aquele tipo de chute cruzado e violento que costuma render replay repetido nos programas esportivos. Não é exagero dizer que o equatoriano está, hoje, no melhor momento individual de sua ainda curta trajetória no Cruzeiro.

Arroyo carrega o peso de vir do mesmo celeiro que revelou Caicedo, Pacho e Hincapié, mas trilhou um caminho um pouco mais tortuoso até aqui: precisou de uma experiência dura na Turquia para entender que o Brasil seria o lugar certo para atingir sua melhor versão.

Esta é a história de como ele chegou até este momento e do que ainda precisa provar para repetir o sucesso da fábrica que o revelou.

  • Keny Arroyo Independiente del ValleReprodução/Instagram

    Onde tudo começou

    Keny Alexander Arroyo Alvarado nasceu no dia 14 de fevereiro de 2006, em Guayaquil. Ele deu os primeiros passos no futebol na Academia Alfaro Moreno antes de, ainda criança, em 2016, ser levado para as categorias de base do Independiente del Valle, um dos mais vitoriosos do Equador.

    Cheche, como é apelidado, passou por todas as categorias de base de El Matagigantes até chegar no profissional. Em 2023, passou a maior parte do ano jogando pelo sub-20, até que recebeu uma oportunidade do treinador Martin Anselmi para mostrar seu talento no time principal. Sua estreia aconteceu no dia 2 de dezembro de 2023, aos 17 anos, entrando no decorrer de uma derrota por 2 a 1 para o El Nacional. Aquela partida aconteceu na reta final da temporada, que só teve mais dois jogos até o fim do ano.

    O verdadeiro salto veio em 2024, quando foi promovido de vez ao time principal. Naquela temporada, Arroyo somou 38 jogos, marcou quatro gols e deu oito assistências pelo Independiente del Valle, números que chamaram a atenção de olheiros europeus e confirmaram seu perfil como de um jogador procurado no futebol mundial: um ponta destemido, habilidoso, que finaliza bem — e, acima de tudo, jovem.

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  • imago-sport-1070357273.jpgFotoarena

    A grande chance

    No início de 2025, o Besiktas, da Turquia, comprou 50% dos direitos de Arroyo, na época com 18 anos, por € 6,5 milhões. O equatoriano chegou com moral ao clube de Istambul, recebendo a camisa 10, mas a transferência não saiu como o esperado. Por problemas de indisciplina com o técnico Ole Gunnar Solkjaer, Arroyo foi deixado muitas vezes no banco e acabou disputando apenas 14 partidas e marcando dois gols nos seis meses em que esteve na Europa.

    O Cruzeiro esteve atento no jovem talento desde seus tempos de Independiente del Valle e não perdeu a oportunidade de contratá-lo, ainda por 50% dos seus direitos, em setembro de 2025, por € 8 milhões (na época, referente a R$ 50,8 milhões). Das 17 últimas partidas do Cabuloso na temporada, Arroyo disputou 15, 8 como titular, mas só foi ter o seu grande momento no último jogo do ano: a volta da semifinal da Copa do Brasil de 2025, contra o Corinthians, em dezembro.

    Com o Timão tendo vencido a ida, no Mineirão, por 1 a 0, o Cruzeiro de Leonardo Jardim chegou pressionado na Neo Química Arena. Aos 31 minutos, Arroyo entrou em campo no lugar de Sinisterra, que saiu lesionado, e mudou o jogo. O equatoriano marcou dois gols, um aos 40 e outro aos 51 minutos, dando vantagem ao Cruzeiro. Não muito depois, porém, o Corinthians balançou as redes com Matheus Bidu, deixando o placar agregado em 2 a 2. Apesar da vitória e do desempenho individual impressionante do ponta, a Raposa acabou perdendo nos pênaltis por 5 a 4.

    Mesmo com a eliminação, aquela noite entrou para a história pessoal de Arroyo como a partida em que ele mostrou, com dois gols numa decisão de mata-mata, que tinha frieza para os momentos de pressão. Era uma característica rara de se ver num atleta de apenas 19 anos, recém-chegado a um país e a um futebol diferentes dos que conhecia até então.

  • imago-sport-1081728841.jpgSports Press Photo

    Como está indo

    O que a atuação contra o Corinthians insinuou, a temporada atual confirma. Arroyo iniciou 2026 sem vaga fixa no time titular, até que o técnico Artur Jorge assumiu o time em março, após a saída de Leonardo Jardim, e deu ao ponta o ambiente ideal para crescer.

    Na atual temporada, Arroyo disputou 42 jogos, sendo 30 como titular (21 sob o comando de Artur Jorge), marcou sete gols e deu três assistências. O mais recente saiu contra o Atlético-MG, na ida das quartas de final da Copa do Brasil: recebeu a bola fora da área e arriscou uma bomba de muito longe, encaixada no ângulo, do tipo de finalização que só um jogador destemido tenta num momento de tanta pressão.

    Mas este não foi um lance isolado. Nas semanas anteriores, Arroyo já havia repetido a dose duas vezes contra o Flamengo, uma pela Libertadores e outra pelo Brasileirão. Os dois gols contra o rubro-negro seguiram praticamente o mesmo roteiro: bola recebida na ponta esquerda, corte com a perna canhota para tirar o defensor da jogada e finalização certeira, também no ângulo. Foram três gols parecidos em três jogos decisivos, uma sequência de nível pouco comum até para jogadores mais experientes.

    O gol contra o Flamengo, aliás, colocou Arroyo num grupo seleto da história recente do clube: ele se tornou o sexto jogador do Cruzeiro neste século a alcançar ao menos 10 gols pela equipe antes de completar 21 anos, juntando-se a nomes como Igor Thiago, Marcelo Moreno, Guilherme, Fred e Jussiê.

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  • Cruzeiro v Corinthians - Brasileirao 2025Getty Images Sport

    Pontos fortes

    Arroyo é um jogador de velocidade e drible curto, o tipo de ponta que gosta de partir da direita para cortar em direção ao meio e finalizar com a perna esquerda, sua principal arma. Ao mesmo tempo, pode cair para o meio e jogar mais centralizado, como um segundo atacante.

    Essas características são enfatizadas pelo jornalista equatoriano Victor Bonilla, entrevistado pelo GE antes da estreia de Arroyo com a camisa celeste, que afirmou que Cheche "destaca-se por suas fintas, desenvolvimento em campo e verticalidade, qualidades que fazem dele um jogador desequilibrante no um contra um mesmo sendo novo".

    O jornalista equatoriano Jesús Alencastro, do Studio Futbol Web, reforçou essa leitura na mesma reportagem do GE, alegando que Arroyo tem "muita habilidade, drible e movimentação" e "um bom chute de esquerda". Na ocasião, Alencastro também resumiu em poucas palavras o tipo de futebol que Arroyo pratica: "Seu futebol é muito ofensivo, muito divertido e alegre. Cheche é um extremo atrevido, que encara, que gosta de jogos ofensivos".

    Com 1,76 m e cerca de 74 kg, Arroyo não tem porte físico avantajado, mas compensa isso com explosão nos primeiros metros e uma capacidade de conduzir a bola em espaços curtos que costuma desequilibrar marcações organizadas.

    Além disso, a recente sequência de gols de fora da área revela outra faceta importante do repertório do equatoriano: a confiança para arriscar o chute de média e longa distância, sem depender apenas do drible até a linha de fundo. Do ponto de vista técnico, ele também tem faro de gol e senso de oportunidade em jogos decisivos, como mostrou diante de Corinthians, Flamengo e Atlético-MG.

  • Cruzeiro v Santos - Brasileirao 2026Getty Images Sport

    Espaço para melhorias

    O mesmo atrevimento que a imprensa equatoriana tanto elogiou quando Arroyo chegou ao Cruzeiro é, também, a raiz do seu principal ponto fraco. Ser um extremo "atrevido, que encara", como descreveu Alencastro, tem um preço: em campo, essa disposição para o confronto às vezes escapa do controle, e a inconstância emocional tem sido o ponto mais delicado da temporada de Arroyo.

    Em maio de 2026, o equatoriano foi expulso duas vezes numa mesma semana, no clássico contra o Atlético-MG e, poucos dias depois, na Libertadores, contra a Universidad Católica. A sequência de cartões vermelhos rendeu críticas de torcedores nas redes sociais, com cobranças por punição interna e reclamações sobre a cabeça quente do jovem em momentos de pressão.

    O episódio expõe o principal desafio de maturação de Arroyo: aprender a lidar com a frustração e a marcação mais dura sem perder a compostura, algo comum em pontas rápidos e habilidosos, que costumam ser alvo recorrente de faltas dos adversários.

    Soma-se a isso a ainda irregular adaptação física ao ritmo mais intenso do futebol brasileiro e resquícios de uma experiência frustrada na Turquia, onde teve poucos minutos e não conseguiu se firmar como titular. O caminho passa por evoluir taticamente sem a bola e, sobretudo, blindar a cabeça nos momentos de tensão, sob risco de custar caro ao time justamente nas decisões que ele tanto gosta de protagonizar.

  • Cruzeiro v Flamengo - Copa CONMEBOL LibertadoresGetty Images Sport

    O próximo... Gonzalo Plata?

    A comparação surgiu ainda antes de Arroyo pisar em Belo Horizonte pela primeira vez. "Com os devidos cuidados, parece Gonzalo Plata em muitos aspectos", disse Jesús Alencastro ao GE.

    As semelhanças, porém, não param no estilo de jogo. Ambos são equatorianos, pontas, canhotos, rápidos e que atuam de preferência pelo lado direito do campo. As medidas corporais também são equivalentes: Plata tem 1,78 m de altura e 76 kg, um arquétipo físico bem parecido com o de Arroyo e que parece ideal para a função que os dois ocupam em campo, equilibrando estatura e velocidade.

    Fora dos gramados, Plata e Arroyo também compartilham uma trajetória rumo à Europa que não saiu como planejado. Plata amargou dificuldades no Real Valladolid, da Espanha, antes de florescer no futebol brasileiro. Arroyo viveu roteiro semelhante no Besiktas, da Turquia, antes de aceitar a proposta do Cruzeiro, e hoje repete no Brasil o mesmo movimento de recuperação que deu certo para o compatriota.

    Pela idade e pelo potencial de melhora, porém, Arroyo pode chegar ainda mais longe do que o próprio espelho escolhido pela imprensa equatoriana. Este é apenas seu segundo ano no Brasil, o primeiro com verdadeiro destaque desde a temporada de estreia pelo Independiente del Valle. Há, portanto, muito espaço de aprendizado e evolução pela frente, o que torna a comparação com Plata menos um teto e mais um ponto de partida.

  • Cruzeiro v Flamengo - Copa CONMEBOL LibertadoresGetty Images Sport

    O que vem a seguir

    Aos 20 anos e com contrato até dezembro de 2029, Arroyo tem pela frente a missão de transformar a atual sequência de gols em consistência de longo prazo. Depois de alternar entre titularidade e banco de reservas em pouco mais de um ano de Brasil, ele parece hoje mais perto de ser peça indiscutível do que de voltar à reserva, algo que passa também por resolver o problema disciplinar mais recente antes que ele volte a custar caro em jogos decisivos.

    O calendário imediato já reserva um novo teste de peso: a volta contra o próprio Atlético-MG, na Arena MRV, decidindo a vaga na semifinal da Copa do Brasil. Some-se a isso a disputa simultânea da Libertadores e do Brasileirão, competições em que o Cruzeiro briga na ponta da tabela e depende cada vez mais da regularidade do ponta equatoriano.

    A médio prazo, a expectativa natural é a de que, seguindo o roteiro de Caicedo, Pacho, Hincapié e do próprio Plata, essa sequência de boas atuações reacenda o interesse do futebol europeu. Dessa vez, porém, em condições mais maduras do que as de sua primeira tentativa.

    Por ora, o discurso do próprio jogador e do entorno do Cruzeiro é de que o foco está em ajudar o clube a brigar por títulos, com Copa do Brasil, Libertadores e Brasileirão todos em disputa na mesma temporada. Mas o mercado observa, e a nova joia da fábrica equatoriana de craques sabe que, se continuar no ritmo atual, dificilmente vai vestir a camisa celeste por muito mais tempo.