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Brazil v Morocco: Group C - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

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Imigração e identidade... O confronto entre Marrocos e a Holanda é mais do que um simples encontro

A cada quatro anos, a Copa do Mundo se transforma em um espaço onde se encontram questões como história, imigração e identidade, e onde as seleções nacionais contam histórias que vão além dos limites do campo. 

Há países que exportam ideias e outros que exportam jogadores; cada vez mais, alguns países passaram a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

A BBC Sport mencionou, em uma reportagem, que poucos confrontos da Copa do Mundo de 2026 representam essa interação tão bem quanto a partida entre Holanda e Marrocos nas oitavas de final do torneio.

Ao longo de décadas, a Holanda representou o destino natural para jogadores de futebol nascidos em solo holandês e de ascendência marroquina.

A crença predominante era de que qualquer jogador de origem marroquina que atingisse o nível exigido para representar a seleção dos “Moinhos” escolheria a Holanda sem hesitar, mas essa suposição não se sustenta mais hoje.

  • Morocco v Haiti: Group C - FIFA World Cup 2026Getty Images Sport

    A evolução das relações entre as federações holandesa e marroquina

    A história começa com Idris Bousta, que nasceu no bairro de De Burches, na capital Amsterdã, e se tornou o primeiro jogador nascido na Holanda e de origem marroquina a representar a seleção holandesa, quando Frank Rijkaard lhe deu a oportunidade de estrear contra a Alemanha, em novembro de 1998.

    Naquela época, não havia grande controvérsia sobre seu futuro na seleção, pois o Marrocos nem sequer havia entrado em contato com ele.

    Posteriormente, Bosta disputou duas partidas pelo Marrocos, após ter jogado apenas três pela Holanda — uma mudança permitida na época de acordo com os regulamentos da FIFA, já que suas participações pela seleção holandesa se limitaram a jogos amistosos.

    No entanto, reduzir essa mudança apenas à política seria uma simplificação equivocada, pois, para muitos jogadores com dupla nacionalidade, a decisão sempre foi uma escolha pessoal profunda, determinada pela família, pela cultura e pelas oportunidades tanto quanto pelos passaportes ou pelos debates públicos.

    No entanto, a relação entre as federações de futebol da Holanda e do Marrocos mudou radicalmente: cerca de um em cada quatro jogadores participantes da Copa do Mundo de 2026 nasceu fora do país que representa.

    Além disso, 8 das 48 seleções do torneio contam com um número de jogadores nascidos fora do país igual ou superior ao número dos nascidos no próprio país, um reflexo claro de como o futebol internacional moderno está ligado aos padrões de migração.

    Poucas seleções simbolizam essa evolução como os Leões do Atlas, já que 19 dos 26 jogadores da lista do técnico Mohamed Wahbi nasceram fora do Marrocos.

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  • MOROCCO-FRANCE-FBL-WC-2026AFP

    Marrocos investe na descoberta de jogadores com dupla nacionalidade

    Há mais de uma década, a Federação Marroquina de Futebol começou a investir amplamente na descoberta de jogadores com dupla nacionalidade na Europa.

    Os olheiros se espalharam pela França, Bélgica, Espanha e Holanda, não apenas para acompanhar os talentos, mas também para construir laços sólidos com eles e com suas famílias anos antes de chegarem à seleção principal.

    O ex-técnico da Federação Marroquina, Pim Verbeek, explicou posteriormente que o processo de recrutamento não se limitava apenas ao jogador, mas que a família desempenhava um papel tão importante quanto o futebol na orientação de sua decisão.

    Essa política mudou o futuro da seleção marroquina: na Copa do Mundo de 2018, a lista contava com cinco jogadores nascidos na Holanda.

    Quatro anos depois, quando o Marrocos se tornou a primeira seleção africana a chegar às semifinais da Copa do Mundo, sua lista contava com 14 jogadores nascidos fora do país.

    É claro que essa mudança não aconteceu da noite para o dia. Nos anos que se seguiram à experiência de Bosta, jogadores como Ibrahim Afellay optaram por representar a Holanda, atraídos pela oportunidade de jogar por uma das maiores seleções do mundo.

    Ao mesmo tempo, o Marrocos continuava a desenvolver sua estratégia gradualmente, fortalecendo suas relações com jogadores de dupla nacionalidade muito antes de eles chegarem à seleção principal.

  • Morocco v Peru: International FriendlyGetty Images Sport

    Uma geração em transformação... e a decisão de Ziyech

    Nenhuma decisão simbolizou melhor essa transformação do que a de Hakim Ziyech: ele nasceu na cidade de Dronten, passou toda a sua formação no sistema de futebol holandês, representou as seleções de base da Holanda e chegou a ser convocado para a seleção principal em 2015.

    Embora uma lesão o tenha impedido de disputar sua primeira partida, o que aconteceu depois teve um impacto muito maior do que a simples ausência em um amistoso.

    Após as mudanças na comissão técnica holandesa após a saída de Guus Hiddink, Ziyech começou a sentir que não recebia o devido reconhecimento; já o Marrocos fez com que ele se sentisse um elemento indispensável.

    Os dirigentes da Federação Marroquina mantiveram contato constante com ele, explicaram-lhe uma visão esportiva de longo prazo e apresentaram-lhe um projeto no qual ele seria uma das principais figuras da seleção.

    E quando Ziyech decidiu representar o Marrocos, mais tarde naquele ano, muitos na Holanda ficaram surpresos.

    Mas sua explicação foi muito simples: “Sempre me senti marroquino... A escolha se faz com o coração”.

    O Marrocos está acostumado a ver seus maiores talentos, com dupla nacionalidade, optarem pelas grandes potências europeias, mas, de repente, um dos melhores jogadores da liga holandesa decidiu representar os “Leões do Atlante” em vez dos “Moinhos”.

    Outros seguiram o mesmo caminho: Nasser Mazraoui nasceu em Liderdorp, antes de passar pela base do Ajax; Sofiane Amrabat cresceu na cidade de Hoessen; e Anas Salahuddin foi formado nas escolas de futebol holandesas antes de optar por representar o Marrocos.

    Já Ismail El-Sibari, apesar de ter nascido na Espanha, teve sua formação futebolística quase inteiramente na academia do PSV Eindhoven.

    E quer esses jogadores consigam ou não garantir uma vaga na seleção holandesa mais forte, comandada por Ronald Koeman, isso não é o cerne da questão.

    Todos eles são jogadores de elite, formados no sistema de futebol holandês, mas que hoje passaram a defender um dos principais rivais da Holanda no cenário internacional.